- Políticos eleitos e com responsabilidade constitucional de decidir;
- Eleições livres e periódicas;
- Voto universal;
- Elegibilidade universal;
- Liberdade de expressão política;
- Acesso a fontes de informação não monopolizadas pelo governo ou por grupos privados;
- Direito de associação.
A democracia é um conceito absoluto?
Doutor em Ciência Política (PUC-SP)
Doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito (USP)
Doutor em Literatura Brasileira (USP)
Em tese, todos deveriam ser elegíveis
A palavra "elegível" significa, no contexto da política, "aquele em quem se pode votar". Só quem é elegível pode se candidatar em uma eleição e receber votos.
Consultando o dicionário Houaiss, descobri que na origem latina do verbete, há um limite no significado da palavra: nem tudo ou todos podem ser escolhidos em uma eleição. Literalmente, o significado latino de elegível é: "que pode ser escolhido, que merece ser escolhido".
Assim, só aquilo ou aquele que "mereça" pode receber votos ou ser escolhido, tornando-se elegível. Algo ou alguém que "não mereça", não pode receber votos, sendo inelegível.
Portanto, para alguém ser elegível deve, antes de tudo, ter méritos ("merecer"). Nesse sentido, o Tribunal Superior Eleitoral, numa decisão juridicamente irrepreensível, considerou que o ex-Presidente Jair Bolsonaro não tem méritos para ser eleito, tornando-o inelegível.
Em 2018, por seu turno, o mesmo Tribunal Superior Eleitoral indeferiu a candidatura de nosso atual Presidente Lula, considerando-o sem méritos e, portanto, inelegível. Nesse caso, a argumentação jurídica não tinha a mesma consistência da atual, a tal ponto de a tese ser derrubada em 2022.
Porém, não quero entrar no mérito jurídico das decisões. Quero questionar a própria etimologia da palavra em um sentido democrático. E fazer rápida reflexão puramente abstrata: não faz sentido uma restrição prévia de elegibilidade em democracias.
Falando em outras palavras: se o fundamento da democracia é a soberania popular e o momento de uma eleição majoritária, sobretudo em nível nacional, é um momento de manifestação da vontade da população, então todos deveriam ter o direito de disputar, sendo previamente considerados elegíveis.
Numa eleição presidencial como a brasileira, por exemplo, qualquer pessoa deveria ter o direito de se candidatar, seja honesto, desonesto, trabalhador, preguiçoso, criminoso... O povo brasileiro decidiria quem é elegível ou não, simplesmente votando em seu escolhido.
Se o povo considerasse algum candidato inelegível, não votaria nele. Assim, na democracia, a inelegibilidade funciona a posteriori, somente depois do pleito. Não deveria haver inelegibilidade preventiva, antes da eleição.
Dito isso, indico que não enfrentei o maior problema no caso do ex-Presidente Jair Bolsonaro: seu real intuito é abolir o direito ao voto e a democracia. Poderia o povo escolher um candidato que tentou (manipulando digitalmente seguidores) dar Golpe de Estado e se tornar ditador? Ou seja, o povo tem o direito de abrir mão de sua soberania?
Por fim, deixo claro que, reflexões à parte, politicamente prefiro que Lula seja o Presidente e Bolsonaro fique inelegível.
Doutor em Ciência Política (PUC-SP)
Doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito (USP)
Doutor em Literatura Brasileira (USP)
Os perigos do desgoverno global
Sob o pretexto de liberdade econômica, condenamos populações inteiras a condições inadmissíveis de vida. Migrantes movidos pelo desespero ou pelo medo cruzam continentes em busca de um sonho que nunca se concretizará. Enquanto isso, mentes inferiores espalham o preconceito e instigam a violência.
Doutor em Ciência Política (PUC-SP)
Doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito (USP)
Doutor em Literatura Brasileira (USP)
Democracia e economia - qual é a da Folha de S.Paulo?
O jornal Folha de S.Paulo publicou um editorial denominado "Democracia e economia" em sua capa (edição de 04/06/2023), manifestando a visão do órgão sobre dois aspectos da sociedade brasileira: a política e a economia.
Em sua opinião, o retrocesso econômico do Governo Lula é um problema, mas a normalidade institucional readquirida, o respeito do Governo à crítica e o diálogo entre os Poderes seriam mais importantes. Nas palavras do jornal, "a soberania das urnas e a alternância de poder" compensariam a má política econômica, pois o Governo Lula seria substituído por outro se seguir nesse compasso.
Sem discordar que a democracia seja mais importante do que a economia, precisamos, contudo, explicitar o caráter ideológico e limitado da perspectiva econômica da Folha. O jornal assume ponto de vista entre o liberal e o neoliberal sem dizer expressamente.
Questiona aquilo o que chama de "hipertrofia estatal como meio de resolução de conflitos e carências", levando ao aumento do gasto público, descontrole da inflação e impedindo o crescimento em "bases duradouras". Os novos limites orçamentários seriam "débeis", haveria "arrocho desmesurado da carga tributária ou nova escalada do endividamento", sufocando investimento e emprego.
Lula é chamado de "estatizante, corporativista e clientelista" por questionar privatizações (Eletrobrás, marco legal do saneamento) e conceder subsídios a empresas "concentradoras de renda e geradoras de ineficiência".
Todas as críticas acima são apresentadas a partir de algumas concepções ocultas, não mencionadas, pois consideradas verdades universais irrefutáveis e, até, naturais. Infelizmente, são apenas opiniões desprovidas de fundamento científico e de base concreta nas experiências históricas.
A economia é o espaço social em que bens são produzidos e distribuídos e serviços são prestados. Nessa esfera, força de trabalho, tecnologia e matéria-prima se articulam para garantir que as necessidades vitais sejam satisfeitas.
Uma economia pode ser organizada de vários modos. Há séculos convencionou-se, de modo ideológico, que a melhor ou única forma de organização eficiente seria o "mercado". Assim, por meio de trocas, recurso à moeda, respeito à concorrência, à livre iniciativa e à lei da oferta e da procura, o mercado traria o pleno desenvolvimento da tecnologia e a distribuição de trabalho de forma justa e equitativa.
Nessa perspectiva, o Estado é visto como uma instância que depende do excedente econômico para tratar de questões políticas e jurídicas, retirando riqueza da economia. Por ser ineficiente, essa riqueza é perdida, pois seria melhor aplicada se continuasse na economia, propiciando sua expansão.
Ocorre, todavia, que o mercado não é nada disso. O caso brasileiro (mas também de países centrais) revela que o mercado é palco da atuação de poucos, normalmente com riquezas familiares, sem méritos humanos ou sociais, preocupados apenas com o aumento do próprio capital. Não há eficiência nas empresas, tampouco respeito à meritocracia, falácia disseminada entre os favorecidos pelo sistema.
O mercado gera enorme desperdício de matéria-prima, conduzindo o planeta à catástrofe ambiental. Além disso, os recursos tecnológicos são dirigidos para benefício de empresas privadas, causando estragos na humanidade. Um grande exemplo disso é a utilização de algoritmos por redes sociais, ou a corrida pela inteligência artificial generativa. Por fim, a força de trabalho é precarizada, humilhada e forçada a uma jornada desumana, num ciclo de corte de custos e redução de salários.
Deixar o mercado decidir o que fazer com a força de trabalho, com a matéria-prima e com a tecnologia é a pior decisão política que podemos tomar. A questão não é tamanho do PIB, mas sobrevivência, dignidade e felicidade da humanidade.
Assim, o jornal Folha de S.Paulo silencia sobre o essencial. Não que o Governo Lula vá acabar com o mercado. Não, longe disso. Vai estimular o crescimento do mercado com intervenção estatal. Infelizmente.
O jornal Folha de S.Paulo, contraditoriamente, ao silenciar sobre o essencial, ou seja, o caráter perverso do mercado e sua insustentabilidade nessa virada para o segundo quarto do século XXI, contribui para o fortalecimento daquilo o que quer combater: o discurso autoritário.
Uma das razões para o sucesso do discurso autoritário de direita é o fracasso da retórica de esquerda em demonstrar as mazelas causadas pelo mercado. Ao associar-se ao neoliberalismo progressista, a esquerda deixa de lutar contra o mercado e passa a querer domesticá-lo, como faz o Governo Lula.
Mas as massas que aderem à direita não engolem mais essa estratégia e anseiam por uma superação imediata das injustiças e das arbitrariedades. Como a esquerda não explicita as conexões com o mercado, o foco é desviado pelo discurso religioso conservador e perspectivas preconceituosas tradicionalistas.
Se a Folha continuar nessa toada, não verá a tão almejada alternância de governo daqui a duas eleições.
Doutor em Ciência Política (PUC-SP)
Doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito (USP)
Doutor em Literatura Brasileira (USP)
Política enclausurada
Alguns desses problemas são perenes, como a produção de alimentos, o saneamento básico, a construção e manutenção de moradias, ou a prestação de serviços de transporte, saúde e educação.
Também a Política é o processo de discussão social do futuro e de formas de desenvolvimento para se chegar a ele.
Por ser um processo complexo, que envolve a discussão e a ação sociais, a Política está sujeita a limites que podem decorrer de questões tecnológicas, de recursos naturais ou da estrutura social.
No caso do Brasil, no início de 2023, a Política encontra-se excessivamente limitada em virtude de nossa estrutura social e das ideologias por ela produzidas.
Sem ser exaustivo, posso citar alguns desses limites que tolhem a capacidade de agir da Política brasileira:
- A maior limitação ao processo de discussão e de ação políticas decorre da ideologia neoliberal, preconizando que a economia não pode ser planejada pela sociedade mas deve obedecer às leis de mercado, como oferta e procura e concorrência;
- No caso especificamente brasileiro do presente, a crença de que todo o campo democrático precisa se unir contra a extrema direita impede o alargamento das propostas políticas e o aprofundamento de medidas que corrijam as injustiças sociais, reduzindo a Política ao jogo de distribuição de cargos e apoios para formar coalizões.
- O controle exercido pela mída tradicional e pelas empresas digitais de tecnologia sobre o espaço público das discussões impede a formação de uma opinião pública mais complexa e democrática, esvaziando a reflexão e transformando os partidos políticos em partidos digitais que arregimentam "seguidores";
- O projeto de poder de grupos religiosos envolve o controle do pensamento de fiéis por meio de uma lógica tradicionalista e a ocupação dos três Poderes do Estado, neutralizando ações políticas de transformação social.
Doutor em Ciência Política (PUC-SP)
Doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito (USP)
Doutor em Literatura Brasileira (USP)





