O Que é Dominação Política? A tensão entre Força e Legitimidade

Na ciência política, o conceito de dominação vai além da simples imposição de poder. Refere-se à alta probabilidade de encontrar obediência a uma ordem específica. A questão central, portanto, não é apenas quem manda, mas fundamentalmente, por que as pessoas obedecem. A resposta reside em uma dualidade essencial que sustenta qualquer sistema político: a relação entre a força e o consentimento.

De um lado, encontramos a forma mais explícita de dominação: a coerção e o uso direto da força. Este é o poder que se manifesta através do aparato repressivo do Estado — a polícia, as forças armadas, o sistema judicial e prisional. A obediência aqui é obtida pelo medo das consequências: punição, multas, prisão ou, em casos extremos, violência física. Essa é a face mais dura do poder, a garantia de que, esgotados todos os outros meios, a vontade do Estado prevalecerá pela imposição. Como definiu Max Weber, o Estado detém o monopólio do uso legítimo da força, que serve como o alicerce final de sua autoridade.

Por outro lado, e de forma muito mais eficaz e estável, a dominação se sustenta pelo convencimento e pela criação de legitimidade. Nenhum poder se mantém por muito tempo apenas pela força; seria um processo custoso e instável. A dominação mais profunda ocorre quando os governados aceitam a autoridade dos governantes como justa, correta e válida. A obediência, nesse caso, não vem do medo, mas do consentimento. As pessoas obedecem porque acreditam que é o certo a se fazer. Essa legitimidade é construída através da ideologia, da cultura, da educação, das tradições e do discurso político. É o que o pensador Antonio Gramsci chamou de hegemonia: a capacidade de um grupo dominante de apresentar seus interesses particulares como o interesse de todos, transformando sua visão de mundo em senso comum.


Essa legitimidade, como analisou o sociólogo Max Weber, pode se originar de fontes distintas, criando diferentes tipos de dominação consentida. A obediência pode se basear na tradição, quando as pessoas seguem regras e líderes porque "sempre foi assim", respeitando costumes ancestrais ou preceitos religiosos, como nas monarquias. Pode também surgir do carisma de um líder, cujas qualidades pessoais extraordinárias — como heroísmo, poder de oratória ou santidade — inspiram uma devoção quase incondicional em seus seguidores. Por fim, a dominação pode se fundamentar no cálculo racional, base da autoridade legal-racional dos Estados modernos. Nesse caso, obedece-se não a uma pessoa, mas a um conjunto de leis e normas impessoais que foram estabelecidas de forma racional, e àqueles que ocupam posições de poder de acordo com essas regras.

Sob uma perspectiva marxista, esse processo de convencimento ganha o nome de dominação ideológica. A ideologia, nesse sentido, não é apenas um conjunto de ideias, mas um sistema que produz uma "falsa consciência" da realidade. Ela é disseminada pela classe dominante (a burguesia, no capitalismo) através de instituições como a escola, a mídia, a igreja e a própria cultura, com o objetivo de fazer com que as relações de exploração e desigualdade pareçam naturais, inevitáveis ou até mesmo justas. Assim, o trabalhador é levado a acreditar que seu sucesso depende apenas de seu esforço individual, ignorando as barreiras estruturais do sistema. Dessa forma, a dominação não precisa recorrer constantemente à força, pois a própria classe dominada internaliza e reproduz os valores que garantem sua submissão, enxergando a exploração como a ordem natural das coisas.

A dominação política eficaz, portanto, raramente se apoia em apenas um desses pilares. Ela opera na tensão constante entre ambos, como um "punho de ferro em uma luva de veludo". A ameaça da força está sempre presente, mas a obediência no dia a dia é garantida pelo consentimento e pela crença na legitimidade do sistema. A estabilidade de qualquer ordem política depende, em última análise, de sua habilidade em equilibrar essas duas faces do poder: a capacidade de punir a desobediência e, principalmente, a arte de inspirar a aceitação voluntária.

O paradoxo da politização brasileira

O Brasil vive um paradoxo: uma sociedade intensamente politizada, com debates acalorados tomando as redes sociais, as famílias e as mesas de bar, mas que, ao mesmo tempo, parece incapaz de articular um questionamento profundo às bases de sua organização social e econômica. As paixões políticas se inflamam, a polarização atinge níveis alarmantes, mas o status quo, em sua essência, permanece inabalado. Para compreender essa aparente contradição, é preciso revisitar brevemente o processo de politização que se desenhou no país a partir das Jornadas de Junho de 2013.

Em junho de 2013, uma onda de protestos, inicialmente encabeçada por estudantes contra o aumento das tarifas de transporte público, tomou as ruas das principais cidades brasileiras. O movimento, que rapidamente se expandiu, aglutinou uma insatisfação difusa com a qualidade dos serviços públicos e a corrupção. A pauta inicial era clara e unificadora: a reivindicação por direitos sociais prestados pelo Estado em um "padrão FIFA", uma crítica direta aos vultosos investimentos para a Copa do Mundo em detrimento de áreas essenciais como saúde e educação. Era um grito por um Estado de bem-estar social mais eficiente e presente.

Este cenário de aparente unidade começou a se fragmentar com a massiva interferência das redes sociais, em especial o Facebook, então a plataforma dominante. As empresas norte-americanas de tecnologia forneceram a arena para um novo tipo de debate público, algorítmico e propenso à formação de bolhas ideológicas.

Nesse ambiente digital, a politização começou a se polarizar. Um novo estrato social, mais à direita no espectro político, emergiu com força, sequestrando a pauta anticorrupção. O discurso, antes focado na má gestão dos recursos públicos para fins sociais, foi redirecionado para uma narrativa moralista e seletiva, que encontraria seu auge na Operação Lava Jato e no antipetismo.


Enquanto a direita se aglutinava em torno do combate à corrupção, a esquerda via o fortalecimento de pautas identitárias. Reivindicações ligadas à igualdade de direitos individuais para minorias ganharam protagonismo, representando um avanço inegável no campo dos direitos civis. Contudo, essa ênfase, por vezes, se deu em detrimento de uma crítica mais ampla às desigualdades estruturais. As discussões sobre a exploração inerente ao sistema capitalista e a luta por direitos sociais universais, que marcaram o início de 2013, perderam centralidade no debate progressista.

A derrubada da presidente Dilma Rousseff em 2016 representou um ponto de inflexão, consolidando a força do polo da direita. A partir de então, a agenda conservadora se expandiu, incorporando com vigor pautas religiosas e tradicionalistas. Temas como a defesa da "família cristã", a flexibilização do porte de armas (pauta da "bancada da bala") e os interesses do agronegócio passaram a dominar o discurso, formando uma coesa base de apoio.

Esse movimento culminou na eleição de Jair Bolsonaro em 2018, um político que soube capitalizar como poucos as ansiedades e os valores desse segmento da sociedade. Seu governo foi a expressão máxima dessa nova direita, que se manteve forte o suficiente para quase garantir sua reeleição em 2022.

O Paradoxo Atual: Politização sem Ruptura

Chegamos assim ao cenário atual: uma sociedade que respira política, na qual a identificação com um dos polos ideológicos se tornou parte da identidade de muitos cidadãos. A polarização, embora com momentos de arrefecimento, segue como a principal tônica do debate público.

No entanto, o paradoxo se revela quando analisamos a profundidade das pautas em disputa. Os dois extremos do espectro político hegemônico, em suas manifestações mais visíveis, não tocam na essência da organização econômica e social vigente. As reivindicações contra o capitalismo, a crítica à irracionalidade de um sistema pautado pelo lucro das empresas privadas e a denúncia da crise ambiental como consequência direta desse modelo são vozes fracas ou periféricas.

A direita defende um liberalismo econômico que aprofunda a lógica do mercado, enquanto a esquerda institucional, em grande medida, busca gerenciar o capitalismo, tornando-o mais humano, sem, contudo, propor uma alternativa estrutural. As pautas identitárias, por mais justas e necessárias que sejam, quando desvinculadas de uma crítica sistêmica, correm o risco de serem absorvidas pela lógica do consumo e da representatividade vazia.

O resultado é uma politização de superfície, que mobiliza afetos e gera engajamento, mas que se mostra inofensiva ao status quo. O cidadão se sente politizado ao defender sua "tribo" ideológica, mas as estruturas de poder econômico, a precarização do trabalho e a degradação ambiental seguem seu curso, longe do centro do debate. O Brasil se tornou uma sociedade politicamente barulhenta, mas estruturalmente silenciosa.

Qual o significado de política?

A política, em sentido amplo, é o conjunto de práticas e relações que envolvem a disputa, o exercício e a limitação do poder, bem como a organização da sociedade em busca de objetivos coletivos. No imaginário democrático contemporâneo, ela é frequentemente apresentada como um espaço neutro de deliberação, onde diferentes interesses buscam consensos em prol do bem comum. Contudo, sob uma perspectiva marxista, é preciso ir além dessa aparência para compreender que a política é inseparável das relações de produção e da luta de classes que estruturam a sociedade.

Desde Marx, compreende-se que a história das sociedades é a história das lutas de classes. A política, nesse sentido, é um campo de batalha onde as classes dominantes buscam manter e reproduzir seu domínio, enquanto as classes subalternas tentam resistir, conquistar direitos e, eventualmente, transformar as estruturas vigentes. Trata-se, portanto, de um mecanismo de imposição de uma forma de sociedade à maioria, moldado pelos interesses da classe que controla os meios de produção e, por consequência, as instituições do Estado.

O Estado moderno exerce a função de preservar as condições de reprodução do capital. Isso inclui administrar as contradições internas do sistema, evitando que elas atinjam um ponto de ruptura que ameace a própria ordem. Nesse aspecto, o Estado atua como um “termostato” das contradições: promove ajustes econômicos e sociais que impedem a eclosão de crises irreversíveis, ao mesmo tempo que garante a continuidade da exploração.


No Livro III de O Capital, Marx aponta que o desenvolvimento das forças produtivas, incluindo o avanço do capital fixo e das tecnologias, tende a reduzir a necessidade de trabalho humano. Essa tendência, se levada ao extremo, minaria a própria base da produção capitalista, que depende da extração de mais-valor do trabalho vivo. A política, nesse contexto, funciona também como um instrumento para administrar esse dilema: criar mecanismos de contenção social e de redistribuição mínima que evitem a desagregação, mas sem romper com a lógica da acumulação.

Por outro lado, a política não é apenas repressão ou conservação da ordem. Ela também abre espaços, muitas vezes limitados e instáveis, para a organização popular, a construção de alternativas e a disputa de projetos societários. É nesse terreno que emergem movimentos sociais, sindicatos e partidos que se colocam contra a hegemonia do capital, buscando reorganizar a sociedade a partir de princípios de igualdade e justiça social.

Assim, a política pode ser entendida, de forma dialética, como:

  1. Instrumento de dominação, que organiza a sociedade segundo os interesses da classe dominante e preserva as condições de exploração;

  2. Mecanismo de regulação, que administra as contradições do capitalismo para evitar sua implosão;

  3. Espaço de disputa, no qual as classes subalternas podem articular resistências e propor transformações.

Compreender o significado da política a partir dessa perspectiva implica reconhecer que ela não é um campo neutro, mas um reflexo e um prolongamento da luta de classes. Mais ainda: implica entender que o desenvolvimento das forças produtivas, sob a lógica do capital, aprofunda as contradições sociais, e que a superação dessas contradições exige não apenas a conquista de espaços dentro da política institucional, mas a transformação radical das relações de produção.

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O Capital em Crise: A Falsa Escolha entre a Ordem Multilateral e a Barbárie Nacionalista

A discussão contemporânea sobre a ordem mundial nos apresenta um falso dilema: de um lado, um multilateralismo globalista que aprofunda a desigualdade; de outro, um neonacionalismo bilateral que fomenta o conflito. Para uma análise crítica, contudo, essa não é uma escolha entre dois sistemas opostos, mas entre duas faces da mesma moeda: estratégias distintas para a gestão das contradições inerentes ao modo de produção capitalista. Ambas as vias servem, em última instância, à mesma classe dominante, e ambas nos conduzem a um aprofundamento da barbárie.

A fonte da desordem, da miséria crescente, da devastação ambiental e da guerra não reside em uma "má governança", mas na lógica implacável da acumulação de capital.

O Multilateralismo como Ferramenta do Capital Transnacional

A chamada "ordem multilateral" nunca teve como propósito a cooperação equitativa entre os povos. Ela foi, e continua sendo, o arcabouço institucional que permitiu a expansão e a hegemonia do capital transnacional após a Segunda Guerra Mundial. Organismos como o FMI, o Banco Mundial e a OMC não são árbitros neutros; são instrumentos de poder da burguesia dos países centrais, projetados para impor a disciplina neoliberal, quebrar barreiras protecionistas e abrir mercados globais à exploração.

O aumento da desigualdade e a concentração de riqueza não são "falhas" ou "efeitos colaterais" desse sistema. São o seu resultado direto e necessário. A globalização, sob essa arquitetura, otimizou a extração de mais-valia em escala planetária, transferindo valor do trabalho da periferia global para o capital concentrado no centro do sistema. O "fracasso" em conter a ganância corporativa é, na verdade, o sucesso em garantir a liberdade irrestrita para o capital explorar o trabalho e a natureza.


O Neonacionalismo: O Recurso da Burguesia em Tempos de Crise

A ascensão do neonacionalismo de figuras como Trump não representa uma ruptura com a lógica do capital, mas sim uma resposta a suas crises cíclicas. Quando a globalização exacerba as tensões sociais internas e intensifica a rivalidade inter-imperialista, uma facção da classe dominante recorre ao Estado-nação como seu principal instrumento de poder.

Essa estratégia utiliza a xenofobia, o protecionismo e o militarismo para dois fins principais: primeiro, desviar a raiva da classe trabalhadora, culpando o "outro" (o imigrante, a nação estrangeira) pelas mazelas causadas pela própria exploração capitalista. Segundo, disputar com outras burguesias nacionais uma fatia maior da riqueza global num cenário de crescimento estagnado. O bilateralismo de Trump não era uma política anti-sistema; era a expressão de uma competição mais agressiva entre diferentes blocos de capital, utilizando o poder do Estado para garantir vantagens.

O Estado, o Capital e a Superação Necessária

Seja operando sob a bandeira do livre-comércio global ou do protecionismo nacional, o Estado capitalista moderno cumpre sua função primordial: garantir as condições para a acumulação de capital. É por isso que nenhum desses modelos pode resolver as crises que enfrentamos. A crise ambiental, por exemplo, é a contradição final do capitalismo: a necessidade de crescimento infinito em um planeta finito. A lógica do lucro sempre se sobreporá à sustentabilidade, seja em acordos multilaterais vazios ou em uma corrida nacionalista para o fundo do poço ecológico.

A superação do caos gerado pelos Estados nacionais e, fundamentalmente, pelas empresas capitalistas, é a única saída lógica. O caminho, contudo, é incerto. A ideia de uma transição conduzida por um "Estado global" é, no mínimo, ambígua. Sem uma revolução na base da estrutura de poder, um Estado global poderia facilmente se tornar o leviatã definitivo da ditadura do capital, uma burocracia planetária a serviço da burguesia unificada. Nada garante que tal entidade servisse aos interesses da humanidade.

A verdadeira utopia, ainda que distante, reside em um socialismo democrático e tecnológico: um sistema onde os vastos recursos produtivos e tecnológicos, hoje controlados por uma minoria para fins de lucro, sejam postos sob o controle democrático dos próprios produtores e da sociedade como um todo. Apenas a planificação racional e democrática da economia para atender às necessidades humanas — e não à necessidade de acumulação — pode nos tirar do ciclo de crises, guerras e destruição.

O debate entre multilateralismo e nacionalismo é uma distração. A tarefa histórica que se coloca não é a de reformar a gestão do capitalismo, mas a de construir a força política para superá-lo.


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