O nome, o indício e o arquivo
Carlo Ginzburg (1939-2026) e a história como ciência do vivido
Por Erik Chiconelli Gomes
Morto em Bolonha aos 87 anos, o historiador italiano legou menos um conjunto de temas do que um modo de ler, a suspeita metódica diante de documentos fabricados pelo poder.
Carlo Ginzburg morreu na madrugada de 17 de junho de 2026, em Bolonha, aos 87 anos (DUJIN, 2026). Filho do intelectual antifascista Leone Ginzburg, preso e morto em 1944, quando Carlo ainda era criança, e da escritora Natalia Ginzburg, estudou na Escola Normal Superior de Pisa e formou-se na Universidade de Pisa, tornando-se um dos historiadores italianos mais lidos e traduzidos no mundo e uma das figuras fundadoras da micro-história (DUJIN, 2026). O que fica dele não é um repertório de assuntos pitorescos. É um método. E esse método nasceu de um acaso de arquivo. No verão de 1962, ao folhear processos da Cúria episcopal de Udine, Ginzburg encontrou uma sentença em que um réu sustentava que o mundo nascera da putrefação (GINZBURG, 2006, p. 9). Anotou o número do processo, guardou a curiosidade por anos e só em 1970 voltou a ela. O réu chamava-se Domenico Scandella, conhecido como Menocchio.
A primeira lição de Ginzburg diz respeito à escala. Estreitar o foco a um moleiro, a uma aldeia, a um único processo não é fazer história pequena. É um procedimento para tornar visíveis as estruturas que os grandes relatos esmagam. O termo que ele e Carlo Poni cunharam para isso, o excepcional normal, nomeia o caso marginal capaz de iluminar uma realidade que a documentação corrente cala (GINZBURG, PONI, 1991, p. 176-177). A microanálise é, por isso, bifronte. Reconstitui um vivido que outras historiografias não alcançam e investiga as estruturas invisíveis em que esse vivido se inscreve. Daí a definição que se tornou divisa, a micro-história e a história em geral como ciência do vivido (GINZBURG, PONI, 1991, p. 178).
O queijo e os vermes (1976) é a demonstração desse programa. O livro parte de um indivíduo aparentemente fora do comum e desemboca numa hipótese geral sobre a cultura popular da Europa pré-industrial, numa era marcada pela imprensa e pela Reforma. A chave está no que Ginzburg chamou de filtro, um crivo que Menocchio interpunha entre ele e os textos que lhe caíam nas mãos. O moleiro lia à luz de uma cultura oral que não era só dele, mas de um amplo segmento da sociedade quinhentista (GINZBURG, 2006, p. 10). Por essa via, a leitura de Menocchio deixa de ser uma excentricidade e passa a documentar uma relação que Ginzburg, na esteira de Bakhtin, resumiu na noção de circularidade, a troca recíproca entre cultura dominante e cultura subalterna, de baixo para cima e de cima para baixo.
Esse achado só é possível porque Ginzburg encara de frente o problema das fontes subalternas. Contra a velha história das gestas dos reis (GINZBURG, 2006, p. 11), ele recorre à pergunta do leitor operário de Brecht, quem construiu Tebas das sete portas, para lembrar que as fontes nada dizem dos pedreiros anônimos e que a pergunta, ainda assim, conserva seu peso. O obstáculo é estrutural. A cultura das classes subalternas do passado é predominantemente oral, e o historiador, que não pode conversar com os camponeses do século XVI, depende de fontes duplamente indiretas, porque são escritas e quase sempre lavradas por mãos ligadas à cultura dominante. Pensamentos, crenças e esperanças dos dominados chegam até nós através de filtros e intermediários que os deformam (GINZBURG, 2006, p. 13). A grande questão de Ginzburg é o que fazer com essa deformação.
A micro-história e outros ensaios leva essa resposta ao plano do método. A apresentação do volume, assinada pelos coordenadores da coleção (p. VIII), situa as rupturas de Ginzburg na construção de novos objetos, da feitiçaria à metamorfose animal, dos ritos de fertilidade à cosmogonia e à iconografia, e na investigação dos paradigmas do conhecimento, com atenção à emergência de um procedimento por indícios no século XIX. Esse paradigma indiciário, cujas raízes oitocentistas Ginzburg estudou em trabalho próprio, é a contrapartida epistemológica da pequena escala. Aprende-se a ler sinais, erros e anomalias que perturbam a superfície dos documentos. No ensaio escrito com Poni, o instrumento dessa leitura é o nome próprio, que funciona como fio de Ariadne no labirinto documental e distingue um indivíduo de outro em qualquer sociedade conhecida (GINZBURG, PONI, 1991, p. 174). A mesma apresentação registra a crítica de Ginzburg a noções como a de mentalidade coletiva, informe e interclassista, e a abordagens, entre elas a de Foucault, mais atentas às interdições e aos critérios de exclusão do que aos próprios excluídos e a seus referentes culturais alternativos (p. X-XI).
É em Controlando a evidência que Ginzburg formula sua posição sobre a prova com maior nitidez. Evidência, escreve ele, é palavra que importa tanto ao historiador quanto ao juiz, e a história, desde a Antiguidade, nasce no cruzamento entre a retórica e a medicina (GINZBURG, 2011, p. 342). O ensaio recusa dois extremos simétricos. De um lado, o positivismo que toma o documento por uma janela aberta que nos dá acesso direto à realidade (GINZBURG, 2011, p. 346). De outro, o ceticismo radical que, ao converter a fonte num muro opaco, bloqueia por princípio qualquer acesso ao real e termina, à sua maneira, num positivismo invertido (GINZBURG, 2011, p. 347). Entre os dois, Ginzburg insiste que o trabalho do historiador é necessariamente inferencial, que toda evidência é um espelho deformante e que reconstruir o passado exige analisar a distorção inerente à fonte sem abrir mão de sua dimensão referencial (GINZBURG, 2011, p. 348). Daí a fórmula que resume sua recusa do relativismo. Ele distingue a verdade como princípio regulador dos critérios de verdade e lembra que tradutibilidade e relativismo não são sinônimos (GINZBURG, 2011, p. 358).
O inquisidor como antropólogo mostra esse método em ato sobre o pior tipo de fonte, a produzida pela repressão. Ao entrar nos arquivos inquisitoriais de Udine, Ginzburg teve a sensação de descobrir uma mina de ouro ainda intacta (GINZBURG, 1991, p. 204). Mas o ouro é ambíguo. A analogia entre inquisidor, antropólogo e historiador deixa isso claro. O que os juízes da Inquisição tentavam extorquir não era tão distinto do que o historiador procura, embora os meios e os fins fossem outros (GINZBURG, 1991, p. 206). Lidos com Bakhtin, os processos surgem como textos dialógicos, polifônicos, ainda que marcados pela desigualdade brutal de poder (GINZBURG, 1991, p. 208). Contra o ceticismo que reduz todo texto à prova de si mesmo, Ginzburg argumenta que uma realidade cultural contraditória pode transparecer mesmo em documentos controlados (GINZBURG, 1991, p. 210-211). Os inquisidores traduziam crenças que lhes eram estranhas para um código próprio, e essa tradução contamina a fonte, embora também possa, de modo paradoxal, esclarecê-la (GINZBURG, 1991, p. 212). Há, enfim, os casos preciosos em que a incomunicabilidade entre juízes e réus deixa emergir um diálogo verdadeiro, no sentido do choque de vozes contraditórias (GINZBURG, 1991, p. 214).
O que une esses textos é uma teoria da evidência, não um gosto por figuras menores. Indício e prova, escala e arquivo, anomalia e circularidade, a leitura na contracorrente da intenção de quem redigiu o documento, é esse maquinário, e não a galeria de moleiros e bruxas, que faz de Ginzburg um problema vivo para quem hoje se senta diante de um maço de papéis e tenta extrair dele algo que seus autores não quiseram dizer.
Os arquivos do poder e a história do Brasil
Para a historiografia brasileira, a utilidade de Ginzburg começa exatamente onde começam suas dificuldades documentais. Boa parte do que se sabe sobre os subalternos no Brasil, das pessoas escravizadas aos libertos, dos trabalhadores aos migrantes, dos devotos aos acusados, provém de arquivos assimétricos, de natureza judicial, policial, eclesiástica, trabalhista, administrativa ou senhorial. São fundos em que o dominado comparece já filtrado por uma instituição de controle, na situação precisa que Ginzburg teorizou ao falar de fontes duplamente indiretas (GINZBURG, 2006, p. 13) e ao reconhecer que os arquivos da repressão fornecem informação preciosa justamente sobre grupos mal representados nas fontes oficiais (GINZBURG, 1991, p. 204).
A consequência metodológica é direta. Ler um processo-crime, um inquérito policial, uma reclamação trabalhista ou uma devassa eclesiástica à maneira de Ginzburg significa ler o documento contra as intenções de quem o produziu, sem o descartar como mera mentira do poder nem o aceitar como espelho fiel do vivido. A deformação não inutiliza a fonte. Ela própria é informação, desde que analisada (GINZBURG, 2011, p. 348). O modelo do inquisidor-antropólogo, a tradução que contamina e ao mesmo tempo pode esclarecer (GINZBURG, 1991, p. 212), descreve com exatidão a posição do historiador brasileiro diante de um auto redigido por um escrivão, um delegado ou um juiz.
A noção de excepcional normal tem aqui um rendimento particular (GINZBURG, PONI, 1991, p. 176-177). Num país cuja documentação tende a silenciar ou a distorcer de forma sistemática a experiência das classes populares, um documento estatisticamente raro, como uma denúncia fora do comum, um conflito que escapou à rotina cartorial ou um depoimento que destoou do formulário, pode dizer mais do que séries inteiras de registros homogêneos. É um princípio fecundo para pensar a escravidão e o pós-abolição, a justiça e o trabalho, a cultura popular e a religiosidade, a repressão e a racialização, campos em que o caso anômalo costuma ser a porta de entrada para regularidades que a documentação massiva esconde.
Há ainda uma dimensão que toca a própria condição da pesquisa brasileira. No ensaio com Poni, Ginzburg parte de uma constatação banal sobre o desequilíbrio das trocas historiográficas entre a Itália e a França e propõe analisá-lo pelo uso social da historiografia, isto é, em função de instituições, opções políticas e sociedades distintas (GINZBURG, PONI, 1991, p. 169). A observação seguinte é a que nos importa. País dependente não é necessariamente país pobre, e a Itália, como o Brasil, reúne subordinação historiográfica e uma riqueza documental considerável, arquivos que Ginzburg e Poni descrevem como jazidas preciosas de matérias-primas ainda intactas (GINZBURG, PONI, 1991, p. 171). O diagnóstico não autoriza nenhum vitimismo. Aponta uma tarefa, a de trabalhar de modo intensivo o que se costuma trabalhar de modo extensivo.
O que a historiografia brasileira pode aprender com Ginzburg é um uso intensivo da documentação fragmentária, a atenção ao nome como fio condutor (GINZBURG, PONI, 1991, p. 174), à trajetória individual, ao desvio, ao sinal mínimo que perturba a superfície do arquivo. O ponto não é substituir a análise das estruturas pela coleção de casos singulares, mas fazer o caso singular trabalhar a favor da compreensão das estruturas. A prosopografia a partir de baixo que ele e Poni propuseram (GINZBURG, PONI, 1991, p. 176) descreve bem um caminho ainda em larga medida por percorrer entre nós.
Um acerto de contas pessoal
Aprendi com sua obra, antes de tudo, uma certa maneira de entrar num arquivo. Quem trabalha com papéis produzidos por tribunais, delegacias e repartições sabe que a fonte raramente quer dizer o que dela precisamos. Ela foi escrita para condenar, para enquadrar, para administrar, e é exatamente por isso que pode ser interrogada. A desconfiança metódica que ele ensinou não é cinismo nem suspeita generalizada. É a disposição de levar o documento a sério até o limite, perguntando sempre quem escreveu, contra quem, com que código e o que escapou desse código quase sem querer.
A segunda coisa que devo a ele é uma teoria da escala que me curou de uma falsa alternativa. Por muito tempo pareceu que era preciso optar entre a grande estrutura e o detalhe insignificante, entre o número e a anedota. A pequena escala, quando bem manejada, dissolve essa oposição. O caso reduzido não é um refúgio diante da complexidade, é um instrumento para enxergá-la. O detalhe não vale por ser curioso. Vale por ser sintomático, por abrir uma fresta sobre algo que os agregados calam.
Daí vem o ponto mais delicado, a relação entre prova e imaginação. O que esse trabalho mostra é que conjeturar não é inventar, que a hipótese, a possibilidade, a reconstrução do que pode ter sido têm um estatuto rigoroso, contanto que permaneçam ancoradas no que a evidência permite afirmar. O historiador não tem acesso direto ao passado. Tudo o que faz é inferência. Mas inferência não é ficção, e a diferença entre uma e outra é o ofício inteiro.
Tenho também uma reserva, que é uma forma de admiração invertida. O método indiciário, levado por mãos menos exigentes, degenera com facilidade em virtuosismo. O detalhe vistoso, a conexão inesperada, a leitura engenhosa de um sinal mínimo podem virar um fim em si mesmo, um exercício de talento que se admira no espelho. O próprio rigor que dá consistência a esse método é o que o protege desse risco. O indício só vale se sobrevive à prova, se resiste à pergunta sobre o que, afinal, ele autoriza concluir. Sem essa disciplina, o que sobra é estilo.
Há, por fim, uma dimensão ética que me parece o cerne de tudo. Trabalhar com vencidos que só deixaram rastro filtrado por seus perseguidores impõe uma responsabilidade peculiar. É fácil emprestar-lhes a voz que gostaríamos que tivessem, romantizar sua resistência, transformá-los em heróis à nossa imagem. O que aprendi foi o contrário. Respeitar a distância, reconstruir a diferença, não preencher o silêncio com o que nos conviria ouvir. Dever-se aos mortos é dever-lhes a verdade possível, não a consolação.
E é aqui que sua recusa simultânea do positivismo ingênuo e do relativismo me parece mais necessária do que nunca. Duvidar de que a fonte seja transparente não obriga a concluir que nada se possa saber. Há uma verdade histórica a perseguir, sempre parcial, sempre revisável, mas verdadeira, e abandoná-la, em nome de uma sofisticação que confunde toda interpretação com pura narrativa, é desarmar o historiador diante exatamente dos poderes que produziram os arquivos.
Continuo a abrir processos antigos com a desconfiança que ele me ensinou, a de quem procura, sob a letra do poder, a voz que o poder quis abafar, sabendo que talvez ela não esteja lá e que ainda assim é preciso procurar.
Referências
DUJIN, Anne. L'Italien Carlo Ginzburg, figure fondatrice de la microhistoire, est mort. Le Monde, Paris, 17 jun. 2026. Disponível em https://www.lemonde.fr/disparitions/article/2026/06/17/l-italien-carlo-ginzburg-figure-fondatrice-de-la-microhistoire-est-mort_6704205_3382.html. Acesso em 18 jun. 2026.
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes. O cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Tradução de Maria Betânia Amoroso. Tradução dos poemas de José Paulo Paes. Revisão técnica de Hilário Franco Jr. São Paulo. Companhia das Letras, 2006.
GINZBURG, Carlo. Controlando a evidência. O juiz e o historiador. In NOVAIS, Fernando Antonio, SILVA, Rogério Forastieri da, org. Nova história em perspectiva. São Paulo. Cosac Naify, 2011. p. 342-358.
GINZBURG, Carlo. O inquisidor como antropólogo. Uma analogia e as suas implicações. In GINZBURG, Carlo, CASTELNUOVO, Enrico, PONI, Carlo. A micro-história e outros ensaios. Lisboa. Difel, 1991. p. 203-214.
GINZBURG, Carlo, PONI, Carlo. O nome e o como. Troca desigual e mercado historiográfico. In GINZBURG, Carlo, CASTELNUOVO, Enrico, PONI, Carlo. A micro-história e outros ensaios. Lisboa. Difel, 1991. p. 169-178.
GINZBURG, Carlo, CASTELNUOVO, Enrico, PONI, Carlo. A micro-história e outros ensaios. Lisboa. Difel, 1991.
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