TEORIA
E METODOLOGIA DA HISTÓRIA:
FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS E PERSPECTIVAS
CONTEMPORÂNEAS
Um panorama crítico das principais
correntes teórico-metodológicas da historiografia
1. A Metodologia e a Teoria da História:
objeto, fontes e escrita na produção do conhecimento histórico
A reflexão sobre a
metodologia e a teoria da história constitui um dos pilares fundamentais do
ofício do historiador, configurando-se como campo de investigação que interroga
as condições de possibilidade do conhecimento histórico. Desde o século XIX, quando
a história buscou legitimar-se como disciplina científica, questões relativas
ao objeto, às fontes e à escrita têm ocupado posição central nos debates
epistemológicos. Marc Bloch (2001), em sua obra seminal "Apologia da
História ou O Ofício de Historiador", definiu a história como a ciência
dos homens no tempo, enfatizando que seu objeto não são os fatos isolados, mas
as transformações das sociedades humanas em sua duração. Esta definição,
aparentemente simples, carrega implicações metodológicas profundas, pois
desloca o foco dos eventos singulares para os processos e estruturas que
conferem inteligibilidade à experiência temporal das coletividades.
A
questão do objeto da história foi amplamente debatida ao longo do século XX,
especialmente a partir da crítica à história événementielle promovida pela
Escola dos Annales. Lucien Febvre (1989) argumentou que a história não deveria
restringir-se aos grandes acontecimentos políticos e militares, mas abarcar
todas as dimensões da vida humana em sociedade: economia, mentalidades, cultura
material, vida cotidiana. Esta ampliação do objeto histórico implicou
necessariamente uma reformulação dos métodos de investigação e das fontes
consideradas legítimas. Fernand Braudel (1992) contribuiu decisivamente para
essa reflexão ao propor a noção de longa duração, distinguindo três
temporalidades distintas: o tempo curto dos eventos, o tempo médio das
conjunturas e o tempo longo das estruturas. A metodologia histórica, a partir
dessa perspectiva, deveria ser capaz de articular essas diferentes camadas
temporais na explicação dos fenômenos sociais.
As
fontes históricas constituem a matéria-prima do trabalho do historiador, e sua
conceituação sofreu transformações significativas ao longo do tempo. A tradição
positivista, representada por autores como Charles-Victor Langlois e Charles
Seignobos (1992), estabeleceu uma distinção rígida entre fontes primárias e
secundárias, privilegiando os documentos escritos oficiais como base para a
construção do conhecimento histórico. O método crítico desenvolvido por essa
tradição, embora fundamental para o estabelecimento de protocolos de
verificação da autenticidade documental, revelou-se insuficiente diante da
ampliação do campo histórico. A partir dos Annales, a noção de fonte
expandiu-se consideravelmente, incorporando vestígios materiais, iconografia,
tradições orais, estatísticas, entre outros registros da atividade humana.
Jacques Le Goff (1990) propôs a substituição do termo "documento" por
"documento/monumento", enfatizando que toda fonte é uma construção
social que deve ser interrogada em suas condições de produção e preservação.
A
crítica documental, componente essencial da metodologia histórica, passou por
reformulações importantes nas últimas décadas. Michel de Certeau (2011), em
"A Escrita da História", demonstrou que a operação historiográfica
não se reduz ao levantamento e crítica de fontes, mas envolve um conjunto de
práticas institucionais, teóricas e escriturísticas que configuram o lugar
social do historiador. A fonte não fala por si mesma; ela responde às perguntas
formuladas pelo pesquisador a partir de um aparato conceitual previamente
constituído. Carlo Ginzburg (1989), por sua vez, desenvolveu o conceito de
paradigma indiciário, propondo uma metodologia baseada na interpretação de
vestígios, sintomas e indícios aparentemente marginais, mas reveladores de
realidades mais profundas. Esta abordagem aproxima o trabalho do historiador
daquele do detetive ou do médico, valorizando a capacidade de leitura de sinais
negligenciados pela tradição documental.
A
teoria da história, entendida como reflexão sistemática sobre os fundamentos
epistemológicos da disciplina, distingue-se da filosofia da história
especulativa que predominou até o século XVIII. Enquanto esta última buscava
identificar leis gerais do desenvolvimento histórico ou o sentido último da
história universal, a teoria da história contemporânea concentra-se nas
condições de possibilidade do conhecimento histórico, nas operações cognitivas
envolvidas na pesquisa e na escrita, e nas relações entre história e outras
formas de saber. Reinhart Koselleck (2006), um dos principais teóricos da
história no século XX, desenvolveu uma teoria dos tempos históricos baseada na
tensão entre espaço de experiência e horizonte de expectativa, demonstrando
como diferentes sociedades configuram suas relações com o passado, o presente e
o futuro. Sua contribuição para a história dos conceitos (Begriffsgeschichte) renovou os métodos de análise do vocabulário
político e social.
A
escrita da história, longe de ser mero veículo neutro de comunicação dos
resultados da pesquisa, constitui dimensão fundamental da produção do
conhecimento histórico. Hayden White (2019), em "Meta-história",
analisou as estruturas narrativas subjacentes às obras históricas do século
XIX, identificando tropos literários (metáfora, metonímia, sinédoque, ironia)
que configuram diferentes modos de representação do passado. Sua obra provocou
intenso debate sobre as relações entre história e literatura, questionando a
distinção entre narrativas ficcionais e narrativas históricas. Paul Ricoeur
(2010), em "Tempo e Narrativa", ofereceu uma resposta filosófica a
esse desafio, argumentando que a narrativa histórica possui especificidade
própria, marcada pelo compromisso com a verdade e pela relação com vestígios
documentais, embora compartilhe com a ficção procedimentos de configuração
temporal.
O
debate sobre a cientificidade da história atravessa toda a reflexão
metodológica e teórica da disciplina. Wilhelm Dilthey (2010) estabeleceu, no
final do século XIX, a distinção fundamental entre ciências da natureza
(Naturwissenschaften) e ciências do espírito (Geisteswissenschaften),
argumentando que estas últimas requerem métodos próprios baseados na
compreensão (Verstehen) e não apenas na explicação causal. A história, como
ciência do espírito por excelência, deveria desenvolver uma hermenêutica capaz
de apreender o sentido das ações humanas em seus contextos específicos. Esta
tradição hermenêutica foi posteriormente desenvolvida por Hans-Georg Gadamer
(1999), que enfatizou o caráter dialógico da interpretação histórica e a
inevitável mediação da tradição na compreensão do passado. O historiador não é
observador neutro, mas participante de uma comunidade interpretativa
historicamente constituída.
A
metodologia da história também se desenvolveu em diálogo com as ciências
sociais, incorporando instrumentos analíticos da sociologia, da antropologia,
da economia e da geografia. Ciro Flamarion Cardoso e Ronaldo Vainfas (2012), em
"Domínios da História", mapearam as principais áreas de
especialização que emergiram dessa interdisciplinaridade: história econômica,
história social, história das mentalidades, história cultural, micro-história,
entre outras. Cada uma dessas especializações desenvolveu procedimentos
metodológicos próprios, adaptados a seus objetos específicos. A história
quantitativa, por exemplo, incorporou técnicas estatísticas para a análise de
séries documentais, enquanto a micro-história privilegiou a redução da escala
de observação para revelar aspectos invisíveis nas abordagens macroscópicas.
José
Carlos Reis (2006), importante teórico brasileiro, analisou as relações entre
história, filosofia e ciência, demonstrando as tensões constitutivas do campo
disciplinar. A história situa-se em posição peculiar entre as ciências sociais
e as humanidades, combinando aspirações de rigor metodológico com dimensões
interpretativas e narrativas irredutíveis a protocolos estritamente
científicos. Esta condição ambivalente não constitui fraqueza, mas especificidade
que permite à história dialogar com diferentes tradições intelectuais e
responder a demandas sociais de memória e orientação temporal. Jurandir Malerba
(2006), por sua vez, investigou as relações entre teoria da história e
historiografia, mostrando como as reflexões metahistóricas sempre estiveram
presentes, ainda que de forma implícita, na prática dos historiadores.
A
produção do conhecimento histórico envolve, portanto, uma complexa articulação
entre teoria, método e escrita. O historiador opera com conceitos que orientam
sua investigação, seleciona e critica fontes segundo protocolos estabelecidos
pela comunidade disciplinar, e configura seus resultados em formas narrativas
que buscam tornar inteligível a experiência temporal das sociedades humanas.
François Hartog (2013), ao desenvolver o conceito de regimes de historicidade,
mostrou como diferentes sociedades estabelecem relações distintas com o
passado, o presente e o futuro, e como essas configurações condicionam a
própria escrita da história. O presentismo contemporâneo, caracterizado pela
hipertrofia do presente e pela crise das expectativas de futuro, coloca novos
desafios para a teoria e a metodologia da história.
A
reflexão sobre objeto, fontes e escrita na produção do conhecimento histórico
permanece, assim, tarefa permanente e inacabada. Cada geração de historiadores
é chamada a repensar os fundamentos de seu ofício diante das transformações da
sociedade e das novas questões que emergem do presente. A história digital, a
história global, os estudos pós-coloniais, entre outras tendências
contemporâneas, renovam os debates metodológicos e teóricos, exigindo constante
atualização das ferramentas conceituais e procedimentais. Como afirmou Marc
Bloch (2001), a história é uma ciência em construção, cujos métodos devem ser
permanentemente aperfeiçoados. A teoria da história, longe de constituir
exercício abstrato desvinculado da prática, oferece ao historiador os
instrumentos necessários para uma reflexão crítica sobre seu próprio trabalho.
2. Os historicismos e a formação do
campo disciplinar da História no século XIX
O século XIX assistiu à
constituição da história como disciplina acadêmica autônoma, processo
indissociável do desenvolvimento do historicismo como matriz epistemológica
dominante. O termo historicismo (Historismus) designa um conjunto heterogêneo
de correntes intelectuais que, não obstante suas diferenças, compartilham a
convicção de que os fenômenos humanos só podem ser compreendidos em sua
singularidade histórica. Georg G. Iggers (1995), em estudo clássico sobre a
historiografia alemã, demonstrou como o historicismo emergiu como reação ao
racionalismo iluminista e às pretensões de estabelecer leis universais do
desenvolvimento social. Contra as abstrações da filosofia da história
especulativa, os historicistas afirmavam a irredutibilidade de cada época,
nação e cultura a esquemas gerais de explicação.
Leopold
von Ranke é frequentemente considerado o fundador da história científica
moderna e principal representante do historicismo alemão. Sua célebre fórmula,
segundo a qual a tarefa do historiador seria mostrar o passado "wie es
eigentlich gewesen" (como realmente aconteceu), expressa o ideal de
objetividade que orientou a profissionalização da disciplina. Ranke (1979)
desenvolveu o método crítico de análise documental, estabelecendo protocolos
rigorosos de verificação da autenticidade e confiabilidade das fontes. O
seminário de pesquisa, por ele instituído na Universidade de Berlim, tornou-se
modelo para a formação de historiadores profissionais em todo o mundo
ocidental. Contudo, como observou Hayden White (2019), a objetividade rankeana
não era ingênuo empirismo, mas pressupunha uma filosofia idealista que via na
história a manifestação de forças espirituais.
Johann
Gustav Droysen, contemporâneo de Ranke, ofereceu contribuição decisiva para a
fundamentação teórica do historicismo. Em sua "Historik" (2009), obra
que sistematiza suas reflexões metodológicas, Droysen desenvolveu uma teoria da
compreensão histórica (Verstehen) que antecipa desenvolvimentos posteriores da
hermenêutica. Para Droysen, a história distingue-se das ciências naturais não
por inferioridade metodológica, mas por especificidade de objeto: enquanto as
ciências naturais buscam explicar fenômenos por meio de leis causais, a
história visa compreender ações humanas dotadas de sentido e intencionalidade.
O historiador deve penetrar nas motivações dos agentes históricos,
reconstituindo o universo mental em que suas ações se inscreveram. Esta
abordagem influenciou profundamente a tradição hermenêutica posterior.
Wilhelm
Dilthey aprofundou a reflexão epistemológica sobre as ciências do espírito,
categoria na qual incluía a história como disciplina central. Em sua
"Introdução às Ciências Humanas" (2010), Dilthey argumentou que a
vida histórico-social constitui uma totalidade de sentido que só pode ser
apreendida por meio da experiência vivida (Erlebnis) e da compreensão
(Verstehen). O método das ciências do espírito seria fundamentalmente
hermenêutico, baseado na interpretação de expressões objetivadas da vida
humana: textos, obras de arte, instituições, ações. Dilthey buscou, assim,
fundamentar a autonomia metodológica das humanidades frente ao modelo das
ciências naturais, sem renunciar à pretensão de cientificidade. Sua obra
estabeleceu as bases para o desenvolvimento posterior da hermenêutica
filosófica por Heidegger e Gadamer.
O
historicismo não se restringiu à Alemanha, mas difundiu-se por toda a Europa e
América, assumindo configurações específicas em diferentes contextos nacionais.
Na França, a tradição positivista, representada por autores como Hippolyte
Taine e Fustel de Coulanges, combinou elementos do historicismo alemão com a
herança do positivismo comtiano. Charles-Victor Langlois e Charles Seignobos
(1992), em sua "Introdução aos Estudos Históricos", codificaram os
procedimentos metodológicos da escola metódica francesa, enfatizando a crítica
documental como fundamento do trabalho histórico. Esta obra, publicada em 1898,
tornou-se referência obrigatória para a formação de historiadores, embora tenha
sido posteriormente criticada pelos fundadores dos Annales por seu empirismo
estreito e sua concepção limitada de documento.
A
institucionalização da história como disciplina acadêmica acompanhou a
consolidação dos Estados nacionais no século XIX. A história desempenhou função
ideológica fundamental na construção das identidades nacionais, fornecendo
narrativas de origem e continuidade que legitimavam as comunidades políticas
emergentes. Stefan Berger (2007), em estudo comparativo sobre a escrita da
história nacional na Europa, demonstrou como os historiadores profissionais
foram mobilizados para produzir memórias coletivas que fundamentassem o
pertencimento nacional. Os arquivos nacionais, os museus históricos, as cátedras
universitárias e as revistas especializadas constituíram a infraestrutura
institucional que sustentou essa empresa de construção identitária. O
historicismo, nesse contexto, fornecia o enquadramento teórico que valorizava a
singularidade de cada nação como expressão de um espírito próprio.
A
crítica ao historicismo desenvolveu-se desde o final do século XIX,
intensificando-se ao longo do século XX. Friedrich Nietzsche, em sua
"Segunda Consideração Intempestiva" (2003), denunciou os excessos da
consciência histórica moderna, argumentando que o excesso de história
paralisava a capacidade de ação e criação. Para Nietzsche, a história deveria
servir à vida, não sufocá-la sob o peso de uma erudição estéril. Esta crítica
foi retomada, em outros termos, pelos fundadores dos Annales, que denunciaram o
historicismo como história historizante, excessivamente centrada em eventos
políticos e avessa às estruturas e processos de longa duração. A
história-problema, proposta por Febvre e Bloch, opunha-se à mera reconstituição
factual característica da tradição historicista.
Karl
Popper (2013) dirigiu crítica metodológica ao historicismo, embora seu alvo
fosse diferente daquele visado pelos Annales. Em "A Miséria do
Historicismo", Popper atacou as filosofias da história que pretendiam
descobrir leis do desenvolvimento histórico e predizer o futuro das sociedades.
Hegelianismo e marxismo eram os principais alvos dessa crítica, acusados de
promover um determinismo histórico incompatível com a liberdade humana. Popper
distinguia entre historicismo, como doutrina das leis históricas, e o método
histórico propriamente dito, que considerava legítimo. Esta distinção, embora
útil para separar a reflexão metodológica das especulações metafísicas, não faz
justiça à complexidade do historicismo alemão clássico.
A
herança do historicismo permanece viva na historiografia contemporânea, ainda
que transformada pela incorporação de perspectivas críticas. O princípio da
especificidade histórica, a atenção ao contexto, a recusa de anacronismos e a
valorização da pesquisa empírica constituem legados duradouros dessa tradição.
Jörn Rüsen (2010), teórico alemão contemporâneo, propôs uma reatualização do
historicismo à luz das discussões pós-modernas, argumentando que a consciência
histórica permanece indispensável para a orientação temporal das sociedades. O
historicismo, despojado de suas pretensões de objetividade absoluta, pode ser
reformulado como teoria da constituição histórica do sentido, atenta às
condições culturais de produção e recepção do conhecimento histórico.
No
Brasil, a recepção do historicismo ocorreu principalmente por meio da
institucionalização da pesquisa histórica no Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, fundado em 1838. Manoel Luiz Salgado Guimarães (1988) demonstrou
como o IHGB constituiu projeto de escrita da história nacional que combinava
elementos do historicismo europeu com as especificidades do contexto imperial
brasileiro. A preocupação com a documentação, a valorização das fontes
primárias e a construção de uma narrativa de continuidade entre a colonização
portuguesa e o Império independente caracterizaram essa primeira fase da
historiografia brasileira institucionalizada. Francisco Adolfo de Varnhagen,
considerado o pai da historiografia brasileira, representou esse modelo de
história nacional inspirado nos cânones do historicismo oitocentista.
A
profissionalização da história no Brasil, com a criação dos primeiros cursos
universitários na década de 1930, trouxe novas influências que se somaram à
herança historicista. A missão francesa que participou da fundação da
Universidade de São Paulo incluía historiadores ligados aos Annales, como
Fernand Braudel, que lecionou na instituição entre 1935 e 1937. Esta presença
contribuiu para a introdução de perspectivas críticas ao historicismo
tradicional, favorecendo o diálogo com as ciências sociais e a abertura para
novos objetos e métodos. A historiografia brasileira desenvolveu-se, assim, no
entrecruzamento de diferentes tradições, construindo sínteses originais que
marcaram a produção acadêmica posterior.
Os
historicismos do século XIX, em sua pluralidade, legaram à disciplina histórica
um conjunto de questões que permanecem atuais: a tensão entre singularidade e
generalização, entre compreensão e explicação, entre objetividade e
perspectivismo. A formação do campo disciplinar não foi processo linear ou
consensual, mas resultou de disputas intelectuais e institucionais que
configuraram diferentes tradições historiográficas. Compreender essa história
da disciplina é condição necessária para uma prática historiográfica reflexiva,
consciente de seus pressupostos e limites. Como observou Estevão de Rezende
Martins (2010), a teoria da história contemporânea não pode ignorar o legado do
historicismo, devendo antes submetê-lo a crítica produtiva que preserve suas contribuições
válidas enquanto supera suas limitações.
3. A Escola dos Annales e o diálogo
interdisciplinar
A Escola dos Annales
constitui um dos movimentos mais influentes na historiografia do século XX,
promovendo uma renovação profunda dos métodos, objetos e concepções da
disciplina histórica. Fundada em 1929 com o lançamento da revista "Annales
d'histoire économique et sociale" por Marc Bloch e Lucien Febvre, a escola
desenvolveu-se ao longo de várias gerações, mantendo como princípio orientador
o diálogo com as demais ciências sociais. Peter Burke (1997), em estudo
abrangente sobre o movimento, identificou três gerações principais, cada uma
com ênfases e contribuições específicas: a geração fundadora de Bloch e Febvre,
a geração braudeliana dominada pela figura de Fernand Braudel, e a terceira
geração marcada pela pluralidade de abordagens e pela história das
mentalidades.
Marc
Bloch e Lucien Febvre, os fundadores do movimento, compartilhavam a
insatisfação com a história événementielle praticada pela escola metódica
francesa. Em seus trabalhos individuais e em seus escritos programáticos,
defenderam uma história-problema que partisse de questões formuladas pelo
historiador, em oposição à mera compilação de fatos extraídos dos documentos.
Bloch (2001), em "Os Reis Taumaturgos", demonstrou como a história
poderia incorporar perspectivas da antropologia e da psicologia social para
compreender fenômenos como a crença no poder de cura dos reis. Sua obra sobre a
sociedade feudal (BLOCH, 1987) tornou-se modelo de história social comparativa,
articulando análise econômica, institucional e cultural. Febvre (1989), por sua
vez, desenvolveu a história das mentalidades em estudos como "O Problema
da Incredulidade no Século XVI", que investigava as condições mentais que
tornavam possível ou impossível determinadas formas de pensamento em cada
época.
O
diálogo interdisciplinar, marca distintiva dos Annales, refletia o contexto
intelectual francês da primeira metade do século XX, no qual as ciências
sociais encontravam-se em processo de institucionalização e definição de
fronteiras. A geografia de Vidal de La Blache, a sociologia durkheimiana, a
economia de François Simiand constituíam interlocutores privilegiados para os
historiadores dos Annales. Jacques Revel (1979) demonstrou como essa abertura
interdisciplinar era acompanhada de uma estratégia de afirmação da história
como disciplina-síntese, capaz de integrar as contribuições das ciências
vizinhas em uma visão totalizante do social. A ambição totalizadora, característica
sobretudo da segunda geração, expressava-se no projeto de uma história global
que articulasse todos os níveis da realidade social.
Fernand
Braudel, herdeiro intelectual de Febvre, tornou-se a figura dominante da
segunda geração dos Annales. Sua obra magna, "O Mediterrâneo e o Mundo
Mediterrânico na Época de Felipe II" (BRAUDEL, 1983), publicada
originalmente em 1949, revolucionou a escrita da história ao propor uma
estrutura tripartite que distinguia três temporalidades: a quase imóvel
história das relações entre o homem e o meio geográfico (longa duração), a
história lentamente ritmada das estruturas econômicas e sociais (média duração),
e a história dos eventos políticos e militares (curta duração). Esta
arquitetura temporal expressava uma hierarquia epistemológica na qual as
estruturas de longa duração eram consideradas mais determinantes do que os
eventos singulares. A noção de longa duração, teorizada em artigo seminal de
1958, tornou-se conceito central para a historiografia do século XX.
A
geohistória braudeliana representou a incorporação mais sistemática da
geografia humana ao campo da história. O espaço mediterrânico, em sua obra
principal, não é mero cenário dos acontecimentos humanos, mas agente histórico
que condiciona as formas de vida, os ritmos da economia, as rotas comerciais,
as possibilidades de comunicação. Esta perspectiva dialogava com a tradição da
geografia regional francesa, mas submetia-a a uma temporalização que a original
vidaliana não comportava. O conceito de economia-mundo, desenvolvido
posteriormente em "Civilização Material, Economia e Capitalismo"
(BRAUDEL, 1995), estendeu essa abordagem espacial para uma escala planetária,
antecipando desenvolvimentos da história global contemporânea.
A
história econômica e social ocupou posição central na produção dos Annales,
especialmente na segunda geração. Ernest Labrousse desenvolveu métodos
quantitativos de análise de séries de preços e rendas, contribuindo para a
constituição de uma história econômica rigorosa. Pierre Goubert, Emmanuel Le
Roy Ladurie e Pierre Chaunu aplicaram esses métodos ao estudo de sociedades
rurais e urbanas do Antigo Regime, produzindo monografias regionais que
combinavam análise demográfica, econômica e social. A história serial, como
ficou conhecida essa abordagem, representou o ponto máximo de aproximação entre
história e ciências sociais quantitativas, embora tenha sido posteriormente criticada
por seu determinismo econômico e por negligenciar as dimensões simbólicas e
culturais da vida social.
A
terceira geração dos Annales, que se afirmou a partir dos anos 1970, promoveu
uma fragmentação temática e metodológica que afastou o movimento do projeto
totalizador braudeliano. A história das mentalidades, anunciada por Febvre mas
não sistematicamente desenvolvida pelas gerações anteriores, ganhou
centralidade com autores como Jacques Le Goff, Georges Duby, Philippe Ariès e
Michel Vovelle. Le Goff (1990), em obras como "A Civilização do Ocidente
Medieval" e "Para um Novo Conceito de Idade Média", explorou as
representações mentais, as categorias de pensamento e os sistemas de valores
que organizavam a experiência dos homens medievais. Ariès (1981), em
"História Social da Criança e da Família", inaugurou a história da
infância como campo de investigação, demonstrando o caráter historicamente
construído de categorias aparentemente naturais.
O
diálogo com a antropologia tornou-se particularmente intenso na terceira
geração. A influência de Claude Lévi-Strauss e da antropologia estrutural
fez-se sentir em estudos sobre parentesco, mitos e rituais. A antropologia
histórica, como foi denominada essa vertente, buscava compreender as sociedades
do passado em sua alteridade radical, suspendendo os pressupostos etnocêntricos
que projetavam categorias modernas sobre épocas anteriores. Emmanuel Le Roy
Ladurie (1997), em "Montaillou", utilizou registros inquisitoriais
para reconstituir a vida cotidiana, as crenças e as práticas de uma aldeia
cátara do século XIV, aproximando o trabalho do historiador daquele do
etnógrafo. A micro-história italiana, desenvolvida por autores como Carlo
Ginzburg e Giovanni Levi, prolongou esse diálogo em direções originais.
A
história cultural, que emergiu nos anos 1980 como alternativa às abordagens
anteriores, manteve vínculos complexos com a tradição dos Annales. Roger
Chartier (1990), um dos principais representantes dessa corrente, propôs o
conceito de representação como instrumento para superar as dicotomias entre
material e ideal, entre infraestrutura e superestrutura. A história da leitura,
desenvolvida por Chartier em diálogo com a bibliografia e a sociologia da
literatura, demonstrou como os sentidos dos textos são produzidos nas práticas
de apropriação, não sendo propriedades intrínsecas das obras. Esta perspectiva
representava um afastamento do determinismo social implícito em certas versões
da história das mentalidades, enfatizando a criatividade dos atores sociais na
construção de significados.
A
recepção dos Annales no Brasil foi significativa e duradoura, influenciando
decisivamente a historiografia nacional. Além da presença de Fernand Braudel na
USP nos anos 1930, obras de autores vinculados ao movimento foram amplamente traduzidas
e incorporadas aos currículos universitários. José Carlos Reis (2000), em
estudo sobre a historiografia brasileira, demonstrou como a influência dos
Annales combinou-se com outras tradições, como o marxismo e a teoria da
dependência, produzindo sínteses originais na interpretação da história do
Brasil. Fernando Novais (2005), em "Portugal e Brasil na Crise do Sistema
Colonial Antigo", exemplificou essa combinação ao articular a perspectiva
braudeliana de longa duração com a análise marxista das relações coloniais.
Os
limites e as críticas aos Annales também devem ser considerados na avaliação de
seu legado. A negligência em relação à história política, especialmente
evidente na segunda geração, foi objeto de críticas que levaram a um retorno do
político nas décadas finais do século XX. A pretensão totalizadora foi
questionada por perspectivas pós-estruturalistas que enfatizavam a fragmentação
do social e a impossibilidade de sínteses globais. François Dosse (1992), em
história crítica do movimento, apontou as contradições entre o projeto
interdisciplinar e as práticas efetivas, muitas vezes limitadas a uma
justaposição de abordagens sem verdadeira integração. Não obstante essas
críticas, a herança dos Annales permanece viva na historiografia contemporânea,
especialmente no que se refere à abertura temática e ao diálogo com as ciências
sociais.
O
diálogo interdisciplinar promovido pelos Annales transformou definitivamente o
campo da história, ampliando seus objetos, renovando seus métodos e enriquecendo
seu aparato conceitual. A história econômica, a história demográfica, a
história das mentalidades, a história cultural constituem especializações que
devem sua existência, em grande medida, a esse movimento de abertura. A lição
fundamental dos Annales, como observou Peter Burke (1997), foi demonstrar que a
história não pode fechar-se em si mesma, mas deve manter diálogo permanente com
as disciplinas vizinhas para renovar suas questões e abordagens. Este legado
permanece atual num contexto em que novos diálogos interdisciplinares, com a
neurociência, a ecologia, as ciências da computação, colocam novos desafios e
possibilidades para a pesquisa histórica.
4. História e Marxismos
A relação entre história
e marxismo constitui um dos capítulos mais importantes da historiografia do
século XX, produzindo interpretações influentes sobre os processos históricos e
suscitando debates teóricos e metodológicos de grande alcance. O materialismo
histórico, formulado por Karl Marx e Friedrich Engels em meados do século XIX,
propôs uma concepção da história centrada nas relações de produção e na luta de
classes, oferecendo instrumentos analíticos que foram apropriados e
transformados por sucessivas gerações de historiadores. Eric Hobsbawm (1998),
um dos mais destacados historiadores marxistas do século XX, argumentou que a
contribuição do marxismo para a história reside menos em teses específicas do
que em um modo de questionar o passado que privilegia as dimensões econômicas e
sociais, as contradições estruturais e os conflitos de classe.
Karl
Marx não foi historiador profissional, mas suas análises históricas,
especialmente aquelas dedicadas à França do século XIX, como "O 18 de
Brumário de Luís Bonaparte" (MARX, 2011), tornaram-se modelos de
interpretação que combinam análise de classe com atenção às conjunturas
políticas. A célebre formulação do Prefácio de 1859 à "Contribuição à
Crítica da Economia Política" estabeleceu os termos do debate posterior: a
estrutura econômica da sociedade, constituída pelas relações de produção, forma
a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política, à
qual correspondem formas determinadas de consciência social. Esta tese da
determinação em última instância pela economia foi objeto de múltiplas
interpretações, desde versões mecanicistas até reformulações que enfatizavam a
autonomia relativa das instâncias superestruturais.
A
historiografia marxista desenvolveu-se em diferentes tradições nacionais, cada
uma com ênfases e características próprias. Na União Soviética, o marxismo
oficial tendeu a uma codificação dogmática que estabelecia etapas necessárias
do desenvolvimento histórico (comunismo primitivo, escravismo, feudalismo,
capitalismo, socialismo), reduzindo a complexidade das análises de Marx a um
esquema evolutivo unilinear. Esta versão do materialismo histórico, como
observou Perry Anderson (2004), empobreceu o potencial heurístico do marxismo,
transformando-o em filosofia da história especulativa. A historiografia
marxista ocidental, especialmente a partir dos anos 1950, desenvolveu-se em
grande medida contra essa ortodoxia, buscando recuperar a complexidade e a
abertura presentes nas obras de Marx e Engels.
A
historiografia marxista britânica, articulada em torno do Communist Party
Historians Group e posteriormente da revista Past and Present, produziu algumas
das obras mais influentes do século XX. E.P. Thompson, Christopher Hill, Eric
Hobsbawm, Rodney Hilton e George Rudé renovaram a história social ao
focalizarem as experiências e as lutas das classes trabalhadoras e camponesas.
Thompson (1987), em "A Formação da Classe Operária Inglesa", obra
seminal publicada em 1963, propôs uma concepção de classe como relação e
processo histórico, criticando tanto o economicismo que reduzia a classe a uma
posição na estrutura produtiva quanto o estruturalismo althusseriano que
eliminava a agência dos sujeitos históricos. A classe, para Thompson, forma-se
na experiência vivida, nas tradições culturais, nas lutas políticas, não sendo
dedutível automaticamente das relações econômicas.
A
contribuição de Thompson ultrapassou a historiografia do movimento operário,
influenciando desenvolvimentos posteriores da história social e cultural. Seu
conceito de economia moral, desenvolvido em estudo sobre os motins de
subsistência na Inglaterra do século XVIII, demonstrou como as ações coletivas
eram orientadas por concepções legítimas de direitos e justiça que não podiam
ser reduzidas a interesses econômicos imediatos. Esta perspectiva aproximava a
história social da antropologia e da história das mentalidades, sem abandonar o
enquadramento materialista. Thompson (1998), em escritos teóricos reunidos em
"A Miséria da Teoria", desenvolveu uma crítica contundente ao
estruturalismo althusseriano, acusado de eliminar a experiência humana e a ação
histórica em favor de estruturas abstratas.
Louis
Althusser representou, de fato, uma tentativa de reformulação do marxismo em
bases estruturalistas que teve impacto significativo na historiografia francesa
e latino-americana. Em obras como "Para Ler O Capital" (ALTHUSSER;
BALIBAR, 1980), Althusser propôs uma leitura antihumanista de Marx, enfatizando
a cientificidade do materialismo histórico e criticando as interpretações
historicistas e humanistas. O conceito de modo de produção, nessa perspectiva,
designava uma estrutura composta de instâncias articuladas (econômica,
política, ideológica) em que a determinação econômica operava apenas em última
instância, abrindo espaço para a autonomia relativa das superestruturas. Esta
formulação influenciou historiadores como Pierre Vilar e Guy Bois, que buscaram
aplicar conceitos althusserianos à análise de formações sociais
pré-capitalistas.
Antonio
Gramsci, pensador marxista italiano cuja obra foi redescoberta a partir dos
anos 1960, ofereceu contribuições fundamentais para a historiografia. Seus
conceitos de hegemonia, bloco histórico e intelectuais orgânicos permitiram
pensar as relações entre economia, política e cultura de modo mais nuançado do
que o modelo base/superestrutura permitia. A hegemonia, entendida como direção
intelectual e moral exercida por uma classe sobre o conjunto da sociedade, não
se confunde com dominação puramente coercitiva, mas envolve a produção de
consenso por meio de instituições culturais. Os "Cadernos do Cárcere"
(GRAMSCI, 2000), escritos durante sua prisão pelo regime fascista, tornaram-se
referência obrigatória para historiadores interessados nas dimensões culturais
e ideológicas da dominação de classe.
No
Brasil, a historiografia marxista desenvolveu-se em estreita relação com os
debates sobre a formação social brasileira e os caminhos da transformação
política. Caio Prado Júnior (2011), em "Formação do Brasil
Contemporâneo", publicado em 1942, ofereceu interpretação inovadora da
colonização brasileira, centrada no conceito de sentido da colonização e na
análise das relações de produção características da economia colonial. Sua
crítica à tese do feudalismo brasileiro, defendida pelo Partido Comunista, teve
implicações não apenas historiográficas, mas também políticas, ao questionar a
estratégia de aliança com a burguesia nacional. Nelson Werneck Sodré, Jacob
Gorender e Ciro Flamarion Cardoso representaram outras vertentes da
historiografia marxista brasileira, com ênfases e interpretações distintas.
Fernando
Novais (2005), em sua tese sobre Portugal e Brasil na crise do sistema
colonial, combinou a perspectiva marxista com a abordagem braudeliana de longa
duração e com a teoria do sistema-mundo desenvolvida por Immanuel Wallerstein.
O antigo sistema colonial era interpretado como mecanismo de acumulação
primitiva de capital em escala mundial, articulando metrópoles e colônias em um
sistema de trocas desiguais funcional à transição para o capitalismo. Esta
interpretação influenciou profundamente a historiografia brasileira posterior,
ainda que tenha sido objeto de críticas por seu suposto funcionalismo e por
subestimar as dinâmicas internas da sociedade colonial.
Os
debates sobre os modos de produção na América Latina mobilizaram historiadores
e cientistas sociais nas décadas de 1960 e 1970, produzindo polêmicas que ainda
hoje ressoam na historiografia. A questão central dizia respeito à
caracterização das relações de produção coloniais: seriam elas feudais,
escravistas, capitalistas, ou constituiriam formações específicas irredutíveis
aos modelos europeus? Jacob Gorender (2016), em "O Escravismo
Colonial", propôs o conceito de modo de produção escravista colonial como
categoria específica, dotada de legalidade própria, não redutível ao escravismo
antigo nem ao capitalismo. Esta proposta gerou intenso debate, refletindo as
dificuldades de aplicação do instrumental marxista a realidades históricas
distintas daquelas que Marx tinha em mente quando desenvolveu suas categorias.
A
crise do marxismo, proclamada a partir dos anos 1980 e intensificada com o
colapso dos regimes do Leste Europeu, afetou a historiografia marxista sem,
contudo, eliminá-la. A nova história cultural, com sua ênfase nas
representações e nas práticas simbólicas, foi frequentemente apresentada como
superação do determinismo econômico atribuído ao marxismo. No entanto, como
argumentou Ellen Meiksins Wood (1999), a crítica ao reducionismo econômico não
invalida a análise das relações de classe e das estruturas de exploração, que
permanecem centrais para a compreensão das sociedades históricas. A
historiografia marxista contemporânea, representada por autores como Robert
Brenner, Vivek Chibber e os colaboradores da revista Historical Materialism,
renovou seus instrumentos analíticos sem abandonar o núcleo da tradição.
A
herança do marxismo na historiografia permanece viva e produtiva, ainda que
transformada pelo diálogo com outras tradições teóricas. A história global, em
suas vertentes mais críticas, retomou questões formuladas pelo marxismo sobre
as desigualdades estruturais entre regiões do mundo capitalista. A história do
trabalho, renovada pela incorporação de perspectivas de gênero e raça, mantém
vínculos com a tradição iniciada por Thompson e seus contemporâneos. Como
observou Hobsbawm (1998), o marxismo oferece não um corpo de doutrinas
acabadas, mas um programa de pesquisa que orienta o olhar do historiador para
as dimensões materiais e conflituais da vida social. Esta orientação permanece
indispensável para uma historiografia comprometida com a compreensão crítica
das sociedades passadas e presentes.
5. História e estruturalismos
O estruturalismo
constituiu um dos movimentos intelectuais mais influentes do século XX,
exercendo impacto significativo sobre a historiografia, especialmente na França
entre as décadas de 1950 e 1970. Originado na linguística de Ferdinand de
Saussure e desenvolvido na antropologia de Claude Lévi-Strauss, o
estruturalismo propunha uma abordagem das ciências humanas centrada na
identificação de estruturas subjacentes aos fenômenos observáveis, estruturas essas
que seriam inconscientes, sincrônicas e passíveis de formalização. A relação
entre estruturalismo e história foi marcada por tensões produtivas, uma vez que
a ênfase estruturalista na sincronia parecia incompatível com a preocupação
historiográfica com a mudança temporal. François Dosse (1993), em estudo
abrangente sobre o movimento, demonstrou como essas tensões foram negociadas de
diferentes maneiras por historiadores que buscaram incorporar insights
estruturalistas.
Claude
Lévi-Strauss, principal expoente do estruturalismo antropológico, manteve um
diálogo complexo e por vezes polêmico com a historiografia. Em escritos como
"História e Etnologia" (LÉVI-STRAUSS, 1996), originalmente publicado
em 1949, Lévi-Strauss reconhecia a complementaridade entre as duas disciplinas,
mas também marcava suas diferenças: enquanto a história privilegiaria as
expressões conscientes da vida social e a dimensão diacrônica, a etnologia
buscaria as estruturas inconscientes e os elementos de permanência. Esta
distinção, embora não implicasse hierarquia valorativa, foi frequentemente
interpretada como desvalorização da história em favor de uma abordagem
atemporal. Fernand Braudel (1992), em seu célebre artigo sobre a longa duração,
respondeu a esse desafio propondo uma concepção de estrutura compatível com a
temporalidade histórica, definida como realidade que o tempo gasta lentamente.
A
incorporação de perspectivas estruturalistas pela historiografia francesa
manifestou-se de diferentes formas. A história serial, desenvolvida por
historiadores como Pierre Chaunu e Emmanuel Le Roy Ladurie, baseava-se na
análise de séries documentais longas (preços, nascimentos, testamentos) que
permitiam identificar regularidades estruturais subjacentes às variações
conjunturais. Esta abordagem, embora não fosse diretamente derivada do
estruturalismo lévi-straussiano, compartilhava com ele a busca de invariantes
por trás das aparências empíricas. A história das mentalidades, por sua vez,
foi influenciada pela concepção estruturalista de que as representações
coletivas obedecem a lógicas próprias, irredutíveis às intenções dos agentes
individuais. Le Goff (1990) explorou as estruturas mentais do homem medieval,
identificando categorias de pensamento e esquemas perceptivos que organizavam a
experiência do tempo e do espaço.
Michel
Foucault, embora frequentemente associado ao estruturalismo, desenvolveu uma
abordagem original que ele próprio denominou arqueologia do saber. Em obras
como "As Palavras e as Coisas" (FOUCAULT, 1999) e "A Arqueologia
do Saber" (FOUCAULT, 2008), Foucault analisou as condições históricas de
possibilidade dos saberes, identificando epistemes, isto é, configurações
epistemológicas que definem o que pode ser pensado e dito em cada época. A
noção de episteme aproximava-se do conceito estruturalista de estrutura, mas
Foucault insistia na historicidade e descontinuidade dessas configurações,
afastando-se do universalismo atemporal de Lévi-Strauss. A arqueologia
foucaultiana influenciou a história das ciências e a história intelectual,
propondo novas formas de problematizar a relação entre saber e poder.
A fase
genealógica do pensamento de Foucault, inaugurada com "Vigiar e
Punir" (FOUCAULT, 2014) e "História da Sexualidade" (FOUCAULT,
1988), representou uma inflexão em direção a temas mais propriamente
históricos: a constituição de instituições disciplinares, as tecnologias de
poder, a produção de subjetividades. A genealogia, inspirada em Nietzsche,
propunha uma história que rastreasse as emergências, as proveniências e as
descontinuidades, recusando tanto as filosofias da história teleológicas quanto
as continuidades aparentes das histórias tradicionais. O impacto de Foucault na
historiografia foi imenso, abrindo novos campos de investigação como a história
da loucura, a história das prisões, a história do corpo e da sexualidade, a
história dos saberes e das práticas de governo.
A
linguística estrutural, matriz original do movimento, também influenciou a
historiografia por vias diversas. A história dos conceitos
(Begriffsgeschichte), desenvolvida por Reinhart Koselleck na Alemanha, embora
não se filiasse diretamente ao estruturalismo francês, compartilhava a
preocupação com as estruturas semânticas que organizam a experiência histórica.
Koselleck (2006) analisou as transformações dos conceitos políticos
fundamentais entre 1750 e 1850, período que denominou Sattelzeit, demonstrando
como categorias como Estado, história, revolução, progresso adquiriram novos
significados que reconfiguraram a experiência temporal das sociedades modernas.
A semântica histórica koselleckiana oferecia instrumentos para uma história das
estruturas linguísticas que não abandonava a dimensão da mudança temporal.
O
estruturalismo althusseriano, discutido anteriormente no contexto da
historiografia marxista, representou uma tentativa de síntese entre marxismo e
estruturalismo que teve repercussões significativas na historiografia. Louis
Althusser propôs uma leitura de Marx que enfatizava a estrutura dos modos de
produção em detrimento das análises históricas concretas, privilegiando a
teoria em relação à empiria. Esta orientação foi criticada por historiadores
marxistas como E.P. Thompson (1998), que denunciou o teoricismo althusseriano
como abandono da tradição materialista de investigação histórica concreta. Não obstante,
conceitos althusserianos como sobredeterminação, autonomia relativa e aparelhos
ideológicos de Estado foram incorporados por historiadores interessados em
pensar a articulação entre economia, política e ideologia.
A
antropologia estrutural de Lévi-Strauss exerceu influência direta sobre a
historiografia através do diálogo com a Escola dos Annales. A terceira geração
do movimento francês incorporou conceitos e métodos da antropologia para o
estudo das sociedades do passado. Jacques Le Goff aplicou perspectivas
estruturalistas ao estudo do imaginário medieval, analisando as oposições
binárias (alto/baixo, puro/impuro, sagrado/profano) que organizavam as
representações. Georges Duby (1989), em obras sobre o feudalismo, combinou
análise das estruturas sociais com atenção às representações ideológicas que as
legitimavam. A história das mentalidades, em suas melhores expressões, buscou
articular a análise de estruturas mentais com a investigação de suas
transformações históricas.
A
crítica ao estruturalismo, que se intensificou a partir dos anos 1970, teve
repercussões na historiografia. O pós-estruturalismo, representado por autores
como Jacques Derrida e Gilles Deleuze, questionou as pretensões de
cientificidade e universalidade do projeto estruturalista, enfatizando a
instabilidade dos signos e a impossibilidade de fechamento das estruturas. A
desconstrução derridiana, aplicada à historiografia por autores como Hayden
White, colocou em questão a distinção entre história e ficção, abalando as
certezas epistemológicas da disciplina. O retorno do sujeito e da narrativa,
característico da historiografia dos anos 1980, pode ser compreendido, em
parte, como reação às tendências despersonalizantes do estruturalismo, embora
as relações entre esses movimentos sejam mais complexas do que uma simples
oposição sugeriria.
No
Brasil, a recepção do estruturalismo na historiografia foi mediada
principalmente pela influência dos Annales e pelo marxismo althusseriano. Ciro
Flamarion Cardoso e Héctor Pérez Brignoli (1983), em "Os Métodos da
História", apresentaram o estruturalismo como uma das principais correntes
metodológicas disponíveis para os historiadores, discutindo suas
potencialidades e limitações. A história econômica brasileira, especialmente
aquela dedicada ao período colonial, incorporou conceitos estruturalistas para
pensar as características do modo de produção escravista e suas articulações
com o capitalismo mundial. A crítica ao estruturalismo, por sua vez,
manifestou-se na valorização da agência histórica e das experiências dos
sujeitos subalternos, em diálogo com a historiografia social inglesa.
O
legado do estruturalismo para a historiografia permanece significativo, ainda
que transformado pelas críticas pós-estruturalistas. A atenção às estruturas de
longa duração, a análise das relações e oposições que organizam os sistemas
simbólicos, a busca de regularidades subjacentes às variações empíricas
constituem contribuições duradouras. Contudo, a historiografia contemporânea
tende a recusar o determinismo estrutural e a revalorizar a contingência, a
agência e a mudança histórica. Como observou Paul Ricoeur (2010), a narrativa
histórica opera uma síntese entre estruturas e eventos que não pode ser
reduzida a nenhum dos polos. A tarefa do historiador seria articular a análise
das permanências estruturais com a atenção às rupturas e transformações que
caracterizam a experiência temporal das sociedades humanas.
6. A Hermenêutica Histórica no século XX
A hermenêutica, entendida
como teoria e prática da interpretação, constitui uma das tradições mais
importantes para a reflexão sobre o conhecimento histórico. Originada na
exegese de textos sagrados e jurídicos, a hermenêutica foi transformada no
século XIX em disciplina filosófica fundamental para as ciências do espírito.
No século XX, esta tradição passou por desenvolvimentos decisivos,
especialmente nas obras de Martin Heidegger, Hans-Georg Gadamer e Paul Ricoeur,
que reformularam as bases da interpretação histórica e estabeleceram diálogos
produtivos com a historiografia. A hermenêutica histórica, como observou Jörn
Rüsen (2010), oferece instrumentos conceituais para pensar a constituição do
sentido histórico, as condições de compreensão do passado e as relações entre
tradição e inovação na cultura histórica.
Wilhelm
Dilthey, no final do século XIX, estabeleceu as bases da hermenêutica moderna
ao propor a compreensão (Verstehen) como método próprio das ciências do
espírito. Em sua "Introdução às Ciências Humanas" (DILTHEY, 2010),
Dilthey argumentou que a vida histórico-social, diferentemente dos fenômenos
naturais, é dotada de sentido e só pode ser apreendida por um sujeito que
participa da mesma tradição cultural. A compreensão hermenêutica não é
observação externa, mas penetração empática no universo de significados que
orienta as ações dos agentes históricos. Esta concepção foi posteriormente
criticada por sua psicologia implícita, mas estabeleceu o problema fundamental
que a hermenêutica do século XX buscaria resolver: como é possível compreender
expressões culturais distantes no tempo ou no espaço?
Martin
Heidegger, em "Ser e Tempo" (HEIDEGGER, 2012), originalmente
publicado em 1927, transformou radicalmente a hermenêutica ao situá-la no plano
ontológico. A compreensão, para Heidegger, não é método das ciências humanas,
mas estrutura fundamental do ser-no-mundo humano. O Dasein (ser-aí) existe
sempre já lançado em um mundo de significados previamente constituído, e toda
interpretação particular opera a partir dessa pré-compreensão originária. O
círculo hermenêutico, tradicionalmente visto como problema metodológico (não
podemos compreender as partes sem o todo, nem o todo sem as partes), é
reinterpretado como condição existencial: estamos sempre já dentro do círculo,
e a questão é como entrar nele corretamente. Esta ontologização da hermenêutica
teve profundas implicações para a teoria da história.
Hans-Georg
Gadamer, discípulo de Heidegger, desenvolveu a hermenêutica filosófica em
direção a uma teoria da experiência histórica. Em sua obra principal,
"Verdade e Método" (GADAMER, 1999), Gadamer criticou o objetivismo
metodológico das ciências humanas, argumentando que a compreensão histórica é
sempre condicionada pela situação hermenêutica do intérprete. A tradição, longe
de ser obstáculo ao conhecimento, é condição de possibilidade de toda
compreensão: somos seres historicamente situados que interpretamos o passado a
partir de preconceitos (Vorurteile) herdados de nossa tradição. O conceito de
fusão de horizontes (Horizontverschmelzung) descreve o processo pelo qual o
horizonte do intérprete e o horizonte do texto ou da ação interpretada se
encontram na compreensão, produzindo um novo sentido que não existia
previamente em nenhum dos polos.
A
hermenêutica gadameriana teve recepção significativa entre historiadores,
embora também tenha suscitado críticas importantes. A valorização da tradição
foi interpretada, por alguns críticos, como conservadorismo que naturalizava a
autoridade do passado. Jürgen Habermas (1987), em debate célebre com Gadamer,
argumentou que a hermenêutica deveria incorporar uma dimensão crítica capaz de
identificar as distorções sistemáticas da comunicação produzidas por relações
de poder e dominação. A tradição não é apenas horizonte de compreensão, mas
também mecanismo de reprodução de ideologias que a crítica deve desmistificar.
Este debate entre hermenêutica e crítica da ideologia permanece relevante para
a reflexão sobre os limites e possibilidades do conhecimento histórico.
Paul
Ricoeur, filósofo francês que dialogou intensamente com a tradição hermenêutica
alemã, desenvolveu uma hermenêutica que buscava integrar explicação e compreensão.
Em "Do Texto à Ação" (RICOEUR, 1989), Ricoeur argumentou que a
oposição diltheyana entre ciências da natureza e ciências do espírito era
demasiado rígida: a interpretação inclui momentos explicativos, e a explicação
requer contextualização hermenêutica. Esta dialética entre explicar e
compreender foi aplicada à historiografia em "Tempo e Narrativa"
(RICOEUR, 2010), obra em três volumes que investiga as relações entre
temporalidade, narratividade e conhecimento histórico. Ricoeur demonstrou como
a narrativa histórica opera uma mediação entre o tempo vivido e o tempo
cronológico, configurando a experiência temporal de modo a torná-la
inteligível.
A
teoria da narrativa histórica desenvolvida por Ricoeur constitui uma das mais
sofisticadas respostas ao desafio representado pela obra de Hayden White.
Enquanto White (2019) enfatizava os elementos retóricos e ficcionais da escrita
histórica, sugerindo uma indistinção entre história e literatura, Ricoeur
(2010) insistia na especificidade da narrativa histórica em relação à
ficcional. O pacto de referência que liga o historiador a seu objeto distingue
a história da literatura, mesmo quando ambas compartilham recursos narrativos
semelhantes. A representação historiadora, conceito desenvolvido em "A
Memória, a História, o Esquecimento" (RICOEUR, 2007), designa a operação
pela qual o discurso histórico faz ver o passado ausente, sem confundir essa representação
com presença real. A hermenêutica ricoeuriana oferecia, assim, um caminho entre
o objetivismo ingênuo e o relativismo radical.
A
história dos conceitos (Begriffsgeschichte), desenvolvida na Alemanha
principalmente por Reinhart Koselleck, representa uma aplicação original da
hermenêutica à história intelectual. Koselleck (2006), formado na tradição de
Gadamer, propôs uma semântica histórica que investiga as transformações dos
conceitos políticos e sociais fundamentais. Os conceitos, para Koselleck, não são
meros reflexos das realidades históricas, mas fatores que condicionam a
experiência e orientam a ação. A análise das tensões entre espaço de
experiência e horizonte de expectativa permite compreender como diferentes
épocas configuram suas relações com o tempo. Esta perspectiva hermenêutica foi
aplicada ao grande projeto do "Dicionário de Conceitos Históricos
Fundamentais" (Geschichtliche Grundbegriffe), que mapeou as transformações
semânticas dos principais conceitos políticos entre 1750 e 1850.
A
recepção da hermenêutica na historiografia brasileira foi relativamente tardia,
intensificando-se a partir dos anos 1990. Estevão de Rezende Martins (2010)
contribuiu para a difusão da teoria da história alemã, incluindo a tradição
hermenêutica, nos debates acadêmicos nacionais. A história dos conceitos
koselleckiana encontrou interlocutores entre historiadores brasileiros
interessados em pensar as especificidades da modernidade ibero-americana. João
Feres Júnior coordenou projetos de pesquisa que aplicam a metodologia da
Begriffsgeschichte ao estudo dos conceitos políticos no Brasil e na América
Latina, demonstrando as temporalidades distintas dos processos de modernização
conceitual na região. Esta apropriação criativa da hermenêutica histórica abriu
novas possibilidades para a historiografia intelectual brasileira.
A
contribuição de François Hartog à teoria da história, embora não diretamente
filiada à tradição hermenêutica, dialoga produtivamente com ela. O conceito de
regimes de historicidade (HARTOG, 2013), que designa as diferentes
configurações das relações entre passado, presente e futuro, pode ser
interpretado como análise hermenêutica das estruturas de temporalidade que
condicionam a experiência histórica. O presentismo contemporâneo, caracterizado
pela crise das expectativas de futuro e pela hipertrofia do presente, colocaria
novos desafios para a hermenêutica histórica: como interpretar o passado quando
o presente perdeu a capacidade de projetar futuros? Hartog aponta para uma
crise da consciência histórica moderna que afeta as condições de possibilidade
do conhecimento histórico.
A
hermenêutica histórica oferece, assim, instrumentos conceituais indispensáveis
para a reflexão sobre o ofício do historiador. A consciência da situação
hermenêutica do intérprete, a atenção ao círculo da compreensão, a dialética
entre explicar e compreender, a análise das estruturas temporais da experiência
histórica constituem contribuições duradouras dessa tradição. Ao mesmo tempo, a
hermenêutica deve permanecer aberta às críticas que apontam suas limitações: a
tendência ao idealismo, a negligência das dimensões materiais e conflituais da
vida social, o risco de conservadorismo na valorização da tradição. Uma
hermenêutica crítica, como propôs Ricoeur (1989), deve ser capaz de integrar os
momentos de suspeita e de confiança, de explicação e de compreensão, de crítica
e de apropriação.
7. História da Historiografia brasileira
A história da
historiografia brasileira constitui campo de investigação que se desenvolveu
significativamente nas últimas décadas, produzindo análises refinadas sobre as
condições de produção do conhecimento histórico no Brasil. Estudar a
historiografia brasileira implica compreender não apenas as obras e autores que
marcaram a escrita da história no país, mas também as instituições, os debates
intelectuais e os contextos políticos que condicionaram essa produção. José
Carlos Reis (2007), em "As Identidades do Brasil", ofereceu um
panorama das principais interpretações do Brasil formuladas por historiadores e
cientistas sociais, demonstrando como a historiografia brasileira esteve sempre
implicada em projetos de construção da identidade nacional.
Os
primórdios da historiografia brasileira remontam ao período colonial, quando
cronistas e viajantes produziram relatos sobre a terra e os povos do Brasil.
Frei Vicente do Salvador, com sua "História do Brasil" concluída em
1627, é frequentemente considerado o primeiro historiador brasileiro, embora
sua obra permanecesse inédita até o século XIX. No período colonial, predominavam
crônicas religiosas, relatos administrativos e descrições geográficas que,
embora não constituíssem historiografia no sentido moderno, forneceram
materiais documentais para a escrita posterior da história. A produção
historiográfica propriamente dita só se institucionalizaria após a
independência, com a criação de instituições dedicadas à pesquisa e à escrita
da história nacional.
A
fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em 1838 marca
momento decisivo na constituição da historiografia brasileira como campo
institucionalizado. Manoel Luiz Salgado Guimarães (1988), em estudo clássico,
demonstrou como o IHGB constituiu projeto de escrita da história nacional
vinculado à consolidação do Estado imperial. A preocupação com a coleta e
organização de documentos, a elaboração de narrativas de origem e continuidade
que legitimassem a nação emergente, o diálogo com modelos europeus de
historiografia caracterizaram essa primeira fase. O concurso promovido pelo
instituto em 1840, que premiou a dissertação de Carl Friedrich Philipp von
Martius sobre como se deve escrever a história do Brasil, estabeleceu um
programa que influenciaria a produção subsequente, enfatizando a contribuição
das três raças (branca, indígena, negra) para a formação da nacionalidade
brasileira.
Francisco
Adolfo de Varnhagen, visconde de Porto Seguro, é frequentemente considerado o
fundador da historiografia brasileira no sentido moderno. Sua "História
Geral do Brasil" (VARNHAGEN, 1981), publicada entre 1854 e 1857, constituiu
a primeira síntese abrangente da história brasileira, baseada em extensa
pesquisa documental realizada em arquivos portugueses e brasileiros. Varnhagen
representou o modelo de historiador erudito formado na tradição do historicismo
oitocentista, comprometido com o rigor documental e com a construção de uma
narrativa que celebrava a colonização portuguesa e o papel civilizador do
Estado imperial. Sua obra foi posteriormente criticada por seu eurocentrismo e
por sua visão negativa dos povos indígenas e africanos, mas permaneceu
referência incontornável para a historiografia brasileira.
Capistrano
de Abreu representou uma inflexão importante na historiografia brasileira do
final do século XIX e início do XX. Em obras como "Capítulos de História
Colonial" (ABREU, 1998), publicada originalmente em 1907, Capistrano
deslocou o foco da história política e administrativa para os processos de
povoamento, a vida material e as condições geográficas que moldaram a formação
brasileira. Influenciado pela geografia alemã e pela sociologia, Capistrano
antecipou temas que seriam desenvolvidos pela historiografia posterior, como a
importância dos caminhos e da interiorização, as diferenças regionais, a
formação da sociedade sertaneja. Sua ênfase na pesquisa documental e na crítica
das fontes estabeleceu padrões de rigor metodológico que influenciaram gerações
subsequentes.
A
década de 1930 assistiu à emergência de uma nova geração de intérpretes do
Brasil que transformou profundamente a historiografia e as ciências sociais
brasileiras. Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior,
cada um a seu modo, propuseram interpretações inovadoras da formação brasileira
que rompiam com as perspectivas predominantes no IHGB. Freyre (2003), em
"Casa-Grande & Senzala", analisou a formação da sociedade
brasileira a partir das relações familiares e sexuais entre senhores e
escravos, valorizando a miscigenação como elemento constitutivo da identidade
nacional. Sérgio Buarque de Holanda (1995), em "Raízes do Brasil",
investigou as heranças ibéricas na cultura brasileira, desenvolvendo conceitos
como o do homem cordial. Caio Prado Júnior (2011) ofereceu interpretação
marxista da colonização, centrada no conceito de sentido da colonização.
A
institucionalização da pesquisa histórica nas universidades brasileiras, a
partir da década de 1930, transformou as condições de produção do conhecimento
historiográfico. A criação da Universidade de São Paulo em 1934, com a
participação de professores franceses como Fernand Braudel, introduziu novas
perspectivas metodológicas e teóricas no ambiente acadêmico brasileiro. A
influência dos Annales combinou-se com outras tradições, como o marxismo e a
sociologia norte-americana, produzindo sínteses originais. A profissionalização
do historiador, com a criação de programas de pós-graduação a partir dos anos
1970, consolidou a historiografia como campo disciplinar autônomo, dotado de
critérios próprios de validação e instâncias de consagração.
A
historiografia brasileira do período democrático pós-1945 foi marcada por
intensos debates sobre a interpretação do passado colonial e as perspectivas de
desenvolvimento nacional. A controvérsia sobre o caráter feudal ou capitalista
da colonização mobilizou historiadores vinculados a diferentes tradições
teóricas. Nelson Werneck Sodré defendeu a tese do feudalismo brasileiro,
enquanto Caio Prado Júnior a criticou, argumentando pela inserção da colônia no
mercado capitalista mundial desde o início. Fernando Novais (2005) buscou
superar essa polêmica ao inserir a colonização no contexto mais amplo do antigo
sistema colonial e da transição para o capitalismo. Esses debates, embora por
vezes excessivamente polarizados, estimularam o aprofundamento da pesquisa
empírica e o refinamento conceitual.
A
partir dos anos 1980, a historiografia brasileira passou por transformações
significativas associadas à recepção da história social inglesa, da
micro-história italiana e da nova história cultural francesa. A história da
escravidão, antes tratada principalmente do ponto de vista das estruturas
econômicas, passou a incorporar as experiências dos escravizados, suas formas
de resistência, suas culturas e religiosidades. João José Reis (1991), em
"A Morte é uma Festa", e Sidney Chalhoub (1990), em "Visões da
Liberdade", exemplificam essa renovação que articulou rigor documental com
atenção às perspectivas dos subalternos. A história das mulheres, a história
indígena, a história das classes trabalhadoras urbanas emergiram como campos
dinâmicos, deslocando o foco das elites para outros sujeitos históricos.
A
história da historiografia brasileira como campo específico de investigação
consolidou-se nas últimas décadas, produzindo obras de referência e estimulando
debates teóricos. Jurandir Malerba (2006) e outros pesquisadores contribuíram
para a reflexão sistemática sobre a escrita da história no Brasil, analisando
obras, autores, instituições e debates que configuraram o campo disciplinar. A
Sociedade Brasileira de Teoria e História da Historiografia (SBTHH), fundada em
2009, e a revista "História da Historiografia" constituem instâncias
que institucionalizam esse campo de estudos. A história da historiografia
brasileira tornou-se, assim, disciplina reconhecida, com programas de pesquisa,
eventos acadêmicos e produção bibliográfica crescente.
Os
desafios contemporâneos da historiografia brasileira incluem a incorporação de
perspectivas decoloniais, o diálogo com a história global, a atenção às
histórias indígenas e afro-brasileiras em suas próprias lógicas, a reflexão
sobre os usos públicos da história em contextos de disputa política. A crise da
democracia brasileira nos anos recentes colocou em evidência a importância
social da história e as responsabilidades do historiador como intelectual
público. Ao mesmo tempo, a expansão do sistema de pós-graduação e a
internacionalização da pesquisa abriram novas possibilidades de diálogo e
colaboração. A historiografia brasileira, produto de tradições múltiplas e de
debates por vezes conflituosos, constitui campo dinâmico que continua a se transformar
em resposta às demandas do presente e às inovações teóricas e metodológicas.
8. Periodização e temporalidades
A periodização constitui
operação fundamental do conhecimento histórico, organizando o contínuo temporal
em unidades discretas que permitem a análise e a narrativa. Toda divisão do
tempo em períodos envolve escolhas que são, ao mesmo tempo, cognitivas e
políticas, pois estabelecem marcos de ruptura e continuidade que configuram a
inteligibilidade do passado. Jacques Le Goff (2014), em "Faut-il vraiment
découper l'histoire en tranches?", refletiu sobre os problemas da
periodização tradicional (Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna,
Contemporânea), demonstrando seu caráter eurocêntrico e as dificuldades de
aplicá-la a outras regiões do mundo. A reflexão sobre periodização articula-se
necessariamente com a teoria das temporalidades, que investiga as diferentes
formas de experiência e representação do tempo nas sociedades humanas.
A
periodização quadripartite que organiza os currículos de história na maioria
das instituições ocidentais tem origens que remontam à tradição humanista e
cristã. A distinção entre Antiguidade e Idade Média foi estabelecida pelos
humanistas do Renascimento, que se concebiam como restauradores da cultura
clássica após um período de trevas medievais. A Idade Moderna, por sua vez,
designava o período de renovação inaugurado pelo próprio Renascimento. A
Revolução Francesa de 1789 tornou-se marco convencional da passagem à Idade
Contemporânea, estabelecendo uma periodização que naturaliza eventos e
processos europeus como divisores universais do tempo histórico. Esta
cronologia foi exportada para o mundo colonial junto com a expansão europeia,
sobrepondo-se ou eliminando outras formas de organização temporal.
A
crítica à periodização tradicional intensificou-se com o desenvolvimento da
história global e das perspectivas pós-coloniais. Dipesh Chakrabarty (2000), em
"Provincializing Europe", argumentou que a historiografia ocidental
universalizou uma experiência particular, tornando a Europa o centro
referencial a partir do qual todas as outras histórias são medidas como
atrasos, desvios ou aproximações. A periodização eurocêntrica não apenas
organiza o tempo, mas hierarquiza espaços e culturas segundo uma escala
evolutiva implícita. A história global contemporânea, representada por autores
como Sanjay Subrahmanyam, Jerry Bentley e Sebastian Conrad, buscou desenvolver
periodizações alternativas baseadas em conexões, intercâmbios e processos de
escala planetária, sem reduzir o diverso ao padrão europeu.
Fernand
Braudel (1992), ao propor a distinção entre tempo curto, tempo médio e tempo
longo, ofereceu uma perspectiva que complexifica a periodização tradicional. A
longa duração, caracterizada por estruturas que o tempo gasta lentamente
(geográficas, demográficas, mentais), não coincide com as divisões políticas
convencionais, podendo atravessar vários "períodos" sem sofrer
alterações significativas. O conceito de conjuntura, por sua vez, designa
ciclos de média duração (econômicos, sociais, políticos) cujos ritmos próprios
também não se ajustam aos marcos da periodização événementielle. Esta
estratificação temporal permitiu pensar diferentes ritmos de mudança
coexistindo no mesmo momento cronológico, superando a visão de um tempo
histórico homogêneo e linear.
Reinhart
Koselleck (2006) desenvolveu uma teoria das temporalidades históricas que
articula a análise semântica com a reflexão antropológica. Sua distinção entre
espaço de experiência e horizonte de expectativa designa duas categorias
formais que organizam a relação das sociedades com o tempo. A experiência é o
passado tornado presente, acumulado em estratos que condicionam a ação; a
expectativa é o futuro tornado presente, projetado como horizonte de
possibilidades. Diferentes configurações dessas categorias caracterizam
diferentes regimes temporais. A modernidade, segundo Koselleck, caracteriza-se
pela crescente separação entre experiência e expectativa: o passado deixa de
ser modelo para o futuro, que se abre como horizonte de novidade e progresso. Esta
transformação teve implicações profundas para a consciência histórica e para a
escrita da história.
François
Hartog (2013) desenvolveu o conceito de regime de historicidade para designar
as diferentes formas de articulação entre passado, presente e futuro que
caracterizam épocas e sociedades distintas. O regime antigo de historicidade,
exemplificado pela história magistra vitae, concebia o passado como repertório
de exemplos para orientar a ação presente e futura. O regime moderno, que se
instaurou a partir das revoluções do século XVIII, orientava-se para o futuro,
concebido como progresso e realização. O presentismo contemporâneo, diagnóstico
que Hartog propõe para nossa época, caracteriza-se pela crise das expectativas
de futuro e pela hipertrofia do presente, que se expande às custas do passado e
do futuro. A obsessão memorial, o culto ao patrimônio, a proliferação de
comemorações seriam sintomas dessa configuração temporal.
A
reflexão sobre temporalidades inclui também a consideração das diferentes experiências
do tempo nas diversas culturas. A antropologia demonstrou a variedade de
concepções e práticas temporais, desde as temporalidades cíclicas associadas a
sociedades agrárias até as concepções não-lineares de povos ameríndios e
africanos. Eduardo Viveiros de Castro (2004), ao desenvolver o perspectivismo
ameríndio, mostrou como ontologias diferentes implicam temporalidades
diferentes, irredutíveis à concepção ocidental do tempo como fluxo linear
homogêneo. A história indígena, em suas versões mais elaboradas, busca
incorporar essas temporalidades outras, evitando projetar sobre povos
ameríndios categorias temporais que lhes são estranhas.
A
periodização da história do Brasil exemplifica os desafios e as implicações
políticas dessa operação historiográfica. A divisão convencional em Colônia,
Império e República toma as formas de Estado como critério de periodização,
privilegiando a história política e as rupturas institucionais. Perspectivas
alternativas, como aquela proposta por Caio Prado Júnior (2011) centrada no
sentido da colonização, ou a de Fernando Novais (2005) baseada no antigo
sistema colonial, ofereceram outros marcos de periodização que deslocavam o
foco para as estruturas econômicas e as relações com o sistema mundial. A
história da escravidão, por sua vez, propõe periodizações baseadas nos ciclos
do tráfico, nas formas de trabalho e nas conjunturas da abolição, nem sempre
coincidentes com os marcos políticos tradicionais.
A
micro-história e a história cultural problematizaram a noção de período ao
enfatizar as descontinuidades, as defasagens e as sobreposições temporais.
Carlo Ginzburg (2006), ao estudar o moleiro Menocchio, mostrou como um
indivíduo do século XVI mobilizava tradições culturais de origens diversas,
algumas muito antigas, outras mais recentes, configurando uma temporalidade
estratificada que não se ajustava aos marcos convencionais do Renascimento ou
da Reforma. A noção de contemporaneidade do não-contemporâneo, desenvolvida por
Ernst Bloch e retomada por Koselleck, designa essa coexistência de diferentes
temporalidades no mesmo momento cronológico, desafiando as periodizações que
pressupõem homogeneidade temporal.
A
história ambiental trouxe novas perspectivas sobre temporalidades ao introduzir
escalas de tempo geológicas e ecológicas na análise histórica. Os processos de
transformação ambiental operam em ritmos que ultrapassam em muito a duração das
civilizações humanas, exigindo periodizações que articulem a história humana
com a história da Terra. O conceito de Antropoceno, proposto para designar a
era geológica marcada pela ação humana sobre o planeta, implica uma
periodização de novo tipo que conecta a história das sociedades industriais às
transformações de escala planetária. Estas perspectivas desafiam o
antropocentrismo implícito nas periodizações tradicionais, situando a história
humana em contextos temporais mais amplos.
A
reflexão sobre periodização e temporalidades permanece, assim, tarefa essencial
para a teoria da história. Toda periodização é construção que deve ser
justificada e submetida a crítica, não dado natural que se impõe por si mesmo.
Os critérios de periodização revelam pressupostos sobre o que é historicamente
relevante, sobre quais processos merecem ser demarcados como rupturas ou
transições. A consciência da historicidade das próprias periodizações permite
ao historiador questionar naturalizações e propor recortes temporais mais
adequados a seus objetos de investigação. Como observou Le Goff (2014), a
periodização é necessária para a inteligibilidade histórica, mas deve ser
praticada com consciência de seus limites e de suas implicações.
9. A História no cenário da
pós-modernidade
O debate sobre a
pós-modernidade e seus impactos na historiografia constituiu um dos eixos
centrais da reflexão teórica nas últimas décadas do século XX e início do XXI.
O termo pós-modernidade designa, de forma por vezes imprecisa, um conjunto de
transformações culturais, filosóficas e estéticas que questionaram os
pressupostos fundamentais da modernidade iluminista: a crença no progresso, a
confiança na razão, a possibilidade de conhecimento objetivo, as grandes
narrativas de emancipação. Jean-François Lyotard (2009), em "A Condição
Pós-Moderna", caracterizou a pós-modernidade como incredulidade em relação
às metanarrativas, isto é, às grandes narrativas legitimadoras que organizavam
o conhecimento e a ação nas sociedades modernas. Esta caracterização teve
implicações diretas para a história, disciplina tradicionalmente articulada com
narrativas de progresso e emancipação.
A obra
de Hayden White (2019), especialmente "Meta-história", publicada
originalmente em 1973, antecipou e alimentou o debate pós-moderno na
historiografia. White analisou as obras dos principais historiadores e
filósofos da história do século XIX (Michelet, Tocqueville, Ranke, Hegel, Marx,
Nietzsche, entre outros), identificando as estruturas poéticas profundas que
organizavam suas narrativas. Sua tese central era que a forma narrativa não é
mero veículo de comunicação de conteúdos estabelecidos pela pesquisa, mas
elemento constitutivo do sentido histórico. Os tropos literários (metáfora,
metonímia, sinédoque, ironia) e os modos de enredamento (romance, tragédia,
comédia, sátira) configuram a representação do passado antes de qualquer
determinação pelos fatos. Esta análise sugeria uma proximidade entre história e
literatura que abalava as pretensões de cientificidade da disciplina.
A
linguistic turn (virada linguística), associada ao nome de White e de outros
autores como Keith Jenkins e Frank Ankersmit, radicalizou a crítica às
concepções realistas e objetivistas da história. O passado, segundo essa
perspectiva, não é acessível em si mesmo, mas apenas através das representações
linguísticas que o constituem como objeto de conhecimento. A distinção entre
história (o passado tal como ocorreu) e historiografia (os discursos sobre o
passado) tornava-se problemática, uma vez que não haveria acesso ao passado
fora das mediações linguísticas. Jenkins (2004), em "A História
Repensada", argumentou que a história é sempre construção ideológica,
expressão de posições de poder e interesse, sem fundamento em qualquer
realidade extradiscursiva. Esta posição provocou reações intensas de
historiadores que a consideravam um relativismo dissolvente.
A
resposta dos historiadores ao desafio pós-moderno foi variada e por vezes
polarizada. De um lado, historiadores mais tradicionais rejeitaram em bloco as
críticas pós-modernas, considerando-as ataque irresponsável aos fundamentos da
disciplina. Lawrence Stone, Carlo Ginzburg e Richard Evans, entre outros,
defenderam a possibilidade de conhecimento histórico verdadeiro, baseado na
evidência documental e nos métodos críticos da tradição historiográfica. Evans
(1997), em "In Defence of History", empreendeu uma crítica sistemática
das posições de White e Jenkins, argumentando que a história, embora
inevitavelmente mediada por linguagem e interpretação, mantém relação de
correspondência com uma realidade passada que a condiciona e limita. O
documento não é texto infinitamente interpretável, mas vestígio de algo que
efetivamente ocorreu.
Carlo
Ginzburg (2002), em diversos ensaios metodológicos, buscou responder ao desafio
pós-moderno a partir de uma reflexão sobre a prova histórica. Reconhecendo a
dimensão retórica e construtiva do discurso histórico, Ginzburg insistiu na
distinção entre história e ficção, fundamentada na relação com fontes
documentais que permitem verificação e falsificação. A prova, entendida como
vínculo entre afirmação e evidência, distingue o conhecimento histórico das narrativas
ficcionais ou ideológicas. Ginzburg criticou o que considerava uma confusão
entre a dimensão cognitiva e a dimensão estética da historiografia,
argumentando que reconhecer a presença de elementos retóricos na escrita da
história não equivale a reduzir a história à retórica.
Paul
Ricoeur (2010), como vimos anteriormente, ofereceu uma resposta filosófica ao
debate pós-moderno que buscava superar a dicotomia entre objetivismo e
relativismo. Reconhecendo a dimensão narrativa do conhecimento histórico, Ricoeur
insistia na especificidade da narrativa histórica em relação à ficcional. O
pacto de referência que liga o historiador a seu objeto distingue a história da
literatura, mesmo quando ambas compartilham recursos narrativos semelhantes. A
representação historiadora, conceito desenvolvido em "A Memória, a
História, o Esquecimento" (RICOEUR, 2007), designa a operação pela qual o
discurso histórico visa um referente ausente (o passado tal como ocorreu), sem
pretender reproduzi-lo ou coincidir com ele. Esta posição permitia reconhecer
os limites do conhecimento histórico sem cair no ceticismo relativista.
Roger
Chartier (1990) e outros representantes da história cultural francesa também
dialogaram criticamente com o pós-modernismo. Chartier reconheceu a importância
da crítica às concepções ingênuas de objetividade, mas resistiu à dissolução do
referente histórico em pura textualidade. O conceito de práticas, central em
sua abordagem, designava um âmbito de realidade irredutível aos discursos,
embora sempre mediado por representações. As práticas de leitura, por exemplo,
não se confundem com os textos lidos, configurando modos de apropriação que
devem ser investigados em sua materialidade. A história das práticas oferecia,
assim, um caminho para além do textualismo extremo, recuperando a dimensão
social e material da experiência histórica.
A
discussão sobre o negacionismo histórico conferiu ao debate pós-moderno
implicações éticas e políticas urgentes. A negação do Holocausto, que mobiliza
argumentos pseudo-acadêmicos para questionar a existência das câmaras de gás e
o extermínio de milhões de judeus, colocou em evidência os riscos de um
relativismo que questiona a possibilidade de verdade histórica. Pierre
Vidal-Naquet (1988), em resposta aos negacionistas, argumentou que os métodos
críticos da historiografia permitem distinguir entre interpretações legítimas e
falsificações deliberadas. A impossibilidade de uma verdade absoluta e
definitiva não equivale à impossibilidade de toda verdade; o conhecimento
histórico opera entre esses extremos, produzindo verdades parciais, revisáveis,
mas bem fundamentadas.
No
Brasil, a recepção do debate pós-moderno foi mediada pelo contexto político e
intelectual específico. A redemocratização dos anos 1980 e a renovação da
historiografia associada à recepção da história social inglesa e da nova
história cultural francesa coincidiram com a chegada das discussões
pós-modernas. Ciro Flamarion Cardoso (1997) posicionou-se criticamente em
relação ao que denominou "paradigma pós-moderno", defendendo a
possibilidade de conhecimento objetivo baseado nos métodos da tradição
historiográfica. Outros historiadores brasileiros incorporaram seletivamente
elementos da crítica pós-moderna, especialmente no que se refere à atenção às
dimensões discursivas e representacionais da vida social, sem aderir ao
relativismo epistemológico mais radical.
A
passagem do tempo permitiu certo arrefecimento das polêmicas mais acirradas
entre defensores e críticos do pós-modernismo. A historiografia contemporânea
tendeu a incorporar elementos válidos da crítica pós-moderna (a atenção à
linguagem, a consciência da dimensão construtiva do conhecimento, a suspeita em
relação às grandes narrativas) sem abandonar o compromisso com a verdade e a
pesquisa empírica. Como observou Gabrielle Spiegel (2005), a prática
historiográfica permanece fundamentalmente realista, mesmo quando os
historiadores reconhecem teoricamente os limites dessa posição. O arquivo, a
fonte, o documento continuam a ser referências incontornáveis que ancoram a
interpretação e limitam a liberdade especulativa.
Os
desafios contemporâneos da historiografia deslocaram em parte o foco do debate
epistemológico para questões éticas e políticas. A história pública, os usos
políticos do passado, as guerras de memória, o negacionismo de diferentes
matizes colocam em evidência a responsabilidade social do historiador. O
cenário da pós-modernidade, caracterizado pela fragmentação das grandes
narrativas e pela multiplicação de vozes e perspectivas, exige do historiador habilidades
de mediação, tradução e debate público que ultrapassam os limites do trabalho
acadêmico tradicional. A história no século XXI enfrenta o desafio de manter
seu compromisso com a verdade em um ambiente de desinformação e fake news,
afirmando a relevância do conhecimento histórico crítico para a orientação das
sociedades contemporâneas.
10. História, memória e patrimônio
As relações entre
história, memória e patrimônio constituem tema central nos debates
historiográficos contemporâneos, articulando questões teóricas com demandas
sociais prementes. A memória, entendida como forma de relação com o passado
distinta da história, ganhou visibilidade acadêmica e pública a partir dos anos
1980, em processo que Pierre Nora (1993) denominou de "era da
comemoração". O patrimônio, por sua vez, emergiu como categoria que
articula a preservação material do passado com políticas de memória e
identidade. A reflexão sobre esses temas mobiliza instrumentos da teoria da
história, da antropologia, da sociologia e do direito, configurando campo
interdisciplinar de grande dinamismo.
Maurice
Halbwachs, sociólogo francês da tradição durkheimiana, é frequentemente
apontado como fundador dos estudos sobre memória coletiva. Em obras como
"A Memória Coletiva" (HALBWACHS, 2006), publicada postumamente em
1950, Halbwachs argumentou que a memória individual é sempre socialmente
enquadrada, dependendo de quadros coletivos que fornecem os marcos temporais,
espaciais e conceituais para a recordação. Não existe memória puramente
individual; toda lembrança pressupõe pertencimento a grupos sociais que
fornecem os instrumentos para a rememoração. Esta perspectiva sociológica foi
posteriormente retomada e desenvolvida por historiadores, psicólogos e
antropólogos interessados nas dimensões sociais da memória.
Pierre
Nora (1993) organizou o monumental projeto dos "Lieux de Mémoire"
(Lugares de Memória), que investigou os locais, objetos, práticas e símbolos
que cristalizam a memória nacional francesa. A distinção entre memória e
história, proposta por Nora, tornou-se referência incontornável nos debates
subsequentes. A memória seria viva, encarnada em grupos portadores, aberta à
dialética da lembrança e do esquecimento, afetiva e mágica; a história seria
operação intelectual e laicizante, crítica e reflexiva, reconstrução sempre
problemática e incompleta do passado. Nora diagnosticava uma crise da memória
tradicional, espontânea e vivida, substituída por uma memória arquivística,
documental, que precisa de suportes externos para se manter. Os lugares de
memória seriam sintomas dessa transformação, tentativas de fixar e preservar o
que não mais se vive espontaneamente.
Paul
Ricoeur (2007), em "A Memória, a História, o Esquecimento", ofereceu
uma reflexão filosófica abrangente sobre as relações entre essas três dimensões
da experiência temporal. Ricoeur criticou a oposição demasiado rígida entre
memória e história proposta por Nora, argumentando por uma relação mais
complexa e dialética. A memória, em seu polo fenomenológico, é matriz do
conhecimento do passado, fornecendo à história sua pretensão de verdade; a
história, por sua vez, opera uma crítica e uma correção da memória, submetendo
as lembranças ao crivo metodológico. O esquecimento, frequentemente
negligenciado, constitui condição tanto da memória (não é possível lembrar
tudo) quanto da história (toda narrativa seleciona e omite). A memória justa,
ideal regulador proposto por Ricoeur, seria aquela que equilibra lembrança e
esquecimento a serviço da vida.
Os
debates sobre memória articulam-se com questões de justiça e reparação,
especialmente no que se refere a eventos traumáticos como genocídios, ditaduras
e violações de direitos humanos. A memória do Holocausto tornou-se
paradigmática para a reflexão sobre testemunho, trauma e representação
histórica. Os testemunhos de sobreviventes, como os coletados pelo projeto
Shoah de Steven Spielberg, colocaram em evidência uma forma de conhecimento do
passado irredutível à historiografia documental tradicional. Márcio
Seligmann-Silva (2003), entre outros pesquisadores brasileiros, investigou as
relações entre testemunho, memória e escrita, demonstrando as especificidades
da representação de eventos-limite.
A
história oral, como método de pesquisa baseado na produção e análise de fontes
orais, desenvolveu-se em estreita relação com os estudos de memória. Alessandro
Portelli (2016), referência internacional nesse campo, argumentou que as fontes
orais não são menos confiáveis que as escritas, apenas diferentes: o que a
história oral oferece não é tanto informação factual quanto acesso às
representações, aos significados e às experiências subjetivas dos narradores.
Os "erros" e "distorções" da memória são tão significativos
quanto as informações precisas, revelando como o passado é processado e
reelaborado pelos sujeitos. No Brasil, o Centro de Pesquisa e Documentação de
História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas tornou-se
referência na produção e preservação de fontes orais, contribuindo para a
consolidação do campo.
O
patrimônio, entendido como conjunto de bens materiais e imateriais considerados
dignos de preservação para as gerações futuras, articula-se intimamente com as
políticas de memória e as representações do passado. Françoise Choay (2006), em
"A Alegoria do Patrimônio", traçou a genealogia do conceito,
demonstrando como a noção de patrimônio histórico emergiu no contexto das
revoluções e transformações do século XIX, quando a consciência da ruptura com
o passado gerou esforços de preservação dos vestígios ameaçados. A
patrimonialização é, assim, fenômeno tipicamente moderno, expressão de uma
relação com o tempo marcada pela consciência da mudança e pela nostalgia de um
passado percebido como perdido ou ameaçado.
A
expansão do conceito de patrimônio nas últimas décadas incluiu não apenas
monumentos e edificações, mas também paisagens culturais, sítios arqueológicos,
centros históricos e, mais recentemente, o patrimônio imaterial: festas,
celebrações, saberes, técnicas, expressões artísticas. A Convenção para a
Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO, de 2003, consagrou essa
ampliação, reconhecendo dimensões da cultura que não se materializam em objetos
físicos. No Brasil, o registro de bens imateriais pelo IPHAN (Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) incluiu manifestações como o samba
de roda do Recôncavo Baiano, o frevo, o ofício das baianas de acarajé, entre
outros. Esta ampliação levantou questões sobre a relação entre patrimônio e
comunidades, sobre os critérios de seleção e sobre os riscos de folclorização e
espetacularização.
A
história pública emergiu como campo que articula historiografia, memória e
patrimônio em suas dimensões de comunicação e engajamento com públicos não
acadêmicos. Museus, exposições, documentários, séries televisivas, jogos
digitais constituem espaços e formatos nos quais representações do passado
circulam e são apropriadas por amplas audiências. Jill Liddington (2002) e
outros pesquisadores investigaram as práticas de história pública, demonstrando
tanto seus potenciais quanto seus riscos. A democratização do acesso ao passado
coexiste com a mercantilização e a espetacularização, exigindo do historiador
novas competências de mediação e tradução. No Brasil, a criação de programas de
pós-graduação e a organização de eventos específicos consolidaram a história
pública como área de atuação profissional e reflexão teórica.
As
políticas de memória no Brasil ganharam centralidade no debate público,
especialmente no que se refere à ditadura militar (1964-1985) e à escravidão. A
Comissão Nacional da Verdade, instalada em 2012, investigou as violações de
direitos humanos cometidas pelo Estado brasileiro entre 1946 e 1988, produzindo
relatório que documenta casos de tortura, assassinato e desaparecimento
forçado. A memória da escravidão, por sua vez, foi objeto de intensas disputas
sobre as formas de representação, os locais de memória e as políticas de reparação.
Historiadores como Hebe Mattos, Ana Lucia Araújo e outros investigaram as
relações entre história, memória e identidade nas comunidades afro-brasileiras,
demonstrando a persistência de memórias da escravidão transmitidas através das
gerações.
A
reflexão sobre história, memória e patrimônio permanece fundamental para
compreender as formas pelas quais as sociedades contemporâneas se relacionam
com seu passado. O historiador é chamado a intervir nos debates públicos sobre
memória e patrimônio, contribuindo com perspectivas críticas que questionem
naturalizações e instrumentalizações. Ao mesmo tempo, a prática historiográfica
é enriquecida pelo diálogo com os estudos de memória, que evidenciam dimensões
da experiência temporal irredutíveis ao registro documental. Como argumentou
François Hartog (2013), o presentismo contemporâneo coloca novos desafios para
essa articulação: em um regime temporal marcado pela hipertrofia do presente, a
memória e o patrimônio podem tanto constituir resistências à amnésia quanto
alimentar nostalgias paralisantes. A tarefa crítica do historiador permanece
indispensável.
11. História digital: fontes,
ferramentas e métodos
A história digital
constitui campo emergente que transforma profundamente a prática
historiográfica, afetando todas as etapas do trabalho do historiador: acesso a
fontes, métodos de análise, formas de comunicação e preservação do
conhecimento. O desenvolvimento das tecnologias digitais nas últimas décadas
criou novas possibilidades e novos desafios para a disciplina histórica. A
digitalização massiva de documentos, a criação de bancos de dados, o
desenvolvimento de ferramentas computacionais de análise e visualização, a
emergência de fontes nativas digitais (born-digital) configuram um cenário que
exige do historiador competências e reflexões metodológicas renovadas. A
história digital, como observou Anita Lucchesi (2020), não é apenas uso de
tecnologia pela história, mas transformação das condições de produção do
conhecimento histórico.
A
digitalização de acervos documentais transformou radicalmente as condições de
acesso às fontes históricas. Bibliotecas, arquivos e museus de todo o mundo
disponibilizaram milhões de documentos em plataformas digitais, permitindo
consultas remotas antes impossíveis. O Arquivo Nacional do Brasil, a Biblioteca
Nacional, o IHGB, entre outras instituições, desenvolveram projetos de
digitalização que democratizaram o acesso a fontes primárias. Projetos
internacionais como o Google Books, o Internet Archive e a Europeana ampliaram
enormemente o corpus documental disponível para pesquisa. Esta abundância,
contudo, não elimina desigualdades: a digitalização é seletiva, privilegiando
determinados acervos e períodos, e o acesso depende de infraestrutura
tecnológica e competências digitais distribuídas de forma desigual.
Os
métodos quantitativos de análise textual ganharam novo impulso com o
desenvolvimento das humanidades digitais. A mineração de texto (text mining), a
análise de redes, a visualização de dados, entre outras técnicas computacionais,
permitem explorar grandes conjuntos documentais de formas antes impraticáveis.
Franco Moretti (2013), teórico literário que influenciou debates
historiográficos, propôs o conceito de distant reading (leitura distante) para
designar abordagens que analisam padrões em milhares ou milhões de textos, em
contraste com a close reading (leitura atenta) de obras individuais
característica das humanidades tradicionais. Na historiografia, essas técnicas
foram aplicadas ao estudo de periódicos, correspondências, discursos
parlamentares e outros corpora textuais extensos.
A
análise de redes (network analysis) oferece instrumentos para mapear e
visualizar relações entre entidades históricas: correspondências entre
intelectuais, redes comerciais, vínculos familiares, circulação de ideias. Amir
Blumenfeld-Lieberthal, Claire Lemercier e outros pesquisadores desenvolveram
aplicações historiográficas dessas técnicas, demonstrando como a visualização
de redes pode revelar padrões e conexões invisíveis na análise qualitativa
tradicional. A prosopografia, método de investigação coletiva de biografias,
foi renovada pelo uso de bancos de dados relacionais e ferramentas de análise
de redes. Projetos como o Mapping the Republic of Letters, da Stanford
University, exemplificam as possibilidades de investigação sobre circulação
intelectual e formação de comunidades de conhecimento.
Os
sistemas de informação geográfica (SIG ou GIS, na sigla em inglês) constituem
ferramentas poderosas para a história espacial. A georreferenciação de dados
históricos permite criar mapas dinâmicos que visualizam transformações
territoriais, fluxos migratórios, distribuição de fenômenos no espaço. A
história ambiental, a história urbana, a história da escravidão, entre outros
campos, beneficiaram-se dessas ferramentas. O Atlas Digital da América Lusa,
projeto coordenado por historiadores brasileiros, exemplifica a aplicação de
SIG para o estudo da colonização portuguesa na América. A espacialização dos
dados históricos não é mera ilustração, mas pode revelar padrões e sugerir
hipóteses que a análise textual tradicional não permitiria formular.
As
fontes nativas digitais (born-digital) colocam novos desafios para o
historiador. E-mails, websites, blogs, redes sociais, vídeos digitais, jogos
eletrônicos constituem documentação de processos históricos contemporâneos que
não existem em formato analógico. A preservação digital tornou-se preocupação
premente, dada a obsolescência rápida de formatos e suportes tecnológicos. O
Internet Archive, através de seu projeto Wayback Machine, preserva versões
históricas de websites, constituindo acervo fundamental para a história da
internet. Os arquivos de redes sociais, quando preservados, documentam formas
de comunicação e mobilização política que caracterizam o século XXI. O
historiador do futuro dependerá dessas fontes para compreender nosso presente.
A
inteligência artificial e o aprendizado de máquina (machine learning) abrem
novas possibilidades para a análise histórica. O reconhecimento óptico de
caracteres (OCR) permite a transcrição automática de documentos impressos e,
cada vez mais, manuscritos. Modelos de linguagem natural podem classificar
documentos, identificar entidades mencionadas, detectar padrões semânticos em
grandes corpora. Projetos como o Transkribus desenvolveram ferramentas de
transcrição de manuscritos históricos baseadas em inteligência artificial,
acelerando enormemente o trabalho de edição de fontes. Ao mesmo tempo, essas
tecnologias levantam questões sobre vieses algorítmicos, sobre a caixa-preta
dos modelos computacionais e sobre os limites da automação da interpretação
histórica.
A
comunicação da história foi transformada pelo ambiente digital. Blogs,
podcasts, canais de vídeo, perfis em redes sociais constituem espaços nos quais
historiadores e divulgadores circulam conhecimento histórico para públicos
amplos. A Wikipédia, enciclopédia colaborativa online, tornou-se fonte de
informação histórica amplamente consultada, levantando questões sobre
qualidade, confiabilidade e autoridade do conhecimento histórico no ambiente
digital. Roy Rosenzweig (2006) analisou a Wikipédia como fenômeno
historiográfico, demonstrando suas potencialidades e limitações. A história
pública digital exige do historiador novas competências de comunicação e novas
formas de engajamento com audiências não acadêmicas.
Os
desafios metodológicos e epistemológicos da história digital são objeto de
reflexão crescente. A abundância de dados não substitui a interpretação
crítica; ao contrário, exige novas formas de seleção, contextualização e
análise. A visualização de dados pode tanto revelar quanto obscurecer,
dependendo das escolhas de representação. O risco de um novo positivismo
digital, que confundiria processamento computacional com conhecimento
histórico, foi apontado por críticos como Lara Putnam (2016). A história
digital não substitui os métodos tradicionais da historiografia, mas os
complementa, exigindo uma articulação refletida entre abordagens quantitativas
e qualitativas, entre leitura distante e leitura atenta.
No
Brasil, a história digital desenvolveu-se significativamente nas últimas
décadas, embora permaneça desigualmente distribuída entre instituições e
regiões. Laboratórios de humanidades digitais foram criados em universidades
como USP, UFRJ, UFMG, Unicamp, entre outras, desenvolvendo projetos de
digitalização, análise e comunicação histórica. A Associação Nacional de
História (ANPUH) criou grupos de trabalho dedicados à história digital,
reconhecendo a importância do campo. A pandemia de COVID-19, ao impor o ensino
remoto e o trabalho à distância, acelerou a digitalização de práticas
historiográficas e evidenciou tanto as potencialidades quanto as limitações da
infraestrutura digital brasileira.
A
história digital representa, assim, transformação em curso que afeta todas as
dimensões do ofício do historiador. O acesso ampliado a fontes, as novas
ferramentas de análise, as possibilidades de comunicação com públicos variados
configuram um cenário de oportunidades que exige, contudo, reflexão crítica
sobre métodos, limites e implicações. A formação do historiador no século XXI
deve incluir competências digitais, sem perder de vista os fundamentos
metodológicos e teóricos da tradição historiográfica. Como observou Toni Weller
(2013), a história digital não é disciplina separada, mas extensão e
transformação da prática historiográfica em resposta às condições tecnológicas
e sociais contemporâneas. O desafio é integrar as ferramentas digitais em uma
prática crítica, reflexiva e socialmente responsável do conhecimento histórico.
11. A
METODOLOGIA E A TEORIA DA HISTÓRIA: OBJETO, FONTES E ESCRITA NA PRODUÇÃO DO
CONHECIMENTO HISTÓRICO
A reflexão sobre a
natureza do conhecimento histórico constitui um dos pilares fundamentais da
disciplina historiográfica desde sua institucionalização acadêmica no século
XIX. Compreender as relações entre metodologia e teoria implica reconhecer que
a História não se resume à mera acumulação de fatos pretéritos, mas envolve complexas
operações intelectuais de seleção, interpretação e narrativização do passado.
Conforme argumentou Marc Bloch em sua obra póstuma "Apologie pour
l'histoire ou Métier d'historien", publicada em 1949, a História é "a
ciência dos homens no tempo", definição que sublinha tanto seu caráter
científico quanto sua dimensão humana e temporal (BLOCH, 2001, p. 55). Esta
formulação clássica permanece como ponto de partida para compreender as
especificidades epistemológicas do ofício do historiador.
O objeto da História
constitui questão central no debate teórico-metodológico. Diferentemente das
ciências naturais, cujos objetos podem ser observados diretamente e submetidos
a experimentação, o historiador trabalha com um objeto ausente, o passado, que
só pode ser acessado mediante vestígios e mediações. Como salientou Paul Veyne
em "Comment on écrit l'histoire", de 1971, a História é conhecimento
por vestígios, uma "mutilação" que impede o acesso direto ao passado
tal como ele foi (VEYNE, 1998, p. 18-19). Esta condição ontológica do objeto
histórico impõe limites e possibilidades específicos ao trabalho
historiográfico, distinguindo-o fundamentalmente de outras formas de
conhecimento.
As fontes históricas
constituem a matéria-prima do trabalho do historiador, os vestígios através dos
quais o passado pode ser parcialmente recuperado. A tradicional distinção entre
fontes primárias e secundárias, estabelecida desde a consolidação do método
crítico no século XIX, foi progressivamente complexificada pela ampliação do
conceito de documento histórico. A Escola dos Annales desempenhou papel
decisivo nessa transformação, ao defender que "tudo é fonte para o
historiador", desde registros oficiais até objetos da cultura material,
iconografia e tradições orais (LE GOFF, 1990, p. 28). Lucien Febvre, em
"Combats pour l'histoire", de 1953, criticou duramente a
identificação entre documento e texto escrito, propugnando uma história baseada
em todos os vestígios da atividade humana (FEBVRE, 1985, p. 249).
A crítica documental
permanece como procedimento metodológico fundamental, mesmo após as
transformações epistemológicas do século XX. Os princípios da crítica externa
(autenticidade) e interna (credibilidade), sistematizados pelos historiadores
metódicos alemães e franceses do Oitocentos, não foram abandonados, mas
incorporados a procedimentos analíticos mais sofisticados. Charles-Victor
Langlois e Charles Seignobos, em "Introduction aux études
historiques", de 1898, estabeleceram procedimentos rigorosos de crítica
documental que, apesar das críticas posteriores, constituem fundamento
metodológico ainda válido para a verificação da autenticidade e interpretação
dos documentos (LANGLOIS; SEIGNOBOS, 1946, p. 67-89).
A questão da escrita da
história recebeu atenção renovada a partir da chamada "virada
linguística" nas ciências humanas. Hayden White, em "Metahistory: The
Historical Imagination in Nineteenth-Century Europe", de 1973, argumentou
que os textos historiográficos são construções narrativas que empregam
estratégias retóricas e tropos linguísticos análogos aos da literatura de
ficção (WHITE, 1992, p. 11-12). Esta tese provocativa gerou intensos debates
sobre as relações entre história e ficção, narrativa e verdade, problematizando
a pretensão de objetividade do discurso historiográfico sem, contudo,
equipará-lo completamente à ficção literária.
A resposta de
historiadores como Carlo Ginzburg às teses de White evidencia a complexidade do
debate contemporâneo sobre a escrita da história. Em "Il giudice e lo
storico", de 1991, Ginzburg defende a especificidade do conhecimento
histórico frente às pretensões relativistas, argumentando que o historiador,
assim como o juiz, trabalha com provas e indícios que permitem distinguir entre
interpretações mais ou menos adequadas ao que efetivamente ocorreu (GINZBURG,
2002, p. 44-45). O paradigma indiciário, desenvolvido pelo mesmo autor em
"Miti, emblemi, spie", de 1986, oferece uma epistemologia alternativa
baseada na atenção aos detalhes reveladores e às anomalias documentais
(GINZBURG, 1989, p. 143-179).
A teoria da história,
enquanto reflexão sistemática sobre os pressupostos e procedimentos do
conhecimento histórico, distingue-se da filosofia da história especulativa que
caracterizou o pensamento oitocentista. Jörn Rüsen, em "Razão histórica:
teoria da história: fundamentos da ciência histórica", publicado
originalmente em 1983, propõe uma "teoria da história" como
disciplina que investiga as condições de possibilidade do pensamento histórico,
diferenciando-a tanto da filosofia especulativa quanto da mera reflexão
metodológica (RÜSEN, 2001, p. 25-35). Esta abordagem reconhece a historicidade
do próprio conhecimento histórico, suas transformações e condicionamentos
socioculturais.
A relação entre teoria e
prática historiográfica permanece como questão problemática no campo
disciplinar. Enquanto alguns historiadores defendem que a teorização deve
emergir do trabalho empírico concreto, outros argumentam pela necessidade de
reflexão teórica prévia que oriente a pesquisa. Antoine Prost, em "Doze
lições sobre a história", de 1996, sustenta uma posição intermediária,
reconhecendo que toda pesquisa histórica pressupõe escolhas teóricas,
implícitas ou explícitas, que condicionam desde a formulação das questões até a
interpretação das fontes (PROST, 2008, p. 63-79). Esta perspectiva evidencia a
impossibilidade de uma história puramente empírica, desprovida de pressupostos
teóricos.
O conceito de operação
historiográfica, proposto por Michel de Certeau em "L'écriture de
l'histoire", de 1975, oferece um modelo analítico integrador que articula
as dimensões social, prática e textual do trabalho histórico. Para Certeau, o
texto historiográfico resulta de uma operação que envolve um lugar social de
produção, práticas científicas específicas e uma escrita que constrói uma representação
do passado (CERTEAU, 2011, p. 65-119). Esta tríade permite compreender o
conhecimento histórico como produto de condições institucionais, procedimentos
metodológicos e estratégias discursivas articuladas.
A questão da objetividade
histórica, central nos debates teóricos, foi objeto de reavaliação nas últimas
décadas. A crítica pós-moderna à pretensão de verdade objetiva não resultou,
para a maioria dos historiadores, em relativismo absoluto, mas em uma concepção
mais sofisticada de objetividade. Como argumenta Chris Lorenz em diversos
ensaios reunidos em "Konstruktion der Vergangenheit", de 1997, é
possível defender uma objetividade histórica qualificada, que reconheça os
condicionamentos sociais e linguísticos do conhecimento sem abandonar critérios
de validação empírica e lógica (LORENZ, 1998, p. 57-82). Esta posição permite
manter o caráter científico da história sem recair em positivismo ingênuo.
A produção do
conhecimento histórico envolve necessariamente processos de seleção e exclusão
que devem ser explicitados e problematizados. O historiador não apenas encontra
fontes, mas as constrói através de perguntas que dirige ao passado. Marc Bloch
já advertia que "os textos ou os documentos arqueológicos, mesmo os
aparentemente mais claros e mais complacentes, não falam senão quando sabemos
interrogá-los" (BLOCH, 2001, p. 79). Esta dimensão construtiva do
conhecimento histórico não implica arbitrariedade, mas reconhecimento de que
toda historiografia é perspectivada, produzida a partir de lugares sociais e
epistêmicos específicos.
As transformações
tecnológicas contemporâneas impõem novas reflexões sobre metodologia e fontes
históricas. A digitalização massiva de acervos documentais, o surgimento de
fontes nativas digitais e as ferramentas computacionais de análise textual
modificam substancialmente as condições de produção do conhecimento histórico.
Conforme discutido por diversos autores em "History in the Digital
Age", organizado por Toni Weller em 2013, estas transformações não apenas
ampliam o acesso às fontes, mas colocam questões metodológicas inéditas sobre
preservação, autenticidade e análise de documentos digitais (WELLER, 2013, p.
1-20). A reflexão teórico-metodológica deve, portanto, incorporar estas novas
condições de possibilidade do trabalho historiográfico.
Em síntese, a metodologia
e a teoria da história constituem dimensões indissociáveis da prática
historiográfica, não como especulações abstratas apartadas do trabalho
empírico, mas como reflexão sistemática sobre as condições, possibilidades e
limites do conhecimento do passado. Como observou Reinhart Koselleck em
"Vergangene Zukunft: Zur Semantik geschichtlicher Zeiten", de 1979,
toda historiografia opera com categorias teóricas que determinam o que pode ser
percebido e narrado como histórico (KOSELLECK, 2006, p. 97-118). A formação do
historiador requer, portanto, tanto o domínio de procedimentos metodológicos
quanto a capacidade de reflexão teórica sobre os fundamentos e implicações de
seu ofício.
12. OS HISTORICISMOS E A FORMAÇÃO DO
CAMPO DISCIPLINAR DA HISTÓRIA NO SÉCULO XIX
O século XIX constitui
período decisivo para a institucionalização da História como disciplina
acadêmica autônoma, processo intimamente vinculado ao desenvolvimento do
historicismo como corrente de pensamento. O termo "historicismo"
abarca, contudo, significados diversos e por vezes contraditórios, exigindo
precisão conceitual. Friedrich Meinecke, em "Die Entstehung des
Historismus", de 1936, identificou o historicismo como uma das maiores
revoluções do pensamento ocidental, consistindo no reconhecimento da
historicidade fundamental de todas as manifestações humanas e na substituição
de uma visão generalizante por uma compreensão individualizante dos fenômenos
históricos (MEINECKE, 1972, p. 1-15).
Leopold von Ranke emerge
como figura central na constituição do campo disciplinar da História, embora
sua obra seja frequentemente simplificada pela fórmula "wie es eigentlich
gewesen" (como realmente aconteceu). Esta expressão, presente no prefácio
de "Geschichten der romanischen und germanischen Völker von 1494 bis
1514", de 1824, não deve ser interpretada como profissão de fé
positivista, mas como afirmação da autonomia do conhecimento histórico frente
às filosofias especulativas da história (RANKE, 2010, p. 86). A obra de Ranke
representa esforço sistemático de fundamentação científica da história através
da crítica documental rigorosa, especialmente de fontes diplomáticas e
narrativas.
A universidade alemã
constituiu o principal espaço institucional de consolidação da história
científica no Oitocentos. O modelo do seminário histórico, desenvolvido por
Ranke em Berlim a partir de 1833, estabeleceu padrões de formação profissional
baseados na análise crítica de documentos originais, na discussão coletiva e na
produção de pesquisa original. Como demonstrou Bonnie Smith em "The Gender
of History", de 1998, este modelo institucional implicou também processos
de masculinização e profissionalização que excluíram mulheres e amadores do
campo disciplinar emergente (SMITH, 2003, p. 103-129). A história tornava-se
assim ofício especializado, com métodos próprios e credenciais acadêmicas
específicas.
Johann Gustav Droysen
elaborou a primeira reflexão sistemática sobre metodologia histórica em
"Historik", conjunto de lições proferidas a partir de 1857. Droysen
distinguiu explicação (Erklären) e compreensão (Verstehen), argumentando que as
ciências do espírito, incluindo a história, requerem procedimentos
interpretativos distintos dos métodos das ciências naturais (DROYSEN, 2009, p.
35-52). Esta distinção epistemológica, posteriormente desenvolvida por Wilhelm
Dilthey, fundamentou a especificidade metodológica da história como ciência
hermenêutica, dedicada à compreensão do sentido das ações e criações humanas.
Wilhelm Dilthey aprofundou
a fundamentação filosófica das ciências do espírito em obras como
"Einleitung in die Geisteswissenschaften", de 1883. Para Dilthey, a
experiência vivida (Erlebnis) constitui a base do conhecimento histórico,
permitindo ao historiador compreender o passado através de uma espécie de
revivência empática (DILTHEY, 2010, p. 95-118). Esta concepção, embora
criticada posteriormente por seu psicologismo, estabeleceu distinção
fundamental entre a explicação causal das ciências naturais e a compreensão
interpretativa das humanidades, influenciando profundamente a hermenêutica
histórica posterior.
O historicismo
desenvolveu-se também em direções conservadoras e nacionalistas que merecem
análise crítica. A concepção de individualidade histórica das nações serviu frequentemente
para legitimar projetos políticos de unificação nacional e expansão
imperialista. Georg Iggers, em "The German Conception of History", de
1968, demonstrou como o historicismo alemão tendeu a absolutizar o Estado
nacional como manifestação suprema do espírito de um povo, contribuindo para
tradições políticas antidemocráticas (IGGERS, 1983, p. 124-173). Esta dimensão
política do historicismo revela como a constituição disciplinar da história não
foi processo neutro, mas atravessado por interesses e ideologias específicos.
A escola metódica
francesa representa variante importante do movimento de cientificização da
história no século XIX. Gabriel Monod, no artigo programático publicado no
primeiro número da Revue Historique em 1876, defendeu uma história científica
baseada na análise crítica de documentos, distinguindo-se tanto da
historiografia romântica quanto das especulações filosóficas (MONOD, 1876, p.
1-29). A "Introduction aux études historiques", de Langlois e
Seignobos, publicada em 1898, sistematizou os procedimentos do método crítico,
tornando-se manual de referência para formação de historiadores em diversos
países (LANGLOIS; SEIGNOBOS, 1946, p. 13-45).
A crítica ao historicismo
emergiu ainda no próprio século XIX, assumindo formas diversas. Friedrich
Nietzsche, em "Vom Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben",
de 1874, questionou os excessos do conhecimento histórico e sua tendência a
paralisar a ação ao submergir o presente sob o peso do passado (NIETZSCHE,
2003, p. 7-75). Esta crítica, embora não tenha impedido o desenvolvimento do
historicismo acadêmico, antecipou debates posteriores sobre as relações entre
história e vida, conhecimento e ação, que seriam retomados no século XX.
O historicismo exerceu
influência decisiva sobre outras disciplinas das ciências humanas em formação.
A economia histórica alemã, representada por autores como Gustav Schmoller e a
"escola histórica", rejeitou o universalismo da economia clássica em
favor de análises historicamente situadas das instituições econômicas.
Similarmente, a sociologia nascente de Max Weber manteve diálogo intenso com a
tradição historicista, incorporando a compreensão interpretativa (Verstehen) em
sua metodologia, como evidenciado em "Wirtschaft und Gesellschaft", publicado
postumamente em 1922 (WEBER, 2004, p. 3-35). O historicismo constituiu assim
matriz epistemológica mais ampla das ciências humanas modernas.
A crise do historicismo,
diagnosticada por Ernst Troeltsch em "Der Historismus und seine
Probleme", de 1922, revelou as tensões internas desta tradição de
pensamento. O reconhecimento da relatividade histórica de todos os valores e
instituições conduzia logicamente ao relativismo, minando as próprias bases
normativas sobre as quais se assentava o conhecimento histórico (TROELTSCH,
1922, p. 3-29). Esta crise epistemológica antecipou debates posteriores sobre
objetividade e perspectivismo que atravessariam todo o século XX.
A institucionalização da
história como disciplina acadêmica envolveu também a constituição de infraestrutura
específica, incluindo arquivos, bibliotecas, revistas especializadas e
associações profissionais. A fundação de periódicos como a Historische
Zeitschrift (1859), a Revue Historique (1876) e a English Historical Review
(1886) criou espaços de comunicação científica e avaliação por pares essenciais
para a consolidação do campo disciplinar. Como analisou Peter Burke em
"Uma história social do conhecimento", de 2003, estas instituições
constituíram condições materiais indispensáveis para a produção e circulação do
conhecimento histórico profissionalizado (BURKE, 2003, p. 79-102).
O legado do historicismo
oitocentista permanece objeto de avaliações divergentes. Por um lado, a crítica
marxista e a escola dos Annales denunciaram o elitismo político do historicismo,
sua concentração na história dos Estados e grandes homens em detrimento das
massas populares e estruturas socioeconômicas. Por outro lado, pensadores como
Hans-Georg Gadamer e Paul Ricoeur recuperaram elementos da tradição
hermenêutica para fundamentar epistemologias históricas contemporâneas.
Gadamer, em "Wahrheit und Methode", de 1960, reabilitou a noção de
tradição e consciência histórica contra o objetivismo metodológico,
argumentando que a compreensão histórica pressupõe inserção prévia em horizontes
de sentido historicamente constituídos (GADAMER, 1997, p. 354-385).
Em perspectiva
historiográfica, o historicismo do século XIX deve ser compreendido como
momento decisivo de constituição do campo disciplinar da história, com suas
instituições, métodos e pressupostos epistemológicos específicos. As críticas
posteriores, desde os Annales até a "virada linguística", não
aboliram completamente esta herança, mas a reelaboraram e complexificaram. Como
observou François Dosse em "A história", de 2012, compreender o
historicismo é condição necessária para situar historicamente a própria
disciplina histórica, reconhecendo tanto suas conquistas quanto seus limites e
pontos cegos (DOSSE, 2012, p. 15-47). A formação do historiador contemporâneo
requer assim conhecimento crítico desta tradição fundadora.
13. A ESCOLA DOS ANNALES E O DIÁLOGO
INTERDISCIPLINAR
A Escola dos Annales
constitui um dos movimentos historiográficos mais influentes do século XX,
responsável por transformações profundas na concepção e prática da disciplina
histórica. Fundada em 1929 com a criação da revista Annales d'histoire
économique et sociale por Marc Bloch e Lucien Febvre, esta corrente
caracterizou-se pela crítica à história política tradicional, pela abertura ao
diálogo com as ciências sociais e pela ampliação temática e metodológica da
pesquisa histórica. Peter Burke, em "A Escola dos Annales (1929-1989): a
Revolução Francesa da historiografia", de 1990, oferece panorama
abrangente das três gerações do movimento, identificando continuidades e
rupturas em seu desenvolvimento (BURKE, 1991, p. 11-26).
O contexto de surgimento
dos Annales vincula-se à crise das formas tradicionais de fazer história e às
transformações das ciências sociais nas primeiras décadas do século XX. A
sociologia durkheimiana, a geografia vidaliana e a economia em transformação
ofereciam modelos teóricos e metodológicos que desafiavam o predomínio da
história política événementielle. François Simiand, em artigo de 1903
intitulado "Méthode historique et science sociale", criticou os três
"ídolos" da história tradicional, o político, o individual e o
cronológico, propugnando uma história científica orientada para regularidades e
estruturas sociais (SIMIAND, 1903, p. 1-22). Esta crítica ecoou fortemente nos
fundadores dos Annales.
Marc Bloch representa
síntese notável de erudição histórica e abertura metodológica. Sua obra
"Les rois thaumaturges", de 1924, inaugurou a história das
mentalidades ao investigar as crenças no poder curativo dos reis franceses e
ingleses, mobilizando antropologia, psicologia coletiva e história comparada
(BLOCH, 1993, p. 41-95). Em "La société féodale", de 1939-1940, Bloch
aplicou o método comparativo em escala europeia para analisar as estruturas
sociais medievais, demonstrando a fecundidade do diálogo entre história e
sociologia (BLOCH, 1987, p. 13-29). Seu legado metodológico, expresso em
"Apologie pour l'histoire", permanece referência fundamental para a
formação de historiadores.
Lucien Febvre
complementou a renovação historiográfica com obras que exploravam a história
cultural e das mentalidades. "Le problème de l'incroyance au XVIe siècle:
la religion de Rabelais", de 1942, constitui estudo exemplar das condições
de possibilidade do pensamento em determinada época, introduzindo o conceito de
"outillage mental" para designar o equipamento intelectual disponível
aos homens de cada período (FEBVRE, 1988, p. 423-467). Esta abordagem
influenciou decisivamente os estudos posteriores sobre mentalidades e
representações coletivas.
A segunda geração dos
Annales, liderada por Fernand Braudel, aprofundou o diálogo com as ciências
sociais e introduziu inovações teóricas fundamentais. "La Méditerranée et
le monde méditerranéen à l'époque de Philippe II", publicado originalmente
em 1949, revolucionou a escrita da história ao propor uma análise em três
temporalidades distintas: a longa duração das estruturas geográficas e
ecológicas, a média duração das conjunturas econômicas e sociais, e o tempo
curto dos acontecimentos políticos (BRAUDEL, 1983, p. 25-36). Esta concepção
pluritemporal da história exerceu influência duradoura sobre a historiografia.
O conceito de longa
duração, teorizado por Braudel em artigo homônimo de 1958, constituiu
contribuição decisiva para o diálogo entre história e ciências sociais. Braudel
argumentou que a história deveria privilegiar as estruturas de longa duração,
as "prisões de longa duração" que condicionam a vida das sociedades,
em vez dos acontecimentos efêmeros que ocupavam a história tradicional
(BRAUDEL, 1990, p. 41-78). Este conceito permitiu aproximação com a economia, a
geografia e a antropologia estrutural, ao mesmo tempo em que foi criticado por
relativizar excessivamente a agência humana e os eventos políticos.
A história serial e
quantitativa constituiu desenvolvimento metodológico importante da segunda
geração dos Annales. Ernest Labrousse, embora não formalmente vinculado à
revista, exerceu influência decisiva ao demonstrar a possibilidade de aplicação
de métodos quantitativos à história econômica em "La crise de l'économie
française à la fin de l'Ancien Régime et au début de la Révolution", de
1944 (LABROUSSE, 1944, p. 1-45). Esta abordagem foi amplamente adotada pelos
historiadores dos Annales, gerando estudos sobre preços, salários, demografias
e ciclos econômicos que transformaram o conhecimento histórico sobre a época
moderna.
A terceira geração dos
Annales, emergente a partir dos anos 1970, caracterizou-se pela fragmentação
temática e pelo retorno a dimensões anteriormente negligenciadas como a
política, a narrativa e os eventos. Jacques Le Goff, em obras como "Pour
un autre Moyen Âge", de 1977, desenvolveu a história das mentalidades em
direção a uma "antropologia histórica" que investigava as categorias
mentais e sistemas simbólicos das sociedades passadas (LE GOFF, 1980, p. 7-13).
Emmanuel Le Roy Ladurie, em "Montaillou, village occitan de 1294 à
1324", de 1975, demonstrou a fecundidade da micro-história e da análise
antropológica aplicadas a comunidades específicas (LE ROY LADURIE, 1997, p.
15-35).
O diálogo com a
antropologia intensificou-se a partir dos anos 1970, especialmente através da
influência de Claude Lévi-Strauss e Clifford Geertz. A história das
mentalidades transformou-se progressivamente em história cultural, incorporando
conceitos como representação, prática e apropriação. Roger Chartier, em "A
história cultural: entre práticas e representações", de 1988, criticou a
noção de mentalidade coletiva e propôs abordagem mais atenta às diferenciações
sociais e aos usos diferenciados das produções culturais (CHARTIER, 1990, p.
13-28). Esta inflexão marcou deslocamento em direção à história cultural como a
praticam as gerações mais recentes.
A interdisciplinaridade
constitui marca distintiva dos Annales, embora suas formas concretas tenham
variado ao longo do tempo. Inicialmente, o diálogo privilegiou a geografia, a
economia e a sociologia; posteriormente, incorporou a demografia histórica, a
linguística e a antropologia; mais recentemente, aproximou-se da teoria
literária, da psicanálise e dos estudos culturais. Como observou André
Burguière em "L'École des Annales: une histoire intellectuelle", de
2006, esta plasticidade disciplinar permitiu aos Annales manterem-se como polo
de inovação historiográfica por décadas, adaptando-se às transformações do
campo intelectual (BURGUIÈRE, 2006, p. 345-378).
As críticas à escola dos
Annales provêm de perspectivas diversas. Historiadores marxistas como Guy Bois
criticaram a negligência das relações de classe e dos conflitos sociais em
favor de estruturas mentais desencarnadas. A crítica feminista denunciou a
invisibilização das mulheres na história das mentalidades pretensamente
coletivas. Mais recentemente, a "virada linguística" questionou os
pressupostos realistas da história social praticada pelos Annales, problematizando
as relações entre discurso e realidade social. Como argumentou Gareth Stedman
Jones em "Languages of Class", de 1983, as categorias sociais são
construídas linguisticamente, não podendo ser tratadas como reflexo direto de
posições estruturais (STEDMAN JONES, 1983, p. 1-24).
O impacto internacional
dos Annales foi particularmente significativo na América Latina, onde
influenciou a formação de tradições historiográficas nacionais. No Brasil, a
recepção dos Annales processou-se através de autores como Fernand Braudel, que
lecionou na USP entre 1935 e 1937, e posteriormente através da formação de
historiadores brasileiros em Paris. Como demonstrou Carlos Guilherme Mota em
"Ideologia da cultura brasileira", de 1977, esta influência
combinou-se com outras tradições, incluindo o marxismo, na formação da
historiografia brasileira contemporânea (MOTA, 2008, p. 187-234).
Em balanço crítico, a
contribuição dos Annales para a renovação da historiografia no século XX
permanece incontestável, mesmo considerando suas limitações e críticas
procedentes. A ampliação temática para além da política tradicional, o diálogo
com as ciências sociais, a atenção às estruturas de longa duração e às
mentalidades coletivas transformaram irreversivelmente a disciplina histórica.
Como observou François Dosse em "A história em migalhas", de 1987, a
fragmentação posterior dos Annales reflete menos esgotamento do programa
original que sua difusão generalizada, tornando problemática a própria noção de
escola ou corrente unificada (DOSSE, 1992, p. 185-207). O legado dos Annales
permanece vivo na historiografia contemporânea, ainda que de forma difusa e
combinada com outras tradições.
14. HISTÓRIA E MARXISMOS
A relação entre história
e marxismo constitui um dos capítulos mais importantes e controversos da
historiografia do século XX. O materialismo histórico, tal como formulado por
Karl Marx e Friedrich Engels, ofereceu tanto uma teoria da história quanto um
programa de pesquisa que influenciou profundamente a disciplina. Em "Die
deutsche Ideologie", escrito em 1845-1846 mas publicado apenas em 1932,
Marx e Engels estabeleceram os fundamentos do materialismo histórico,
argumentando que "não é a consciência que determina a vida, mas a vida que
determina a consciência" (MARX; ENGELS, 2007, p. 94). Esta inversão da
relação entre ser social e consciência constituiu ponto de partida para uma
historiografia atenta às bases materiais da vida social.
O prefácio de "Zur
Kritik der politischen Ökonomie", de 1859, oferece formulação clássica do
modelo base-superestrutura que orientou grande parte da historiografia
marxista. Marx argumentou que "o modo de produção da vida material
condiciona o processo de vida social, político e intelectual",
distinguindo entre as forças produtivas, as relações de produção e as formas
ideológicas através das quais os homens tomam consciência dos conflitos sociais
(MARX, 2008, p. 47-48). Esta formulação foi objeto de interpretações diversas,
desde versões economicistas que reduziam a história às determinações econômicas
até leituras mais flexíveis que reconheciam a autonomia relativa das
superestruturas.
A historiografia marxista
desenvolveu-se em múltiplas direções ao longo do século XX, sendo problemático
falar em uma única tradição. Georg Lukács, em "Geschichte und Klassenbewusstsein",
de 1923, elaborou concepção dialética da história centrada no conceito de
totalidade e na consciência de classe do proletariado como ponto de vista
privilegiado para compreender a sociedade capitalista (LUKÁCS, 2003, p.
95-139). Esta obra, posteriormente renegada pelo próprio autor sob pressão do
stalinismo, exerceu influência duradoura sobre o marxismo ocidental e suas
concepções de história e subjetividade.
Antonio Gramsci
desenvolveu, nos "Quaderni del carcere", escritos entre 1929 e 1935,
conceitos fundamentais para uma historiografia marxista renovada. A noção de
hegemonia permitiu compreender a dominação de classe não apenas como coerção,
mas como construção de consenso através de instituições da sociedade civil,
incluindo a cultura, a educação e a religião (GRAMSCI, 2000, p. 19-28). O
conceito de bloco histórico articulou estrutura e superestrutura em uma unidade
dialética, superando as dicotomias do marxismo vulgar. Estas formulações
influenciaram profundamente os estudos culturais e a história social posterior.
A escola marxista
britânica constitui uma das mais importantes tradições de historiografia
marxista, caracterizada pela atenção à experiência e à agência dos sujeitos
históricos. Eric Hobsbawm, em obras como "The Age of Revolution" (1962),
"The Age of Capital" (1975), "The Age of Empire" (1987) e
"The Age of Extremes" (1994), ofereceu síntese magistral da história
mundial dos séculos XIX e XX a partir de perspectiva marxista (HOBSBAWM, 1977,
1996, 2003, 1995). Sua capacidade de articular análise estrutural com narrativa
acessível tornou-o um dos historiadores mais lidos do século XX.
Edward Palmer Thompson
representa talvez a mais influente contribuição da historiografia marxista
britânica. "The Making of the English Working Class", de 1963,
revolucionou a história social ao demonstrar que a classe operária não foi
produto automático de transformações econômicas, mas se constituiu ativamente
através de experiências compartilhadas, tradições culturais e lutas políticas
(THOMPSON, 1987, p. 9-14). A famosa afirmação de que a classe é uma relação
histórica, não uma categoria estática, reorientou os estudos sobre formação de
classes em diversos contextos nacionais.
O conceito de
"história vista de baixo" (history from below), associado a Thompson
e outros historiadores marxistas britânicos, propôs deslocamento do foco
historiográfico das elites para as classes populares. Em artigo de 1966,
Thompson argumentou pela necessidade de recuperar a experiência e a agência dos
"de baixo", não como vítimas passivas de processos estruturais, mas
como sujeitos ativos de sua própria história (THOMPSON, 2001, p. 185-201). Esta
perspectiva influenciou profundamente a história social e a micro-história
posteriores, mesmo entre historiadores não marxistas.
A historiografia marxista
francesa desenvolveu-se em diálogo tenso com a escola dos Annales. Albert
Soboul, em "Les sans-culottes parisiens en l'an II", de 1958, aplicou
análise de classes ao estudo do movimento popular durante a Revolução Francesa,
demonstrando a composição social heterogênea dos sans-culottes e suas formas
específicas de consciência política (SOBOUL, 1968, p. 23-67). Esta tradição de
estudos sobre a Revolução Francesa foi posteriormente criticada por
revisionistas como François Furet, que questionaram a pertinência das
categorias marxistas para compreender o fenômeno revolucionário.
O althusserianismo
representou tentativa influente de renovação teórica do marxismo nos anos
1960-1970. Louis Althusser, em "Pour Marx", de 1965, e "Lire le
Capital", de 1965, propôs leitura estruturalista de Marx que enfatizava a
causalidade estrutural e a sobredeterminação, criticando o humanismo e o
historicismo presentes em outras correntes marxistas (ALTHUSSER, 1979, p.
23-74). Embora a influência de Althusser tenha declinado após os anos 1970,
suas formulações sobre ideologia e aparelhos ideológicos de Estado continuam
influentes nos estudos culturais.
Perry Anderson ofereceu
contribuições importantes tanto para a teoria marxista quanto para a história
comparada. Em "Passages from Antiquity to Feudalism" e "Lineages
of the Absolutist State", ambos de 1974, Anderson aplicou categorias
marxistas à análise das transições entre modos de produção na história
europeia, demonstrando as variações regionais e as especificidades do
desenvolvimento histórico ocidental e oriental (ANDERSON, 1985, 1989). Estas
obras exemplificam a capacidade da historiografia marxista de produzir sínteses
comparativas de grande escala sem recair em esquematismos teleológicos.
As críticas ao marxismo
historiográfico provêm de múltiplas direções. Críticos liberais questionaram o
determinismo econômico e a teleologia implícita na narrativa marxista da
história. A "virada linguística" problematizou a relação entre
interesse material e consciência de classe, argumentando que as identidades
coletivas são construídas discursivamente, não derivadas automaticamente de
posições estruturais. Como argumentou Joan Scott em "Gender and the
Politics of History", de 1988, a categoria de classe frequentemente invisibilizou
diferenças de gênero fundamentais para compreender a formação das identidades
sociais (SCOTT, 1999, p. 53-90).
O colapso dos regimes
socialistas do Leste Europeu em 1989-1991 impactou profundamente a recepção do
marxismo na historiografia. O descrédito do "socialismo real"
refletiu-se em questionamentos sobre a validade do materialismo histórico como
teoria da história. Contudo, como observou Ellen Meiksins Wood em "The
Retreat from Class", de 1986, a crítica ao stalinismo não implica necessariamente
abandono do marxismo como tradição de pensamento crítico sobre o capitalismo
(WOOD, 1986, p. 1-19). A historiografia marxista continua presente no cenário
intelectual contemporâneo, ainda que de forma menos hegemônica que em décadas
anteriores.
Em balanço crítico, a
contribuição do marxismo para a historiografia permanece significativa,
independentemente de posições políticas ou teóricas. A atenção às bases
materiais da vida social, às relações de classe e aos conflitos sociais ampliou
irreversivelmente o horizonte da pesquisa histórica. Mesmo historiadores não
marxistas incorporaram preocupações com estruturas econômicas, desigualdades
sociais e perspectivas dos subalternos que devem muito à tradição marxista.
Como observou Hobsbawm em ensaio tardio, o marxismo oferece menos um sistema
fechado de respostas que um conjunto de questões fundamentais sobre a natureza
e transformação das sociedades humanas (HOBSBAWM, 2011, p. 373-385).
15. HISTÓRIA E ESTRUTURALISMOS
O estruturalismo
constituiu movimento intelectual de grande impacto nas ciências humanas durante
as décadas de 1950 a 1970, influenciando significativamente a disciplina
histórica. Originado na linguística de Ferdinand de Saussure, conforme
apresentada no "Cours de linguistique générale", publicado
postumamente em 1916, o estruturalismo propôs a análise de fenômenos culturais
como sistemas de relações, nos quais os elementos individuais adquirem
significado apenas em função de sua posição na estrutura total (SAUSSURE, 2006,
p. 130-141). A distinção saussuriana entre língua (sistema) e fala (uso
individual), bem como entre sincronia e diacronia, exerceu influência
metodológica decisiva sobre diversas disciplinas.
Claude Lévi-Strauss foi
responsável pela aplicação mais influente do modelo estruturalista à
antropologia e, indiretamente, à história. Em "Anthropologie
structurale", de 1958, Lévi-Strauss argumentou que os fenômenos culturais
podem ser analisados como linguagens, sistemas de signos cujas regras
combinatórias são em grande medida inconscientes para os próprios agentes
sociais (LÉVI-STRAUSS, 1975, p. 27-53). Sua análise dos sistemas de parentesco,
dos mitos e das classificações simbólicas revelou estruturas profundas da mente
humana, propondo uma antropologia sincrônica que parecia prescindir da dimensão
histórica.
A relação entre
estruturalismo e história foi marcada por tensões epistemológicas fundamentais.
A ênfase estruturalista na sincronia, nas invariantes e nas estruturas
inconscientes parecia contradizer a preocupação historiográfica com a mudança,
o acontecimento e a agência consciente. Lévi-Strauss, em "La pensée
sauvage", de 1962, criticou o que chamou de "ilusão histórica",
questionando a pretensão da história de oferecer conhecimento totalizante da
realidade social (LÉVI-STRAUSS, 1989, p. 275-305). Esta crítica provocou
respostas de historiadores como Fernand Braudel, que defendeu a possibilidade
de articulação entre estruturas de longa duração e temporalidades mais curtas.
A recepção do
estruturalismo pela historiografia processou-se de formas diversas. A escola
dos Annales, especialmente a partir de Braudel, incorporou a noção de
estrutura, embora em sentido distinto do estruturalismo lévi-straussiano. As
"estruturas" braudelianas são históricas, mesmo que de longa duração,
e não invariantes universais da mente humana. Como observou François Dosse em
"História do estruturalismo", de 1991-1992, houve convergências e
tensões entre o estruturalismo antropológico e a história das estruturas
praticada pelos Annales (DOSSE, 1993, v. 1, p. 145-178). A história das
mentalidades, desenvolvida por historiadores como Robert Mandrou e Georges
Duby, aproximou-se do estruturalismo ao investigar sistemas de representações
coletivas relativamente estáveis.
Michel Foucault
desenvolveu uma abordagem original que, embora frequentemente associada ao
estruturalismo, apresenta características específicas. Em "Les mots et les
choses", de 1966, Foucault introduziu o conceito de episteme para designar
as condições de possibilidade do saber em determinada época, as configurações
inconscientes que determinam o que pode ser pensado e dito em cada período
(FOUCAULT, 1999, p. 9-22). Esta "arqueologia do saber", embora atenta
à descontinuidade e à ruptura, aproximou-se do estruturalismo pela ênfase nas determinações
impessoais do discurso.
A "Archéologie du
savoir", de 1969, representou tentativa de Foucault de explicitar sua
metodologia, distinguindo-a tanto do estruturalismo quanto da história
tradicional das ideias. Foucault rejeitou a busca de estruturas universais,
interessando-se pelas formações discursivas específicas que determinam as
possibilidades do saber em conjunturas históricas particulares (FOUCAULT, 2008,
p. 43-78). A noção de "prática discursiva" articulou dimensões
linguísticas e institucionais, abrindo caminho para análises do poder-saber que
influenciariam profundamente a historiografia posterior.
Roland Barthes contribuiu
para a reflexão sobre história e estruturalismo através de suas análises da
narrativa e do discurso historiográfico. Em "Le discours de
l'histoire", de 1967, Barthes analisou as estratégias retóricas que
produzem o "efeito de real" nos textos históricos, problematizando a
pretensão de transparência da escrita historiográfica (BARTHES, 2004, p.
163-180). Esta análise, embora controversa, antecipou debates posteriores sobre
narrativa e representação histórica que seriam desenvolvidos por Hayden White e
outros autores.
A linguística histórica e
a semiótica ofereceram outras formas de diálogo entre estruturalismo e
história. Os trabalhos de Émile Benveniste sobre a enunciação e a subjetividade
na linguagem, reunidos em "Problèmes de linguistique générale" (1966
e 1974), influenciaram historiadores interessados nas formas de construção do
sujeito no discurso (BENVENISTE, 1995, p. 247-261). A análise do discurso,
desenvolvida a partir dessas bases, tornou-se ferramenta importante para
historiadores que investigam a dimensão linguística das práticas sociais.
A psicanálise lacaniana,
com sua releitura estruturalista de Freud, ofereceu outro ponto de articulação
entre estruturalismo e história. Jacques Lacan, em seminários como "Les
quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse", de 1964, propôs
compreender o inconsciente como estruturado como uma linguagem, abrindo
possibilidades de análise histórica das formas de subjetivação em diferentes
épocas (LACAN, 1998, p. 25-35). Historiadores como Michel de Certeau
incorporaram elementos lacanianos em suas reflexões sobre a escrita da história
e a relação com o passado ausente.
A crítica ao estruturalismo,
desenvolvida a partir dos anos 1970, evidenciou seus limites para a análise
histórica. A ênfase nas estruturas inconscientes parecia eliminar a agência dos
sujeitos, reduzidos a portadores de estruturas que os transcendem. Paul
Ricoeur, em ensaios reunidos em "Le conflit des interprétations", de
1969, criticou o anti-humanismo estruturalista, propondo articulação entre
explicação estrutural e compreensão hermenêutica que preservasse a dimensão do
sentido e da ação intencional (RICOEUR, 1988, p. 31-63). Esta crítica antecipou
a "virada hermenêutica" na teoria da história.
O chamado
pós-estruturalismo, desenvolvido por autores como Derrida, Deleuze e o próprio
Foucault em sua fase posterior, radicalizou a crítica às categorias do
pensamento ocidental, incluindo a noção mesma de estrutura. Jacques Derrida, em
"L'écriture et la différence", de 1967, desconstruiu a oposição entre
estrutura e acontecimento, centro e margem, presença e ausência,
problematizando os fundamentos metafísicos do estruturalismo (DERRIDA, 1995, p.
227-249). Estas reflexões influenciaram os debates posteriores sobre
desconstrução e história, especialmente nas vertentes da historiografia
anglo-americana.
O legado do
estruturalismo para a historiografia permanece significativo, ainda que de
forma frequentemente implícita. A atenção aos sistemas de relações, às
estruturas inconscientes e às determinações linguísticas do pensamento
tornou-se parte do repertório metodológico comum das ciências humanas. Como
observou Peter Burke em "O que é história cultural?", de 2004, a
história cultural contemporânea incorporou insights estruturalistas sobre a
natureza sistemática das culturas, mesmo quando rejeita os excessos
anti-historicistas de algumas formulações estruturalistas (BURKE, 2005, p. 43-72).
Em síntese, a relação
entre história e estruturalismos caracterizou-se por tensões produtivas que
estimularam reflexões fundamentais sobre temporalidade, mudança, estrutura e
agência. Se o estruturalismo ortodoxo mostrou-se incompatível com a preocupação
historiográfica pela transformação e pelo acontecimento, as versões mais
flexíveis e historicizadas do pensamento estrutural contribuíram para renovar a
história das mentalidades, a história cultural e a análise do discurso. O
desafio permanente consiste em articular a análise das estruturas com a
compreensão dos processos de transformação histórica, reconhecendo tanto as
determinações sistêmicas quanto a capacidade criativa dos agentes sociais.
16. A HERMENÊUTICA HISTÓRICA NO SÉCULO XX
A hermenêutica histórica
constitui tradição de reflexão sobre as condições e possibilidades da
compreensão do passado que remonta ao historicismo alemão do século XIX, mas
que recebeu desenvolvimentos fundamentais ao longo do século XX. Wilhelm
Dilthey, em obras como "Der Aufbau der geschichtlichen Welt in den
Geisteswissenschaften", de 1910, estabeleceu as bases de uma hermenêutica
das ciências do espírito que distinguia a compreensão (Verstehen)
interpretativa destas ciências da explicação (Erklären) causal das ciências
naturais (DILTHEY, 2010, p. 167-205). Esta distinção epistemológica fundamental
atravessa todo o debate hermenêutico posterior.
A fenomenologia de Edmund
Husserl exerceu influência decisiva sobre a hermenêutica do século XX,
especialmente através de seu discípulo Martin Heidegger. A noção husserliana de
"mundo da vida" (Lebenswelt), desenvolvida em "Die Krisis der
europäischen Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie", de
1936, ofereceu fundamento para compreender a historicidade da experiência
humana como horizonte pré-teórico a partir do qual emerge todo conhecimento
(HUSSERL, 2012, p. 127-156). A fenomenologia deslocou a questão hermenêutica do
problema metodológico das ciências do espírito para a estrutura ontológica da
compreensão humana.
Martin Heidegger, em
"Sein und Zeit", de 1927, radicalizou a reflexão hermenêutica ao
argumentar que a compreensão não é apenas método das ciências humanas, mas modo
fundamental de ser do Dasein (ser-aí). O ser humano é constitutivamente interpretativo,
sempre já lançado em um mundo de significados que condiciona toda compreensão
posterior (HEIDEGGER, 2012, p. 199-229). Esta "hermenêutica da
facticidade" deslocou a reflexão da epistemologia para a ontologia, do
como conhecemos para o que somos enquanto seres históricos e interpretativos.
Hans-Georg Gadamer
desenvolveu a mais influente filosofia hermenêutica do século XX em
"Wahrheit und Methode", de 1960. Gadamer argumentou contra a
pretensão metodológica de alcançar compreensão objetiva através da eliminação
dos preconceitos do intérprete. Ao contrário, toda compreensão é condicionada
por uma "pré-compreensão" historicamente constituída, uma tradição na
qual o intérprete está inserido e que determina suas possibilidades de compreensão
(GADAMER, 1997, p. 354-405). O conceito de "fusão de horizontes"
descreve o processo pelo qual o horizonte presente do intérprete encontra o
horizonte passado do texto ou acontecimento interpretado.
A noção gadameriana de
"consciência histórica efeitual" (wirkungsgeschichtliches
Bewusstsein) constitui contribuição fundamental para a teoria da história.
Gadamer argumentou que toda compreensão histórica é ela mesma determinada pela
história dos efeitos do passado sobre o presente, de modo que o intérprete
nunca ocupa posição exterior à tradição que interpreta (GADAMER, 1997, p.
448-467). Esta concepção implica reconhecimento da circularidade hermenêutica
não como defeito metodológico, mas como condição estrutural de toda
compreensão.
Paul Ricoeur elaborou
síntese original entre hermenêutica, fenomenologia e outras correntes
filosóficas em obras que influenciaram profundamente a teoria da história. Em
"Temps et récit", publicado em três volumes entre 1983 e 1985,
Ricoeur investigou as relações entre tempo vivido e tempo narrado, argumentando
que a narrativa constitui mediação fundamental entre a experiência temporal
humana e sua inteligibilidade (RICOEUR, 1994, v. 1, p. 85-127). A configuração
narrativa, através da tessitura de uma intriga (mise en intrigue), transforma a
sucessão de acontecimentos em história compreensível.
A hermenêutica
ricoeuriana articulou explicação e compreensão em uma dialética que superou a
dicotomia diltheyana. Em "Du texte à l'action", de 1986, Ricoeur
propôs o "arco hermenêutico" como modelo que integra momentos de
distanciamento analítico e apropriação compreensiva na interpretação dos textos
e ações humanas (RICOEUR, 1989, p. 155-187). Esta abordagem permitiu incorporar
contribuições do estruturalismo e da análise do discurso sem abandonar a preocupação
com o sentido e a referência que caracteriza a tradição hermenêutica.
A recepção da
hermenêutica pela historiografia processou-se de formas diversas. Reinhart
Koselleck, formado na tradição hermenêutica alemã, desenvolveu a "história
dos conceitos" (Begriffsgeschichte) como método de análise das
transformações semânticas dos conceitos políticos e sociais fundamentais. Em
"Vergangene Zukunft", de 1979, Koselleck argumentou que os conceitos
não são meros reflexos de realidades extralinguísticas, mas constitutivos das
experiências e expectativas históricas (KOSELLECK, 2006, p. 97-118). A tensão
entre "espaço de experiência" e "horizonte de expectativa"
tornou-se ferramenta analítica amplamente utilizada.
O debate entre Gadamer e
Jürgen Habermas nos anos 1960-1970 evidenciou tensões importantes dentro da
tradição hermenêutica. Habermas, em "Zur Logik der
Sozialwissenschaften", de 1967, criticou Gadamer por supostamente
universalizar a tradição e negligenciar as distorções sistemáticas da comunicação
causadas por relações de poder (HABERMAS, 1988, p. 251-289). Enquanto Gadamer
enfatizava a autoridade da tradição e a finitude da razão, Habermas defendia a
possibilidade de crítica racional das tradições e de emancipação através da
comunicação livre de distorções.
A hermenêutica
influenciou debates historiográficos sobre a relação entre narrativa e verdade
histórica. O questionamento pós-moderno das pretensões de verdade da
historiografia, associado a autores como Hayden White, provocou respostas de
historiadores que mobilizaram recursos hermenêuticos. Carlo Ginzburg, em
"Rapporti di forza", de 2000, argumentou contra o relativismo
narrativista, defendendo a possibilidade de verdade histórica através de
procedimentos indiciários e argumentação racional (GINZBURG, 2002, p. 13-45). A
hermenêutica oferece recursos para defender a especificidade do conhecimento
histórico sem recair em objetivismo ingênuo.
A história intelectual e
a história dos conceitos constituem campos nos quais a hermenêutica exerceu
influência particularmente significativa. A Cambridge School, representada por
Quentin Skinner e John Pocock, desenvolveu abordagem contextualista da história
do pensamento político que incorpora insights hermenêuticos. Skinner, em
"Visions of Politics", de 2002, argumentou pela necessidade de
reconstruir as convenções linguísticas e os contextos de uso nos quais os
textos foram produzidos para compreender adequadamente seus significados
(SKINNER, 2002, p. 57-89). Esta abordagem articula atenção ao texto com investigação
histórica das condições de sua produção e recepção.
Frank Ankersmit, em
"Historical Representation", de 2001, desenvolveu filosofia da
história que incorpora elementos hermenêuticos na reflexão sobre representação
histórica. Ankersmit argumentou que a representação histórica não é mera cópia
do passado, mas proposta de significado que estabelece relação interpretativa
entre presente e passado (ANKERSMIT, 2012, p. 77-115). Esta concepção permite
compreender a historiografia como empreendimento hermenêutico que produz
interpretações perspectivadas, mas nem por isso arbitrárias, do passado.
Em síntese, a
hermenêutica histórica do século XX ofereceu contribuições fundamentais para a
reflexão sobre as condições de possibilidade do conhecimento histórico. O
reconhecimento da historicidade do próprio historiador, a atenção às mediações
linguísticas e narrativas, a dialética entre explicação e compreensão, a
reflexão sobre tradição e crítica constituem aquisições permanentes para a
teoria da história. Como observou Ricoeur, a hermenêutica não oferece método
alternativo para as ciências históricas, mas reflexão sobre as condições de
toda compreensão, incluindo a compreensão histórica (RICOEUR, 1994, v. 3, p.
273-314). Esta reflexão permanece indispensável para a formação do historiador
contemporâneo.
17. HISTÓRIA DA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA
A história da
historiografia brasileira constitui campo de estudos fundamental para
compreender a formação da disciplina no país e suas relações com processos mais
amplos de construção da identidade nacional e institucionalização acadêmica. O
marco fundador convencionalmente identificado é a criação do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em 1838, instituição que concentrou a
produção historiográfica durante o período imperial. Como demonstrou Manoel
Luís Salgado Guimarães em "Nação e civilização nos trópicos", de
1988, o IHGB vinculou estreitamente o projeto historiográfico à construção
simbólica do Estado nacional em formação, produzindo uma história que legitimava
a monarquia e a unidade territorial (GUIMARÃES, 1988, p. 5-27).
A dissertação de Karl
Friedrich Philipp von Martius, "Como se deve escrever a história do
Brasil", premiada pelo IHGB em 1847, estabeleceu as bases de uma
interpretação da formação brasileira centrada na mistura das três raças,
portuguesa, indígena e africana. Embora frequentemente criticada por seu viés
eurocêntrico e hierarquizante, a tese de Martius influenciou profundamente a
historiografia posterior, estabelecendo a mestiçagem como tema central da
reflexão sobre a identidade nacional (MARTIUS, 1845, p. 381-403). A análise
crítica desta matriz interpretativa permanece relevante para compreender as
construções racializadas da história brasileira.
Francisco Adolfo de
Varnhagen, com sua "História Geral do Brasil" publicada entre 1854 e
1857, realizou a primeira grande síntese historiográfica sobre o país.
Varnhagen aplicou métodos de crítica documental desenvolvidos pela
historiografia europeia, especialmente alemã, realizando extensas pesquisas em
arquivos portugueses (VARNHAGEN, 1981, p. 13-27). Sua obra, marcada por viés
conservador e lusófilo, estabeleceu narrativa da colonização portuguesa como
processo civilizador, sendo posteriormente criticada por sua legitimação da
violência colonial contra povos indígenas e africanos.
João Capistrano de Abreu
representa inflexão importante na historiografia brasileira entre fins do
século XIX e início do XX. Em "Capítulos de história colonial", de
1907, Capistrano deslocou o foco da história política e administrativa para a
formação social e econômica, especialmente a ocupação do interior através dos
caminhos e currais que conformaram o território brasileiro (CAPISTRANO DE
ABREU, 2000, p. 147-189). Sua atenção às populações do sertão e aos processos de
mestiçagem antecipou preocupações que seriam desenvolvidas pela geração de
1930.
A década de 1930 marca
momento decisivo na historiografia brasileira com a publicação de obras que
renovaram a interpretação do país. Gilberto Freyre, em "Casa-Grande &
Senzala", de 1933, propôs compreensão da formação brasileira centrada na
família patriarcal e nas relações entre senhores e escravos no complexo
açucareiro nordestino (FREYRE, 2003, p. 33-87). Embora criticado por sua
idealização das relações escravistas e pelo conceito de "democracia
racial", Freyre introduziu perspectiva antropológica e culturalista que
influenciou profundamente os estudos sobre o Brasil colonial.
Sérgio Buarque de
Holanda, em "Raízes do Brasil", de 1936, ofereceu interpretação
alternativa da formação brasileira, enfatizando a herança ibérica do
personalismo e da dificuldade de distinguir público e privado. O conceito de
"homem cordial", frequentemente mal compreendido, designa um tipo de
sociabilidade baseado em relações pessoais que dificulta a constituição de uma
esfera pública impessoal (HOLANDA, 1995, p. 139-151). A obra articula reflexão
histórica com diagnóstico sociológico do presente, influenciando debates sobre
modernização e democratização.
Caio Prado Júnior, em
"Formação do Brasil Contemporâneo", de 1942, introduziu perspectiva
marxista na historiografia brasileira. Sua tese sobre o "sentido da
colonização" argumentou que a economia colonial foi organizada para
produzir gêneros tropicais para o mercado externo, configurando dependência
estrutural que marcaria toda a história brasileira posterior (PRADO JÚNIOR,
1994, p. 19-32). Esta interpretação influenciou profundamente os debates sobre
desenvolvimento e subdesenvolvimento nas décadas seguintes.
A institucionalização
universitária da história no Brasil processou-se a partir da década de 1930,
com a criação da Universidade de São Paulo em 1934 e da Universidade do Brasil
em 1937. A presença de professores estrangeiros, especialmente franceses como
Fernand Braudel na USP, influenciou a formação de gerações de historiadores
brasileiros. Como analisou Maria Helena Rolim Capelato em "Escola uspiana
de história", esta tradição acadêmica caracterizou-se pela incorporação
seletiva de modelos historiográficos europeus e por diálogo produtivo com as
ciências sociais (CAPELATO et al., 1994, p. 349-371).
A partir dos anos
1960-1970, a historiografia brasileira diversificou-se tematicamente e
renovou-se metodologicamente. A influência dos Annales e do marxismo
thompsoniano estimulou estudos sobre história econômica, social e das
mentalidades que ultrapassaram os marcos tradicionais da história política.
Fernando Novais, em "Portugal e Brasil na crise do antigo sistema
colonial", de 1979, articulou a história colonial brasileira com a dinâmica
do sistema capitalista mundial, oferecendo síntese influente sobre as relações
entre metrópole e colônia (NOVAIS, 1989, p. 57-116).
A renovação dos estudos
sobre escravidão constitui um dos desenvolvimentos mais significativos da
historiografia brasileira recente. Superando tanto a visão paternalista
freyriana quanto o economicismo de certa historiografia marxista, autores como
João José Reis, Sidney Chalhoub e Silvia Hunold Lara produziram estudos que
recuperam a agência dos escravizados e as complexidades das relações
escravistas. Reis, em "Rebelião escrava no Brasil", de 1986, analisou
a Revolta dos Malês de 1835 revelando as dimensões religiosas, étnicas e
políticas da resistência escrava (REIS, 2003, p. 9-45).
A história da República
brasileira também foi objeto de revisões importantes. A crítica à
historiografia tradicional, centrada nas elites políticas e nos grandes
eventos, abriu espaço para estudos sobre movimentos sociais, cultura popular e
experiências das classes trabalhadoras. A obra de Emília Viotti da Costa,
especialmente "Da Monarquia à República", de 1977, ofereceu
interpretação do processo de abolição e proclamação da República atenta às
contradições sociais e aos conflitos de classe (VIOTTI DA COSTA, 1999, p.
289-331).
Os debates
teórico-metodológicos contemporâneos refletem-se também na historiografia
brasileira. A recepção da micro-história italiana, da história cultural e dos
estudos pós-coloniais ampliou o repertório analítico disponível aos
historiadores brasileiros. Sidney Chalhoub, em "Cidade febril", de
1996, exemplificou as possibilidades da micro-história ao analisar as políticas
de saúde pública no Rio de Janeiro através das experiências de moradores dos
cortiços (CHALHOUB, 1996, p. 15-59). A atenção às vozes subalternas e às
resistências cotidianas tornou-se marca de parcela significativa da
historiografia brasileira contemporânea.
Em perspectiva crítica, a
história da historiografia brasileira revela processos de construção de
narrativas nacionais atravessados por questões de raça, classe e gênero
frequentemente naturalizadas. A crítica historiográfica contemporânea
problematiza tanto os silêncios da historiografia tradicional, especialmente
quanto às experiências de povos indígenas, africanos e afro-brasileiros,
mulheres e classes populares, quanto as categorias analíticas empregadas para
compreender a formação brasileira. Como argumentou José Murilo de Carvalho em
"A formação das almas", de 1990, a própria construção dos símbolos e
mitos nacionais constitui objeto de análise histórica que revela disputas de
poder e projetos políticos conflitantes (CARVALHO, 1990, p. 9-28).
18. PERIODIZAÇÃO E TEMPORALIDADES
A questão da periodização
constitui problema teórico fundamental para a historiografia, envolvendo
reflexões sobre a natureza do tempo histórico e os critérios de demarcação de
épocas e eras. Toda periodização implica escolhas interpretativas que não são
neutras, mas condicionadas por perspectivas teóricas, interesses presentes e
tradições disciplinares. Como argumentou Jacques Le Goff em "Faut-il
vraiment découper l'histoire en tranches?", de 2014, as periodizações
tradicionais, como a divisão entre Antiguidade, Idade Média, Tempos Modernos e
Contemporâneo, são construções históricas que refletem a experiência europeia e
foram universalizadas através do colonialismo (LE GOFF, 2015, p. 11-33).
Reinhart Koselleck
desenvolveu reflexão teórica fundamental sobre temporalidade e periodização em
"Vergangene Zukunft", de 1979. Koselleck argumentou que a experiência
moderna do tempo caracteriza-se pela crescente distância entre o "espaço
de experiência" (o passado acumulado) e o "horizonte de expectativa"
(as projeções futuras), produzindo uma temporalidade orientada para o progresso
e a novidade que distingue a modernidade de épocas anteriores (KOSELLECK, 2006,
p. 305-327). Esta análise permite historicizar a própria noção de tempo
histórico, reconhecendo que diferentes sociedades e épocas experimentam a
temporalidade de modos diversos.
Fernand Braudel propôs
conceituação influente das temporalidades históricas em sua obra sobre o
Mediterrâneo e no artigo "História e ciências sociais: a longa
duração", de 1958. Braudel distinguiu três durações: o tempo curto dos
acontecimentos, a média duração das conjunturas econômicas e sociais, e a longa
duração das estruturas geográficas, demográficas e mentais que mudam muito
lentamente (BRAUDEL, 1990, p. 41-78). Esta pluralização das temporalidades
permitiu superar a redução da história aos eventos políticos, mas foi criticada
por relativizar excessivamente a agência humana e os acontecimentos
transformadores.
O conceito de
"regime de historicidade", desenvolvido por François Hartog em
"Régimes d'historicité: présentisme et expériences du temps", de
2003, oferece ferramenta analítica para compreender as diferentes formas de
articulação entre passado, presente e futuro em distintas sociedades e épocas.
Hartog argumenta que o regime contemporâneo caracteriza-se pelo
"presentismo", uma hipertrofia do presente que dificulta tanto a
elaboração do passado quanto a projeção do futuro (HARTOG, 2013, p. 21-45).
Esta análise conecta reflexão teórica sobre temporalidade com diagnóstico das
experiências históricas contemporâneas.
A periodização
tradicional em Antiguidade, Idade Média, Modernidade e Contemporaneidade tem
sido objeto de críticas sistemáticas. Esta divisão, consolidada no século XIX,
reflete perspectiva eurocêntrica que toma a experiência europeia como medida
universal da história. Como demonstrou Dipesh Chakrabarty em
"Provincializing Europe", de 2000, esta periodização pressupõe uma
narrativa de progresso na qual a Europa representa a vanguarda da história
mundial, relegando outras sociedades à condição de atrasadas ou tradicionais
(CHAKRABARTY, 2000, p. 3-46). A crítica pós-colonial propõe historicizar esta
periodização e desenvolver categorias mais adequadas para compreender
experiências não europeias.
A noção de "tempo
histórico" como fluxo contínuo e homogêneo foi questionada por diversas
correntes teóricas. Walter Benjamin, nas "Teses sobre o conceito de
história", escritas em 1940, criticou o historicismo por conceber a
história como progressão homogênea e vazia, propondo em seu lugar uma concepção
do tempo como constelação de momentos nos quais o passado pode ser redimido
pelo presente revolucionário (BENJAMIN, 1994, p. 222-232). Esta concepção
messiânica do tempo histórico influenciou debates posteriores sobre memória,
trauma e as possibilidades de ruptura com a continuidade histórica.
A história global e as
histórias conectadas propuseram repensar as periodizações a partir de
perspectivas transnacionais. Sanjay Subrahmanyam, em artigos como
"Connected Histories", de 1997, argumentou pela necessidade de
periodizações que considerem as conexões e sincronias entre diferentes regiões
do mundo, superando os marcos temporais derivados de histórias nacionais ou
regionais isoladas (SUBRAHMANYAM, 1997, p. 735-762). Esta perspectiva evidencia
que eventos como a "descoberta" da América ou a Revolução Industrial
estabeleceram sincronias temporais entre regiões antes desconectadas.
O debate sobre a
transição do feudalismo ao capitalismo exemplifica as implicações políticas e
teóricas das periodizações históricas. O "debate Brenner",
desenvolvido nas páginas de Past and Present nos anos 1970, confrontou
interpretações marxistas diversas sobre os fatores determinantes da transição e
sua cronologia. Robert Brenner, em "Agrarian Class Structure and Economic
Development in Pre-Industrial Europe", de 1976, argumentou pelo primado
das relações de classe na explicação da transição, enquanto outros autores
enfatizaram fatores demográficos, comerciais ou tecnológicos (BRENNER, 1991, p.
25-93). Este debate evidencia como periodizações aparentemente técnicas
envolvem pressupostos teóricos fundamentais.
A questão da periodização
da história brasileira também suscita debates importantes. A tradicional
divisão em Colônia, Império e República, embora conveniente, obscurece
continuidades estruturais e descontinuidades internas a cada período.
Historiadores como Emília Viotti da Costa e Fernando Novais propuseram
periodizações alternativas baseadas em critérios econômicos e sociais, enquanto
estudos recentes questionam o eurocentrismo implícito na categoria de
"colonial" aplicada à experiência americana (VIOTTI DA COSTA, 1999,
p. 19-43). A periodização da história brasileira permanece campo aberto de
reflexão historiográfica.
A temporalidade das
experiências históricas não coincide necessariamente com a cronologia dos
eventos políticos. A história das mentalidades, desenvolvida pela terceira
geração dos Annales, demonstrou a existência de temporalidades longas nas
formas de pensar e sentir que resistem às mudanças institucionais e políticas.
Philippe Ariès, em "L'enfant et la vie familiale sous l'Ancien
Régime", de 1960, revelou a lenta transformação das concepções de infância
e família ao longo dos séculos, em temporalidade que escapa às periodizações
políticas tradicionais (ARIÈS, 1981, p. 17-31). A pluralidade de temporalidades
constitui desafio permanente para a historiografia.
A micro-história propôs
reflexão original sobre a relação entre escalas de observação e temporalidades
históricas. Carlo Ginzburg, em estudos como "Il formaggio e i vermi",
de 1976, demonstrou que a análise intensiva de casos singulares pode revelar
dinâmicas culturais e sociais de longa duração não perceptíveis em análises
macroscópicas (GINZBURG, 2006, p. 11-35). A micro-história não nega a existência
de estruturas de longa duração, mas propõe abordá-las através do exame
detalhado de situações concretas nas quais estas estruturas se manifestam e são
reproduzidas ou transformadas.
Os debates contemporâneos
sobre o Antropoceno exemplificam novas formas de pensar temporalidade e
periodização. A proposta de nomear uma nova época geológica a partir dos
impactos humanos sobre o sistema terrestre levanta questões fundamentais sobre
as relações entre tempo humano e tempo geológico, história e natureza. Dipesh
Chakrabarty, em "The Climate of History", de 2009, argumentou que a
crise climática desafia as distinções tradicionais entre história humana e
história natural, exigindo novas formas de pensar a temporalidade histórica
(CHAKRABARTY, 2009, p. 197-222). Este debate evidencia a atualidade das
reflexões sobre periodização e temporalidades.
Em síntese, a reflexão
sobre periodização e temporalidades constitui dimensão fundamental da teoria da
história, não como especulação abstrata, mas como condição para compreender
adequadamente as experiências históricas. O reconhecimento da pluralidade de
temporalidades, a crítica às periodizações eurocêntricas e a atenção às
diferentes formas de experimentar e conceber o tempo histórico abrem novas
possibilidades para a pesquisa e a escrita da história. Como observou Paul
Ricoeur, toda narrativa histórica implica configuração temporal que articula
passado, presente e futuro, de modo que a reflexão sobre temporalidade é
inseparável da reflexão sobre a natureza mesma do conhecimento histórico
(RICOEUR, 1994, v. 3, p. 175-212).
19. A HISTÓRIA NO CENÁRIO DA
PÓS-MODERNIDADE
O debate sobre a
pós-modernidade e suas implicações para a historiografia constituiu um dos
temas mais controversos da teoria da história nas últimas décadas do século XX
e início do XXI. O termo "pós-modernidade" abarca significados
diversos, designando tanto uma condição histórica posterior à modernidade
quanto um conjunto de posições teóricas críticas aos pressupostos iluministas
de razão, progresso e verdade. Jean-François Lyotard, em "La condition
postmoderne", de 1979, caracterizou a pós-modernidade pela
"incredulidade em relação às metanarrativas", isto é, aos grandes
relatos legitimadores que fundamentavam o conhecimento e a política modernos,
incluindo a própria narrativa histórica do progresso (LYOTARD, 2009, p. 3-17).
A obra de Hayden White
exerceu papel central nos debates sobre história e pós-modernidade. Em
"Metahistory: The Historical Imagination in Nineteenth-Century
Europe", de 1973, White analisou as estruturas narrativas da
historiografia oitocentista, argumentando que os textos históricos empregam
estratégias retóricas e tropos linguísticos (metáfora, metonímia, sinédoque,
ironia) que determinam a forma da narrativa antes de qualquer verificação
empírica (WHITE, 1992, p. 11-46). Esta análise provocativa sugeriu que a
historiografia compartilha mais com a literatura de ficção do que os
historiadores geralmente admitem.
White desenvolveu suas
teses em obras subsequentes como "Tropics of Discourse", de 1978, e
"The Content of the Form", de 1987. Nestas obras, argumentou que a
narrativa histórica é uma forma de "dar sentido" ao passado que não é
determinada pelos fatos, mas pelos protocolos linguísticos disponíveis ao historiador.
A escolha entre diferentes estratégias narrativas, modos de emplotment como
romance, tragédia, comédia ou sátira, constitui decisão estética e política,
não científica (WHITE, 2001, p. 73-116). Estas teses foram interpretadas por
críticos como relativismo epistemológico que dissolve a distinção entre
história e ficção.
As respostas às teses de
White evidenciaram as tensões no campo historiográfico. Carlo Ginzburg, em
ensaios reunidos em "Rapporti di forza", de 2000, criticou a
equiparação entre história e ficção, argumentando que o historiador trabalha
com provas e indícios que constrangem suas interpretações de modo diverso do
romancista (GINZBURG, 2002, p. 13-45). Ginzburg defendeu que, embora toda
narrativa histórica seja construção retórica, a referência ao passado distingue-a
fundamentalmente da ficção literária, não sendo legítimo reduzi-la a mero
artefato linguístico.
A filosofia
desconstrutivista de Jacques Derrida influenciou debates historiográficos sobre
linguagem, texto e referência. Derrida problematizou a distinção metafísica
entre presença e representação, argumentando que toda significação é produzida
por diferenças e adiamentos (différance) que impedem a fixação definitiva do
sentido (DERRIDA, 1995, p. 19-56). Historiadores como Dominick LaCapra aplicaram
insights derridianos à análise de textos historiográficos, examinando suas
estratégias retóricas, seus silêncios e suas contradições internas. Esta
abordagem, contudo, foi criticada por reduzir a história à textualidade,
negligenciando sua dimensão referencial.
O debate sobre
representação histórica intensificou-se a partir de questionamentos sobre a
possibilidade de representar eventos traumáticos como o Holocausto. Saul
Friedländer, organizador de "Probing the Limits of Representation",
de 1992, examinou os desafios éticos e epistemológicos colocados pela
representação do extermínio nazista, argumentando que certos eventos excedem as
capacidades representacionais convencionais da historiografia (FRIEDLÄNDER,
1992, p. 1-21). Este debate evidenciou os limites do relativismo narrativista
quando confrontado com experiências históricas extremas que resistem à
relativização.
Keith Jenkins representou
posição mais radical no debate pós-moderno, argumentando pela impossibilidade
do conhecimento objetivo do passado. Em "Re-thinking History", de
1991, Jenkins sustentou que a história é sempre "história para
alguém", construída a partir de interesses presentes que determinam o que
conta como passado relevante (JENKINS, 2001, p. 6-32). Esta posição, que
dissolve a distinção entre conhecimento e política, foi criticada por
historiadores que argumentaram pela possibilidade de critérios intersubjetivos
de validação do conhecimento histórico, mesmo reconhecendo seu caráter
perspectivado.
Frank Ankersmit
desenvolveu filosofia da história pós-moderna mais sofisticada que evita os
extremos do relativismo absoluto. Em "Historical Representation", de
2001, Ankersmit argumentou que as representações históricas não são descrições
verdadeiras ou falsas do passado, mas propostas de significado que estabelecem
relações interpretativas com o que efetivamente ocorreu (ANKERSMIT, 2012, p.
25-67). Esta concepção permite manter a referência ao passado sem pretensões de
representação transparente ou correspondência simples entre texto e realidade.
A resposta de
historiadores sociais às teses pós-modernas evidenciou preocupações com as
implicações políticas do relativismo epistemológico. Bryan Palmer, em
"Descent into Discourse", de 1990, criticou a "virada
linguística" por abandonar o terreno da análise social em favor de jogos
textuais que obscurecem as relações de poder e exploração que estruturam as
sociedades (PALMER, 1990, p. 3-37). Esta crítica, procedente de perspectiva
marxista, argumentou que a ênfase exclusiva na linguagem serve para
despolitizar a historiografia, abstraindo os conflitos materiais e de classe.
A história das mulheres e
os estudos de gênero desenvolveram relações complexas com o debate pós-moderno.
Joan Scott, em "Gender and the Politics of History", de 1988, mobilizou
conceitos pós-estruturalistas para argumentar que o gênero é categoria
construída discursivamente, não reflexo de diferenças naturais entre sexos
(SCOTT, 1999, p. 28-50). Esta abordagem, influente nos estudos de gênero, foi
criticada por feministas materialistas que argumentaram pela necessidade de
analisar as bases materiais da opressão de gênero, não apenas suas dimensões
discursivas.
O "retorno do
político" e a "nova história cultural" representaram
desenvolvimentos historiográficos que, sem rejeitar todas as contribuições do
debate pós-moderno, buscaram superar seus impasses. Roger Chartier, em obras
como "Au bord de la falaise", de 1998, propôs história cultural
atenta às práticas de apropriação dos textos e representações, evitando tanto o
textualismo quanto o contextualismo reducionistas (CHARTIER, 1998, p. 62-86).
Esta abordagem permitiu incorporar insights sobre a dimensão linguística e
simbólica da vida social sem abandonar a análise das condições materiais e das
relações de poder.
O debate sobre história e
pós-modernidade arrefeceu nas últimas décadas, menos por resolução teórica que
por deslocamento das questões. Os grandes debates epistemológicos dos anos
1980-1990 cederam lugar a preocupações mais específicas com escalas de análise,
história global, estudos pós-coloniais e relações entre história e memória.
Como observou Gabrielle Spiegel em "Practicing History", de 2005, o
campo historiográfico contemporâneo caracteriza-se por pluralismo metodológico
que incorpora lições tanto do criticismo pós-moderno quanto das tradições
empíricas da disciplina (SPIEGEL, 2005, p. 1-28).
Em balanço crítico, o
debate pós-moderno contribuiu para problematizar pretensões ingênuas de
objetividade e transparência do conhecimento histórico, revelando as dimensões
retóricas, narrativas e políticas da historiografia. Contudo, as versões mais
radicais do relativismo narrativista foram rejeitadas pela maioria dos
historiadores, que mantêm compromisso com procedimentos de verificação empírica
e argumentação racional que distinguem a história de outras formas de discurso
sobre o passado. Como argumentou Ricoeur em "La mémoire, l'histoire,
l'oubli", de 2000, a história mantém sua pretensão de verdade através da
epistemologia do testemunho, da prova documental e da crítica interpretativa,
mesmo reconhecendo o caráter perspectivado e narrativo de toda representação do
passado (RICOEUR, 2007, p. 169-214).
20. HISTÓRIA, MEMÓRIA E PATRIMÔNIO
As relações entre
história, memória e patrimônio constituem campo de reflexão cada vez mais
importante nas ciências humanas contemporâneas. A distinção entre história e
memória, embora problematizada, permanece analiticamente produtiva para
compreender as diferentes formas de relação com o passado. Pierre Nora, na
introdução a "Les lieux de mémoire", publicada a partir de 1984,
argumentou que história e memória estão em oposição fundamental: enquanto a
memória é vivida, afetiva e sujeita a manipulações, a história é reconstrução
crítica e problematizadora do passado (NORA, 1993, p. 9). Esta distinção,
embora esquemática, estimulou reflexões sobre as especificidades de cada forma
de relação com o passado.
Maurice Halbwachs
desenvolveu, em "Les cadres sociaux de la mémoire", de 1925, e
"La mémoire collective", publicado postumamente em 1950, a teoria da
memória coletiva que influenciou profundamente os estudos posteriores.
Halbwachs argumentou que toda memória individual é socialmente condicionada,
apoiando-se em quadros sociais que fornecem os pontos de referência para a
recordação (HALBWACHS, 2006, p. 29-67). O conceito de memória coletiva permite
compreender como grupos sociais constroem narrativas compartilhadas sobre seu
passado que fundamentam identidades e solidariedades no presente.
A noção de "lugares
de memória" (lieux de mémoire), proposta por Pierre Nora, ofereceu
ferramenta conceitual para analisar as formas de cristalização da memória em
suportes materiais e simbólicos. Os lugares de memória são pontos onde a
memória se ancora: monumentos, arquivos, datas comemorativas, símbolos e rituais
que condensam relações com o passado (NORA, 1993, p. 21-28). Nora argumentou
que a proliferação contemporânea de lugares de memória é sintoma da crise dos
quadros tradicionais de transmissão da memória, exigindo esforços deliberados
de comemoração para manter vivo o passado.
A reflexão sobre trauma e
memória ganhou centralidade a partir dos estudos sobre o Holocausto e outras
experiências históricas extremas. Dominick LaCapra, em "Writing History,
Writing Trauma", de 2001, analisou as relações entre história, memória e
trauma, argumentando que certos eventos históricos traumáticos resistem à
integração em narrativas convencionais, exigindo formas específicas de
elaboração (LACAPRA, 2001, p. 1-42). O conceito de "working through"
(elaboração) distingue-se do "acting out" (repetição compulsiva),
permitindo pensar as condições para uma relação não patológica com o passado
traumático.
As "políticas da
memória" constituem campo de investigação sobre os usos políticos do
passado em contextos de transição de regimes autoritários para democráticos.
Elizabeth Jelin, em "Los trabajos de la memoria", de 2002, analisou
as disputas em torno da memória das ditaduras latino-americanas, demonstrando
como diferentes atores sociais e políticos mobilizam narrativas sobre o passado
para fundamentar demandas presentes por verdade, justiça e reparação (JELIN,
2002, p. 17-47). A memória emerge assim como terreno de conflitos que expressa
relações de poder e projetos políticos divergentes.
O conceito de patrimônio
histórico e cultural ampliou-se significativamente ao longo do século XX,
expandindo-se dos monumentos excepcionais para abranger o patrimônio imaterial,
as tradições populares e a cultura cotidiana. A Convenção para a Salvaguarda do
Patrimônio Cultural Imaterial, adotada pela UNESCO em 2003, reconheceu como
patrimônio as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas
que as comunidades reconhecem como parte de seu patrimônio cultural (UNESCO,
2003, p. 2-3). Esta ampliação do conceito implica novos desafios para a
preservação e para as políticas culturais.
Françoise Choay, em
"L'allégorie du patrimoine", de 1992, ofereceu análise histórica do
conceito de patrimônio e suas transformações. Choay argumentou que o patrimônio
passou por processo de inflação conceitual e valorização crescente que reflete
a crise da relação contemporânea com o tempo, uma "obsessão
patrimonial" que busca compensar a aceleração das mudanças e a perda de
referências estáveis (CHOAY, 2001, p. 11-29). Esta análise conecta a reflexão sobre
patrimônio com diagnósticos mais amplos sobre a experiência do tempo na
contemporaneidade.
A patrimonialização
envolve processos de seleção e valorização que não são neutros, mas
atravessados por relações de poder e interesses diversos. Como demonstrou David
Lowenthal em "The Past is a Foreign Country", de 1985, toda
preservação do passado implica escolhas sobre o que preservar, como apresentar
e para quem, escolhas que refletem valores presentes e concepções de identidade
(LOWENTHAL, 1998, p. 263-307). A crítica dos processos de patrimonialização
deve examinar seus silêncios e exclusões, os patrimônios não reconhecidos ou
destruídos de grupos subalternizados.
No Brasil, as políticas
de patrimônio desenvolveram-se historicamente a partir da criação do SPHAN
(Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 1937, posteriormente
transformado em IPHAN. Como analisou Márcia Chuva em "Os arquitetos da
memória", de 2009, as primeiras décadas das políticas patrimoniais
brasileiras privilegiaram o patrimônio de pedra e cal, especialmente a
arquitetura colonial barroca, em detrimento de outras expressões culturais e de
patrimônios associados a grupos populares, indígenas e afro-brasileiros (CHUVA,
2009, p. 147-203). A democratização das políticas de patrimônio permanece
desafio contemporâneo.
A relação entre história
acadêmica e memória social envolve tensões e complementaridades. Se a história
profissional reclama para si a capacidade de produzir conhecimento crítico
sobre o passado, distinto das memórias parciais e interessadas, a memória
social frequentemente contesta as pretensões de autoridade dos historiadores,
reivindicando a legitimidade de suas próprias narrativas. Como argumentou
Michael Pollak em "Memória, esquecimento, silêncio", de 1989, a memória
dos grupos dominados frequentemente se constitui em oposição às narrativas
oficiais e acadêmicas que ignoraram ou distorceram suas experiências (POLLAK,
1989, p. 3-15).
Os usos públicos da
história e da memória em museus, exposições e comemorações constituem campo de
reflexão e prática cada vez mais relevante. A museologia contemporânea
questiona as formas tradicionais de apresentação do passado, propondo
abordagens mais participativas e abertas à pluralidade de memórias. Ulpiano
Bezerra de Meneses, em artigos como "Do teatro da memória ao laboratório
da história", de 1994, propôs uma museologia histórica crítica que
problematize as relações entre objetos, memórias e representações do passado
(MENESES, 1994, p. 9-42). Esta perspectiva implica conceber o museu não como
depósito de memórias, mas como espaço de reflexão crítica sobre a produção do
passado.
O "dever de
memória" emergiu como categoria ética e política para designar a obrigação
moral de lembrar experiências históricas traumáticas, especialmente genocídios
e violações de direitos humanos. Contudo, esta categoria também foi objeto de
críticas por seu caráter potencialmente prescritivo e por obscurecer as
condições sociais e políticas efetivas de produção da memória. Tzvetan Todorov,
em "Les abus de la mémoire", de 1995, alertou para os riscos de uma
"memória literal" que absolutiza o sofrimento passado, propondo em
seu lugar uma "memória exemplar" que permita extrair lições para o
presente e o futuro (TODOROV, 2000, p. 22-33). O equilíbrio entre memória e
história, lembrança e esquecimento, permanece desafio ético e político.
Em síntese, as relações
entre história, memória e patrimônio configuram campo de reflexão teórica e
prática social de grande relevância contemporânea. A história profissional não
pode ignorar as demandas sociais por memória e patrimonialização, mas também
não deve subordinar-se acriticamente a elas. Como argumentou Paul Ricoeur em
"La mémoire, l'histoire, l'oubli", de 2000, a tarefa do historiador
inclui contribuir para uma "memória feliz" que articule lembrança e
esquecimento, reconhecimento do passado e abertura ao futuro (RICOEUR, 2007, p.
423-462). Esta articulação entre história e memória constitui desafio
permanente para a disciplina e para as políticas culturais democráticas.
21. HISTÓRIA DIGITAL: FONTES, FERRAMENTAS
E MÉTODOS
A emergência da história
digital constitui uma das transformações mais significativas da disciplina
histórica nas últimas décadas, modificando substancialmente as condições de
produção, circulação e recepção do conhecimento histórico. O termo
"história digital" abrange um conjunto heterogêneo de práticas que
incluem a digitalização de fontes tradicionais, a análise computacional de
grandes volumes de dados, a criação de novos métodos de visualização e narrativa,
e a comunicação pública da história através de plataformas digitais. Como
argumentaram Daniel Cohen e Roy Rosenzweig em "Digital History: A Guide to
Gathering, Preserving, and Presenting the Past on the Web", de 2006, estas
transformações não são meramente técnicas, mas epistemológicas e metodológicas
(COHEN; ROSENZWEIG, 2006, p. 1-15).
A digitalização massiva
de acervos documentais transformou radicalmente o acesso às fontes históricas.
Projetos como a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional brasileira, o
Internet Archive, o Google Books e os repositórios de periódicos como JSTOR e
Scielo disponibilizaram milhões de documentos anteriormente acessíveis apenas
em arquivos físicos distantes. Como analisou Toni Weller em "History in
the Digital Age", de 2013, esta abundância de fontes digitalizadas
modifica o próprio ofício do historiador, deslocando o desafio da escassez para
a seleção e processamento de grandes volumes de informação (WELLER, 2013, p.
1-20). A pesquisa histórica democratiza-se em certos aspectos, embora novas
desigualdades de acesso e competência digital também se produzam.
As fontes nativas
digitais, produzidas originalmente em formato digital sem equivalente
analógico, constituem desafio específico para a historiografia. E-mails, websites,
redes sociais, bases de dados, softwares e outros artefatos digitais requerem
novos procedimentos de coleta, preservação e análise. A efemeridade da
internet, com websites que desaparecem ou modificam-se continuamente, coloca
problemas de preservação que instituições como o Internet Archive buscam
enfrentar através do arquivamento sistemático da web. Como argumentou Ian
Milligan em "History in the Age of Abundance?", de 2019, a abundância
de fontes digitais paradoxalmente convive com riscos de perda irreversível de
registros históricos fundamentais (MILLIGAN, 2019, p. 21-47).
Os métodos computacionais
de análise textual, frequentemente agrupados sob o termo "humanidades
digitais", oferecem novas possibilidades para a pesquisa histórica.
Técnicas como a análise de frequência de palavras, modelagem de tópicos (topic
modeling), análise de sentimentos e redes semânticas permitem investigar
padrões em grandes corpora textuais impossíveis de processar através de leitura
tradicional. Franco Moretti, em "Distant Reading", de 2013, propôs a
"leitura distante" como método complementar à "leitura
próxima" filológica, permitindo identificar tendências e estruturas em
escalas antes inacessíveis à pesquisa individual (MORETTI, 2013, p. 43-62).
Estas técnicas não substituem a hermenêutica tradicional, mas a complementam
com novas perspectivas.
A análise de redes
sociais (Social Network Analysis) constitui metodologia crescentemente aplicada
à pesquisa histórica. Através da formalização matemática das relações entre indivíduos,
grupos ou conceitos, os historiadores podem visualizar e analisar estruturas de
sociabilidade, circulação de ideias e padrões de interação não perceptíveis
através de métodos convencionais. Claire Lemercier e Claire Zalc, em
"Méthodes quantitatives pour l'historien", de 2008, discutiram as
possibilidades e limites da análise de redes para a história social, advertindo
para os riscos de reificação das relações e negligência dos contextos
interpretativos (LEMERCIER; ZALC, 2008, p. 37-64). A análise de redes é
ferramenta, não substituto da reflexão historiográfica.
Os Sistemas de Informação
Geográfica (SIG ou GIS) revolucionaram as possibilidades da história espacial e
da análise geográfica de fenômenos históricos. A capacidade de georreferenciar
dados históricos e produzir cartografias dinâmicas permite visualizar
transformações espaciais ao longo do tempo de maneiras antes impossíveis. Anne
Kelly Knowles, em "Placing History: How Maps, Spatial Data, and GIS are
Changing Historical Scholarship", de 2008, demonstrou as potencialidades
do SIG para estudos sobre imigração, transformações urbanas, história militar e
ambiental (KNOWLES, 2008, p. 1-25). A "spatial turn" (virada
espacial) na historiografia articula-se assim com as novas ferramentas de
análise espacial digital.
A visualização de dados
históricos constitui campo em expansão que combina técnicas computacionais com
reflexão historiográfica sobre formas de representação do passado. Gráficos,
linhas do tempo interativas, mapas animados e outras formas de visualização
permitem apresentar informações complexas de maneiras acessíveis e reveladoras.
Como argumentou Edward Tufte em trabalhos seminais sobre visualização de
informação, boas visualizações devem revelar estruturas e padrões nos dados,
não apenas decorá-los (TUFTE, 2001, p. 9-31). A visualização histórica requer
portanto não apenas competência técnica, mas também reflexão sobre as
implicações interpretativas das escolhas de representação.
As humanidades digitais
no Brasil desenvolveram-se a partir dos anos 2000, com a criação de
laboratórios, grupos de pesquisa e iniciativas de digitalização de acervos. O
Laboratório de História Digital da UFRJ, o projeto ATHIS da FFLCH-USP e
diversos outros grupos vêm experimentando com métodos digitais aplicados à
história brasileira. Como discutiu Anita Lucchesi em "Digital history and
the politics of digitization", de 2020, estas iniciativas enfrentam
desafios específicos relacionados à infraestrutura tecnológica, financiamento,
formação de pesquisadores e políticas de acesso aberto (LUCCHESI, 2020, p.
110-134). A história digital brasileira desenvolve-se em diálogo com tendências
internacionais, mas também com especificidades locais.
A publicação e
comunicação da história através de plataformas digitais modificam as formas de
circulação do conhecimento histórico para além da academia. Blogs, podcasts,
canais no YouTube, exposições virtuais e projetos colaborativos permitem formas
de divulgação científica e engajamento público antes impossíveis ou muito custosas.
Contudo, como alertou Serge Noiret em "La digital history: histoire et
mémoire à la portée de tous", de 2011, a democratização da produção e
circulação de conteúdo histórico também coloca desafios de qualidade,
confiabilidade e distinção entre história acadêmica e outros usos do passado
(NOIRET, 2011, p. 121-158). A autoridade do historiador profissional é
simultaneamente questionada e demandada no ambiente digital.
As questões de
preservação digital constituem desafio fundamental para a história contemporânea
e futura. A obsolescência de formatos de arquivo, suportes de armazenamento e
softwares ameaça a durabilidade dos registros digitais, paradoxalmente mais
frágeis em certos aspectos que documentos em papel ou pergaminho. Arquivos e
bibliotecas desenvolvem estratégias de migração de formatos, redundância de
armazenamento e curadoria digital para enfrentar estes desafios. Como
argumentou Trevor Owens em "The Theory and Craft of Digital
Preservation", de 2018, a preservação digital não é problema técnico
resolvido, mas processo contínuo que requer recursos, expertise e compromisso
institucional de longo prazo (OWENS, 2018, p. 1-23).
Os debates éticos sobre
história digital abrangem questões de privacidade, propriedade intelectual,
acesso e representatividade. A disponibilização online de documentos históricos
que contêm informações pessoais sensíveis levanta questões sobre privacidade de
indivíduos e comunidades, especialmente quando se trata de grupos vulneráveis
ou estigmatizados. Michelle Caswell, em estudos sobre arquivos de comunidades,
argumentou pela necessidade de protocolos éticos que respeitem os direitos e
interesses das pessoas e grupos representados nos acervos digitalizados
(CASWELL, 2016, p. 25-47). A história digital não é território neutro, mas
atravessado por questões de poder e justiça.
A formação de
historiadores para o ambiente digital constitui desafio pedagógico que implica
revisão curricular e desenvolvimento de novas competências. Para além de
habilidades técnicas específicas, como programação básica, tratamento de dados
e uso de ferramentas de análise, a formação em história digital requer reflexão
crítica sobre as implicações epistemológicas e metodológicas das novas
tecnologias. Como argumentou Cameron Blevins em "Digital History's
Perpetual Future Tense", de 2016, a história digital frequentemente
permanece como promessa futura em vez de prática consolidada, exigindo esforços
sistemáticos de institucionalização e formação (BLEVINS, 2016, p. 308-324). A
integração entre métodos tradicionais e digitais permanece desafio para a
disciplina.
Em síntese, a história
digital representa transformação significativa nas condições de produção do
conhecimento histórico que não pode ser ignorada pelos historiadores
contemporâneos. As novas fontes, ferramentas e métodos digitais não substituem
as competências tradicionais da crítica documental, da interpretação
hermenêutica e da narrativa historiográfica, mas as complementam e, em certos
aspectos, as transformam. Como observou Jo Guldi e David Armitage em "The
History Manifesto", de 2014, as ferramentas digitais podem contribuir para
uma história de maior alcance temporal e espacial, capaz de enfrentar os
grandes desafios do presente, desde que combinadas com reflexão crítica sobre
seus pressupostos e limites (GULDI; ARMITAGE, 2014, p. 14-37). A história
digital é assim menos ruptura radical que desenvolvimento das possibilidades da
disciplina em novo contexto tecnológico e social.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O percurso analítico
desenvolvido ao longo deste artigo evidencia a riqueza e complexidade dos
debates teórico-metodológicos que conformaram e continuam a transformar a
disciplina histórica. Da institucionalização oitocentista aos desafios digitais
contemporâneos, a história atravessou transformações profundas em seus objetos,
métodos, fontes e formas de escrita. Cada uma das onze dimensões examinadas
revela tensões produtivas entre tradição e inovação, continuidade e ruptura,
que caracterizam o desenvolvimento da disciplina.
O historicismo alemão estabeleceu
os fundamentos institucionais e metodológicos da história profissional, legando
tanto procedimentos de crítica documental ainda válidos quanto pressupostos
epistemológicos posteriormente questionados. A renovação promovida pela Escola
dos Annales ampliou irreversivelmente os horizontes temáticos e metodológicos
da pesquisa histórica, introduzindo o diálogo sistemático com as ciências
sociais que permanece marca distintiva da disciplina. O marxismo, em suas
múltiplas vertentes, contribuiu para a atenção às bases materiais da vida
social, às relações de classe e às experiências dos grupos subalternos.
O estruturalismo colocou
questões fundamentais sobre as relações entre estrutura e acontecimento,
sincronia e diacronia, que estimularam a reflexão sobre temporalidades
históricas e a natureza do conhecimento sobre o passado. A hermenêutica, por
sua vez, ofereceu recursos para pensar a especificidade interpretativa das
ciências humanas e as condições de toda compreensão histórica. Os debates
pós-modernos, apesar de seus excessos, contribuíram para problematizar
pretensões ingênuas de objetividade e para evidenciar as dimensões retóricas e
narrativas da escrita da história.
A historiografia
brasileira, constituída em diálogo com tradições internacionais e com
especificidades locais, desenvolveu contribuições originais para a compreensão
da formação histórica do país e para os debates teórico-metodológicos mais
amplos. As reflexões sobre periodização e temporalidades revelam o caráter
construído e perspectivado de toda organização do tempo histórico. As relações
entre história, memória e patrimônio evidenciam as dimensões públicas e
políticas do conhecimento sobre o passado. Finalmente, a história digital impõe
novos desafios e abre novas possibilidades que transformam as condições de
exercício do ofício do historiador.
A formação do historiador
contemporâneo requer, portanto, familiaridade com estas múltiplas tradições
teórico-metodológicas, não como repertório erudito de conhecimentos estéreis,
mas como instrumentos para interrogar adequadamente as fontes, construir
interpretações fundamentadas e refletir criticamente sobre o próprio fazer
historiográfico. O domínio de procedimentos metodológicos articula-se
necessariamente com a capacidade de reflexão teórica sobre os fundamentos,
possibilidades e limites do conhecimento histórico. Como observou Marc Bloch, a
história permanece, antes de tudo, "a ciência dos homens no tempo" —
e compreender adequadamente esta definição exige engajamento permanente com as
questões teóricas e metodológicas que atravessam a disciplina.
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