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Os perigos do desgoverno global

Numa era de comunicação global instantânea, de avanços tecnológicos no transporte de cargas e passageiros, de conexão mundial em redes e rotas comerciais, ainda padecemos de problemas dos mais remotos tempos, como a miséria e as guerras.

Infelizmente, essa mesma tecnologia que diminuiu as distâncias e uniu todos os continentes também ameaça dar ares finais aos movimentos bélicos, deixando sempre no horizonte o temor de nossa autodestruição atômica.

Olhando para o planeta, vemos todos os males causados pela falta da política estrutural. Ao deixarmos o mundo entregue às articulações nacionais e aos interesses do mercado, sufocamos ante questões criadas pela ganância, pela ambição e pelo ódio.

Não conseguimos consolidar mecanismos de atendimento às necessidades básicas da humanidade: alimentação, moradia, saúde, educação e transporte. Regiões inteiras ainda sofrem males desnecessários, que poderiam ser superados com um mínimo de organização e boa vontade.


Sob o pretexto de liberdade econômica, condenamos populações inteiras a condições inadmissíveis de vida. Migrantes movidos pelo desespero ou pelo medo cruzam continentes em busca de um sonho que nunca se concretizará. Enquanto isso, mentes inferiores espalham o preconceito e instigam a violência.

As condições ambientais de nossa Terra degradam-se explicitamente, mas o negacionismo tenta silenciar os críticos. Em pouco tempo atingiremos um patamar irreversível de destruição, com consequências imprevisíveis para o futuro da vida. 

Nada parece o bastante para evidenciar que as grandes empresas e os líderes nacionais são coniventes com a situação criada. Ainda que por vezes os Estados nacionais possam ser alvejados pelos movimentos de protesto, raramente as grandes empresas o são. Bigtechs, empresas petrolíferas, instituições financeiras deveriam ser cerceadas por um governo superior que buscasse a construção de um planeta melhor.

A tecnologia que pode nos destruir também pode nos salvar. Algoritmos precisam ser socializados e programados para encontrar os melhores caminhos para solucionar problemas da humanidade. Os Estados nacionais precisam ser articulados numa rede global de respeito, tolerância e busca da efetivação dos direitos sociais. Precisamos dar o passo no sentido certo. Não podemos prosseguir cambaleando e andando a esmo, conduzidos pela concorrência econômica.

O que vai acontecer com Bolsonaro?

 O que vai acontecer, politicamente falando, com Bolsonaro quando deixar a Presidência?

Antes de trazermos algumas hipóteses, convém entender o que pode acontecer com a "bolha tradicionalista" formada em torno de sua atuação como Presidente e, depois, como candidato.


Analisando-se os resultados das eleições parlamentares e para os governos estaduais, partidos ligados ao movimento evangélico, ao centrão e ao agronegócio conquistaram posições importantes. A tendência é que não apoiem uma oposição bolsonarista, aderindo ao governo ou a outros nomes.

Avançando nas possibilidades, para desenharmos o pior cenário para Bolsonaro, os Lavajatistas, com ambições próprias, buscam novamente um caminho isolado e os Militares (sobretudo da ativa), dado o apoio das potências mundiais ao novo governo, silenciam.


Restará, assim, a Bolsonaro, dois grupos que sempre foram considerados "raízes":
  1. Grupo heterogêneo de pessoas com personalidade autoritária, com frustrações diversas e com armas nas mãos; 
  2. Grupo de simpatizantes ligados à direita global e a movimentos tradicionalistas, geneticamente bolsonaristas (na versão que emerge a partir de 2016).
Nesse sentido, Bolsonaro e aqueles mais próximos a ele continuariam liderando um partido digital, que se estrutura em redes sociais de propriedade de empresas privadas globais.


Qual o tamanho dessa liderança (em termos populacionais) e qual seu poder?

Muito dessa resposta virá da análise dos resultados das eleições norteamericanas que ocorrem agora em novembro. Lá, o cenário é muito parecido com cá: Trump perdeu por pouco as eleições presidenciais e continuou bastante influente em seu partido digital.

Podemos, de qualquer modo, especular que 20 a 30% da população brasileira continue cegamente fiel a Bolsonaro. Trata-se de um contingente considerável, capaz de fazer dele uma influência política em qualquer eleição e uma ameaça à democracia.

Em 2023, portanto, Bolsonaro começa, mesmo nesse pior cenário para ele, com um poder bastante elevado.

A tendência é que utilize seu partido digital para mobilizar constantemente seus seguidores. Para tanto, recorrerá a técnicas de marketing político, plantando dúvidas que somente viram certeza após uma reflexão dos correligionários.

E essas dúvidas levarão à constatação de que existem inimigos do verdadeiro povo brasileiro (bolsonarista), os quais precisam ser combatidos de qualquer maneira.

Quão bem sucedido será Bolsonaro?

O êxito de um partido digital depende da "boa vontade" das empresas privadas globais cujos algoritmos impulsionam postagens com conteúdo antidemocrático, mentiroso ou odioso.

Quando o partido digital é pequeno, com poucos seguidores, depende de um investimento inicial para crescer. Depois de um certo ponto, basta entender o algoritmo e o crescimento torna-se orgânico.

No caso do Bolsonarismo, pode ser que seu partido digital já tenha atingido o patamar do orgânico, tornando-se razoavelmente "barato" de operar.

Caso isso tenha ocorrido, o sucesso de Bolsonaro estará ligado apenas ao compromisso das citadas empresas privadas com a legislação brasileira: se elas derem espaço à máquina bolsonarista, ela continuará crescendo.

Bolsonaro será preso?

Esta questão está intimamente ligada às anteriores. Inegavelmente há razões jurídicas para Bolsonaro ser preso ou tornar-se inelegível. Mas, o direito nunca anda desconectado da política.

Por mais que o STF e o TSE tenham mostrado muita força, coibindo atos antidemocráticos, essa força nunca foi maior do que podia ter sido. Há uma linha entre o silenciamento promovido pelas instâncias jurídicas e o indesejável efeito oposto, de amplificar as agitações sociais.

Caso Bolsonaro seja bem sucedido em 2023 e fortaleça ainda mais sua bolha, não haverá condições sociais para sua prisão ou para ser considerado inelegível. É com isso que ele conta.

Deus, Pátria, Família e Liberdade" é um ideal fascista

Em postagem anterior, mencionei que o lema bolsonarista "Deus, Pátria, Família e Liberdade" era fascista. Alguns ótimos interlocutores, com quem tenho divergências políticas, questionaram, de modo bastante plausível, a alegação.

Por questões de adequação ao meio (redes sociais), não farei aqui considerações etimológicas ou históricas sobre o termo "fascismo". Considero-o sinônimo de autoritarismo.

Quando se defendem as quatro palavras iniciais no singular, articula-se um discurso que naturaliza uma determinada visão de mundo e exclui todas as outras, caracterizando-se o ponto de vista fascista.

Assim, proclama-se "Deus" como se todas as religiões fossem ou devessem ser monoteístas e como se o "correto" fosse seguir o Deus cristão.

Religiosidades diversas, politeístas ou não cristãs, ou, ainda, o ateísmo, são excluídos e passam a ser considerados estranhos.

A palavra "Família" é utilizada como sinônimo de uma composição familiar idealizada durante o século XIX, com papéis e gêneros especificados por traços culturais.

Outras estruturações familiares, com papéis e gêneros diversificados, são reputadas indesejáveis do ponto de vista moral e responsabilizadas pela decadência dos costumes.

A palavra "Pátria" é utilizada com um caráter complementar a "nação", em sentido europeu, conforme delineada a partir do século XVIII. Considera que pessoas com traços culturais comuns devem viver juntas e repelir outras que ameacem essa união.

Assim, pessoas de outras pátrias não devem viver entre "nós", ou, no máximo, devem viver em condição inferior, aceitando essa pretensa inferioridade.

Ideias que questionam a desigualdade social ou a posição de mando de determinadas autoridades são consideradas como não patriotas e que foram "importadas" por pessoas que deveriam abandonar o país.

Por fim, "Liberdade" é utilizada em um sentido libertário, por um lado, como a possibilidade de manifestar qualquer pensamento, ainda que seja um discurso odioso cujo alvo sejam pessoas que não sigam "Deus", ameacem a "Família" ou não se enquadrem na "Pátria".

Por outro, é utilizada em um sentido econômico, similar a livre iniciativa (para os ricos) ou empreendedorismo (para os pobres).

Em um ambiente de precarização e de neoliberalismo, a "Liberdade" em sentido econômico é um apelido cruel à uberização e à necessidade de labuta incessante. Considera que o Estado atrapalha o cotidiano de luta, ao invés de considerá-lo um garantidor de direitos.

Essa "Liberdade" econômica oculta, portanto, a falta de igualdade e a perda de direitos das pessoas. Condena os defensores da intervenção estatal e da tributação como inimigos, naturalizando uma ordem capitalista cruel que amplia as desigualdades e a concentração de riquezas.

Portanto, se você quiser utilizar essas palavras, passe a usar no plural e combinada com outras: "Deuses; Pátrias e Pessoas; Famílias; Liberdade e Igualdade". Caso não consiga usá-las assim, cuidado: sua personalidade é autoritária.

As eleições continuam: robôs bolsonaristas funcionam a todo vapor

Confirmada a vitória da bolha progressista sobre a bolha tradicionalista, é natural que a primeira comemore. Há dúvidas quanto às reações da bolha tradicionalista.

Composta por grupos heterogêneos porém unidos pelo bolsonarismo, a reação pode ser diferente para cada um desses segmentos, causando inédita fissura na bolha.

Os grupos evangélicos conquistaram vários postos nas eleições, sendo o governo do Estado de São Paulo, pelo partido Republicanos, ligado a uma dessas igrejas, o mais significativo.

Parece pouco provável que embarquem em algum movimento de contestação ao resultado das eleições no segundo turno, pois isso implicaria um questionamento aos próprios resultados favoráveis.

Os grupos ligados ao agronegócio conquistaram vários governos no Centro Oeste e no Norte, também não devendo embarcar numa onda contestatória às urnas eletrônicas.

As Forças Armadas estão silenciosas e esse silêncio, nessa altura, é sinal de que tendem a referendar o resultado eleitoral.


Dúvidas pairam sobre outros grupos armados e sobre o outrora designado "Gabinete do Ódio", que corresponde ao grupo ideológico mais radical, ligado aos movimentos globais de direita e bastante competente no uso de instrumentos de comunicação digital.

Esse grupo ideológico está bastante ativo nas redes sociais, direcionando seus robôs digitais e seus "robôs humanos" a disseminarem postagens dentro da bolha progressista.

Algumas dessas postagens foram infelizes, indicando que o país estaria de luto pela derrota de Bolsonaro. Imediatamente geraram indignação e uma reação dizendo que o luto é pela COVID, não pela derrota eleitoral.

Mas o grupo ideológico é bastante rápido e capaz de recalibrar seus "guerrilheiros digitais" com eficácia.

Nesse jogo, é preciso desvendar a reação que se pretende causar no adversário, para reagir de outro modo, neutralizando a ação pretendida.

Durante as eleições de domingo, por exemplo, houve uma tentativa, por parte desse grupo da bolha tradicionalista, de fazer a bolha progressista dizer que havia fraude nas eleições. Foram plantadas notícias de atuação da Polícia Rodoviária Federal com o intuito de gerar esse movimento. Todavia, a bolha progressista não "caiu" na cilada.

De todo modo, a atuação dos robôs digitais tem sido, como dito, das mais intensas.

Várias postagens que escrevi há algum tempo estão recebendo comentários neste momento, sempre desfavoráveis a Lula e favoráveis a Bolsonaro.

Ainda não é possível identificar a estratégia pretendida. Precisamos comparar nosso caso à eleição norteamericana de 2020, pois o grupo ideológico pode clonar os passos seguidos por Trump, com algumas adaptações.

Lá, o foco foi a alegação de fraude eleitoral com a mobilização para ocupar o Capitólio. Aqui, podemos ter uma mobilização para invadir o TSE ou para inviabilizar a posse de Lula, por exemplo. 

Todas as hipóteses precisam ser consideradas, uma vez que o grupo ideológico é capaz de instigar as massas bolsonaristas.

Bolsonarismo precisa esperar o resultado da apuração para impulsionar potencial alegação de fraude

Por mais que as pesquisas indiquem a liderança de Lula, a apuração amanhã pode não consumar sua vitória. Consideremos três hipóteses:

1. A abstenção maior entre os eleitores lulistas prejudica seu desempenho e possibilita a vitória de Bolsonaro.

Essa abstenção, inclusive, dadas as notícias recentes, pode ser amplificada pelas ameaças de empresários e outros crimes eleitorais não detectados.

2. As amostras dos institutos de pesquisa, dada a falta de novo Censo, estão imprecisas e suas estimativas viciadas.

Nesse caso, Bolsonaro estaria na frente de Lula, considerando-se o erro amostral, vindo a vencer as eleições.


3. Embora Lula esteja na frente das pesquisas, entre hoje e amanhã ocorrem episódios "virais" que convencem eleitores indecisos, brancos e nulos, além de inverter alguns votos.

Novamente, nessa terceira hipótese, Bolsonaro sairia vencedor, apesar do resultado adverso das pesquisas.

Rigorosamente, nenhuma dessas hipóteses pode ser descartada, levando os bolsonaristas e sua bolha tradicionalista a viverem um impasse.

Como Bolsonaro pode vencer as eleições, seria perigoso e sairia pela culatra um impulsionamento imediato, em massa, de teses questionadoras da idoneidade das urnas eletrônicas.

Em outras palavras, esse impulsionamento poderia gerar a desconfiança de que Bolsonaro  e as Forças Armadas manipularam as urnas eletrônicas e programaram internamente ao sistema do TSE sua vitória.


Por outro lado, se não houver qualquer impulsionamento em massa dessa tese de fraude nas urnas eletrônicas, a tese enfraquece, sobretudo no caso da vitória de Lula.

Se os bolsonaristas esperarem a derrota para esse impulsionamento, ele pode soar como "choro de derrotado" e não convencer muita gente.

O mais provável, assim, é que já exista, nesse caso de derrota bolsonarista, um momento definido para a disseminação da tese.

Analisando-se a apuração do primeiro turno e de outras eleições, como 2014, os Estados bolsonaristas e o DF costumam enviar seus resultados ao TSE com maior rapidez. Assim, a tendência é que Bolsonaro comece a apuração com ampla vantagem sobre Lula.

Essa vantagem, dadas as hipóteses citadas, pode diminuir sem que ocorra a "virada" lulista. Mas, claro, dadas as pesquisas eleitorais, no momento final da apuração pode ocorrer a "virada" e Lula, que ficaria atrás quase 90% do tempo, sairia vencedor.

Caso os bolsonaristas percebam, no final da apuração, que a virada está ocorrendo, será o potencial momento em que haverá a disseminação da tese da fraude, mobilizando sua "tropa".

Autoritarismo econômico

 A economia é o espaço social em que os bens são produzidos e distribuídos. A política econômica consiste na definição de critérios, escolhidos pela sociedade, para produzir e distribuir os bens.

Nesse espaço social, algumas perguntas básicas devem ser respondidas:

  • O que produzir
  • Quem produzir
  • Como produzir
  • Quando produzir
  • Quanto produzir
  • Para quem produzir

Numa sociedade com nível mais aprofundado de democracia, essas perguntas são respondidas por toda a população, de modo deliberativo.

A economia capitalista de mercado forja uma regra (oferta e procura), pretensamente objetiva, a partir da qual as decisões que respondem às perguntas acima são transferidas para indivíduos ou empresas privadas (livre iniciativa e concorrência).


Sob essa falsa objetividade, instaura-se um regime autoritário que submete a esmagadora maioria da população a jornadas desnecessárias de trabalho ou de empreendedorismo, condenando outra parcela à exclusão econômica.

Oculta-se que as perguntas acima são respondidas por pequeno grupo de investidores e por empresas globais que efetivamente definem os rumos econômicos do planeta.

As decisões econômicas tomadas por esse pequeno grupo tendem a estruturar relações econômicas que o favorecem cada vez mais, aumentando a concentração de riquezas.

Com o avanço tecnológico, tal grupo pode desprezar a participação humana do processo produtivo dos bens, precarizando as relações de trabalho.

Aos poucos, com a disseminação de produtos financeiros e de uma economia de acionistas, a massa popular torna-se desnecessária até para o consumo, agravando-se a miséria.

Além disso, como as relações produtivas são estruturadas para favorecer o grupo capitalista, a meritocracia torna-se uma mentira, ocorrendo favorecimentos subjetivos e a perpetuação das classes pela herança.

Níveis de democracia

 Democracia significa que as pessoas participam das decisões mais importantes que interferem em sua vida.

Falando assim, fica evidente que as sociedades não são plenamente democráticas, pois a esmagadora maioria da população vive conforme regras e situações impostas previamente e sobre as quais não deliberaram.

Podemos considerar que há um primeiro nível de democracia, o mais superficial de todos, também o mais amplamente disseminado: a participação na escolha dos representantes  que ocupam postos estatais.

Esse nível materializa-se nas eleições periódicas e, eventualmente, em mecanismos como plebiscitos e referendos. Corresponde à democracia liberal.

O segundo nível de democracia é raro e ocorre na economia. Consiste na participação das pessoas nas decisões relativas ao objeto da produção e aos critérios de distribuição.

Nesse nível econômico, a sociedade decide o que deve ser produzido, por quem, quando e para quem.

No modelo liberal, essa decisão econômica é aberta a poucos, chamados de donos de empresas, acionistas, investidores... O critério para a decisão é subjetivo, focado no lucro, embora seus impactos atinjam a vida de todos.

Há alguns anos, seus defensores argumentavam que não existia uma racionalidade pública melhor do que essa racionalidade denominada de "competitiva". Defendiam, assim, a "livre iniciativa".

O primeiro quarto de século XXI revela o esgotamento desse autoritarismo econômico e a necessidade de efetivação do segundo nível de democracia. Essa economia tem agravado as desigualdades sociais e tornado explícita a falta de meritocracia.

A grande novidade para esse aprofundamento democrático é a digitalização da economia e a disseminação dos algoritmos. Observando-se o comportamento das redes sociais, algoritmos conseguem convencer pessoas a trabalharem gratuitamente produzindo, compartilhando e curtindo conteúdos.

Haveria, portanto, a possibilidade de, socializando-se os algoritmos, construir uma democracia econômica, superando a economia de mercado. Caberia à política conduzir esse processo.

A democracia liberal precisa ser superada

 A palavra democracia costuma ser definida como "governo do povo". Trata-se de uma situação em que o poder político pertence à população de um local e é exercido em nome de seus interesses comuns.

A primeira discussão que o conceito traz é a forma como esse poder será exercido: diretamente ou por representantes.

A democracia direta é aquela em que o povo delibera sobre as regras de sua sociedade, julga os conflitos e executa os serviços públicos. Nenhuma sociedade com muitos habitantes e um território amplo conseguiu utilizá-la.


O mais comum é a organização de um Estado e a seleção de pessoas para representar o povo, via concurso público ou votação.

Atualmente, o modelo representativo ainda hegemônico é a chamada democracia liberal, cuja representação nos principais postos decorre de eleições periódicas. Além disso, o Estado é dividido em três Poderes e seu funcionamento respeita o princípio da legalidade.

Esse modelo, contudo, revela-se incapaz de resolver graves problemas do presente, como o aumento da pobreza, a concentração de riqueza e a falta de meritocracia econômica.

Essa incapacidade faz surgir líderes que pretendem implementar novos modelos de democracia ou, no extremo, suprimi-la. Também propicia o fortalecimento de instituições externas ao Estado, como as igrejas evangélicas e as redes sociais.

O fortalecimento desses líderes e dessas instituições revela que qualquer tentativa de retorno ao modelo liberal sem uma resolução satisfatória para os três problemas apontados será efêmera e pouco efetiva.

Assim, a busca de amplas coalizões sociais entre beneficiários de direita e de esquerda do atual sistema tende a mobilizar cada vez menos pessoas, soando uma tentativa inócua de autopreservação de vantagens.

As novas forças tecnológicas produzidas pela sociedade digital devem ser incorporadas a um alargamento do processo democrático, superando o estreito conceito de democracia liberal que afasta o povo de uma participação concreta dos processos decisórios que afetam sua vida cotidiana.