Governança: Conceito, Uso e Crítica Marxista

 A palavra "governança" tornou-se central no vocabulário político, administrativo e corporativo contemporâneo. Compreender seu significado, sua aplicação e, crucialmente, suas implicações ideológicas é fundamental para uma análise crítica da sociedade atual.

1. O Conceito de Governança e seu Uso Convencional

Em sua definição mais ampla, a governança refere-se aos processos, estruturas e relações através dos quais um grupo ou sociedade se organiza para tomar decisões e alcançar objetivos comuns. Ela vai além do conceito tradicional de "governo", que se foca no aparelho do Estado. A governança, por sua vez, abrange a interação entre uma gama diversificada de atores — ou stakeholders —, incluindo instituições governamentais, o setor privado e a sociedade civil (Freitas, 2023; Oliveira & Garcia, 2020).

No discurso convencional, o termo está associado a um ideal de boa gestão. Seus pilares seriam a eficiência, a transparência, a responsabilidade (accountability) e a participação. O objetivo declarado da governança é assegurar que as decisões sejam tomadas de forma mais legítima e eficaz, refletindo um movimento em direção ao que se considera uma administração adequada e moderna (Freitas, 2023).

Esse conceito é aplicado em múltiplos domínios:

  • Na saúde, a governança é entendida como a complexa interação entre hospitais, agências reguladoras, planos de saúde e pacientes para a prestação de serviços (Prado et al., 2020).

  • Na educação, manifesta-se em mecanismos de gestão universitária ou na implementação de currículos nacionais que envolvem diversos setores da sociedade (Silva et al., 2023; Freitas, 2023).

  • Na administração pública, busca-se uma "governança pública" que, em tese, superaria o modelo burocrático tradicional ao incluir cidadãos e empresas no processo decisório.

Nessa visão, a governança é apresentada como uma evolução técnica e democrática, uma solução para os complexos problemas da sociedade contemporânea.

2. A Crítica Marxista: Governança como Ferramenta da Hegemonia Burguesa

De um ponto de vista crítico e marxista, a governança não é uma técnica neutra, mas um conceito ideológico que surge e se consolida no seio do capitalismo tardio, especialmente em sua fase neoliberal. Sua função não é superar as contradições sociais, mas sim gerenciá-las de uma forma que preserve as relações de poder e a estrutura de classes existentes. A crítica se desdobra em três pontos fundamentais:

a) A Fachada de Participação e a Manutenção do Status Quo

A promessa de inclusão da governança é, em grande medida, uma ilusão. Embora se fale em "diálogo" e "participação", as estruturas de governança raramente alteram a distribuição de poder real. Como apontam Silva et al. (2023), ela pode proporcionar uma "fachada de participação", enquanto o que predomina é o "controle hegemônico" da elite.

Na prática, as decisões continuam a ser tomadas por um "círculo restrito de influenciadores" (Oliveira & Garcia, 2020), composto pela alta burocracia estatal e, principalmente, por grandes interesses corporativos. A "sociedade civil" convidada a participar é, muitas vezes, representada por ONGs e associações alinhadas aos interesses do capital, enquanto sindicatos de classe e movimentos sociais combativos são marginalizados. Assim, a governança torna-se uma ferramenta sofisticada para legitimar decisões que mantêm o status quo, e não para democratizá-las.


b) O Veículo da Mercantilização Neoliberal

A governança é o principal mecanismo através do qual a lógica do mercado é introduzida em esferas da vida que antes eram protegidas como direitos sociais. O foco obsessivo na "eficiência" não é neutro; é a eficiência do capital, que se traduz em corte de custos, privatização de serviços e competição.

Isso leva diretamente à mercantilização de serviços públicos (Oliveira & Garcia, 2020). A governança na saúde transforma hospitais em empresas que precisam ser lucrativas. Na educação, a "governança universitária" introduz lógicas corporativas que resultam na "mercantilização do conhecimento", transformando a educação superior em uma mercadoria e os estudantes em consumidores (Silva et al., 2023). A governança, portanto, não apenas falha em promover o bem público, como ativamente o subordina aos interesses privados.

c) Um Aparelho Ideológico para Gerenciar as Contradições do Capital

Em última análise, a governança funciona como um aparelho ideológico. Ela transforma problemas políticos e de classe em questões técnicas e administrativas. A luta por moradia, saúde ou educação deixa de ser uma luta por direitos e pela desmercantilização da vida e passa a ser um "desafio de governança" a ser resolvido com "boas práticas de gestão".

Ao fazer isso, ela oculta as "desigualdades sistêmicas" e as "práticas exploratórias" (Oliveira & Garcia, 2020) que estão na raiz dos problemas sociais. Ela quebra a solidariedade de classe ao transformar interesses coletivos em uma negociação de interesses individuais entre stakeholders.

Conclusão Crítica

Do ponto de vista marxista, a governança não é um avanço democrático. É uma tecnologia de poder do capitalismo neoliberal que visa gerenciar suas próprias crises sem nunca tocar na sua causa fundamental: a propriedade privada dos meios de produção e a exploração do trabalho. Ela é a resposta do capital à demanda por democracia: uma participação controlada, uma eficiência mercantil e uma estrutura que, sob o disfarce da colaboração, aprofunda a dominação de classe. A superação das limitações da governança não virá de sua "melhora" ou "reforma", mas de sua substituição por formas de poder popular e autogestão dos trabalhadores que rompam radicalmente com a lógica do Estado e do mercado.

A Inteligência Artificial como Força Produtiva: Pela Apropriação Social contra a Barbárie Capitalista

 1. Introdução

A Inteligência Artificial (IA) emerge no século XXI como uma força produtiva de potencial revolucionário, comparável à introdução da maquinaria na grande indústria. Contudo, as forças produtivas não se desenvolvem num vácuo social; elas estão inextricavelmente ligadas às relações de produção vigentes. No modo de produção capitalista, a tecnologia não é, e nunca foi, uma ferramenta neutra para o progresso humano. Em vez disso, é uma arma nas mãos da classe dominante. A IA, sob o controle do capital, não escapa a essa lei fundamental: seu propósito primordial não é emancipar a humanidade, mas intensificar a acumulação de capital, mesmo que isso signifique aprofundar a barbárie social (Tomašev et al., 2020; Floridi et al., 2020).

Este texto recusa-se a participar do coro liberal que busca "humanizar" ou "regular" a IA através de comitês de "ética" ou modelos de "governança". Tais propostas são uma cortina de fumaça ideológica que obscurece a questão central: a propriedade privada dos meios de produção tecnológicos. A tese aqui defendida é que a IA representa um campo de batalha crucial na luta de classes. A tarefa histórica do proletariado/precariado não é negociar os termos de sua submissão à tecnologia do capital, mas lutar pela sua expropriação. Apenas através da apropriação social da IA será possível libertar seu potencial das amarras das relações de produção capitalistas e colocá-la a serviço da construção de uma sociedade baseada nas necessidades humanas, e não no lucro (Barreto & Ávila, 2023).

2. A Lógica do Capital e a Barbárie Tecnológica

Analisar a aplicação da IA sob o capitalismo é testemunhar a lógica do capital levada a novas e mais brutais consequências. Cada avanço tecnológico é imediatamente convertido em um meio para aumentar a taxa de exploração. No mundo do trabalho, a IA é a arma perfeita para o capitalista: ela permite a automação de tarefas, desvaloriza a força de trabalho humana e expande massivamente o exército industrial de reserva, disciplinando os trabalhadores que ainda permanecem empregados (Guerra et al., 2024). A promessa de "requalificação" é uma farsa cínica que joga a responsabilidade da crise sistêmica nos ombros do trabalhador individual. O resultado é a intensificação da alienação: o trabalhador não apenas é separado do produto do seu trabalho, mas sua própria atividade cognitiva é fragmentada, mercantilizada e, por fim, substituída pelo algoritmo (Morandín-Ahuerma et al., 2024; Façanha et al., 2024).

Essa lógica de mercantilização se estende a todas as esferas da vida. Na saúde, o corpo humano torna-se a última fronteira da extração de dados. A promessa de diagnósticos precisos (Soares et al., 2023) mascara a transformação da saúde em uma mercadoria de luxo, enquanto os dados de populações inteiras são extraídos para gerar lucro para seguradoras e farmacêuticas, aprofundando a comoditização da vida (Elias et al., 2023). Na educação, a "personalização do ensino" torna-se um eufemismo para a produção de subjetividades dóceis e adaptadas às necessidades do mercado de trabalho, ao mesmo tempo que se estabelece um regime de vigilância e controle de dados sem precedentes sobre a juventude (Barbosa, 2023; Moreira & Ribeiro, 2023).

A superestrutura ideológica e repressiva do Estado burguês também é fortalecida. Os sistemas de "justiça" algorítmica, treinados com dados que refletem o racismo e a desigualdade estrutural, tornam-se ferramentas de controle social para reprimir as classes perigosas com uma eficiência asséptica e uma aparência de objetividade inquestionável (Sales et al., 2021; Rossetti & Silva, 2024). A indústria cultural, por sua vez, usa a IA para gerar um fluxo incessante de conteúdo que promove a hegemonia ideológica das elites, o consumismo e a passividade política, sufocando o desenvolvimento de uma consciência de classe revolucionária (Silva et al., 2023; Esposito, 2022).


3. Da Gestão da Crise à Revolução: A Necessidade da Apropriação Social

Diante deste cenário, as propostas de "governança" são, na melhor das hipóteses, ingênuas e, na pior, uma armadilha reacionária. Tentar "regular" a IA para que ela seja "justa" dentro do capitalismo é como tentar regular a exploração para que ela seja "ética". É uma contradição em termos. A "governança multissetorial" (Moon, 2023), que coloca corporações, Estados e "sociedade civil" na mesma mesa, serve apenas para legitimar o poder do capital e cooptar qualquer oposição, neutralizando as demandas da classe trabalhadora sob o pretexto de um "diálogo" que nunca questiona a questão fundamental: a propriedade.

A única resposta à altura do desafio é a apropriação social da IA. Isso implica um programa político claro e intransigente:

  1. Expropriação da Elite Tecnológica: A infraestrutura física e lógica da IA — os data centers, as plataformas, os algoritmos proprietários, os vastos conjuntos de dados — deve ser expropriada e transformada em propriedade social, controlada democraticamente pelos trabalhadores e pela população em geral.

  2. Planejamento Democrático Centralizado: Em vez de ser guiada pela anarquia do mercado e pela busca por lucro, a IA deve se tornar a ferramenta principal para o planejamento democrático da economia. Sob o controle dos trabalhadores, ela pode ser usada para mapear as necessidades sociais, otimizar a alocação de recursos, eliminar o desperdício, coordenar a produção em escala global e planejar a transição para uma economia ecologicamente sustentável.

  3. Abolição do Trabalho Alienado: Com a IA socializada, o objetivo não seria mais substituir trabalhadores para aumentar o lucro, mas abolir o trabalho compulsório e penoso. A automação seria usada para reduzir drasticamente a jornada de trabalho para todos, liberando o tempo humano para a ciência, a arte, a cultura, o lazer e a participação política, permitindo o "livre desenvolvimento de cada um como condição para o livre desenvolvimento de todos".

4. Conclusão: Socialismo ou Barbárie Tecnológica

A Inteligência Artificial, enquanto força produtiva, coloca a humanidade numa encruzilhada histórica. A sua privatização e desenvolvimento sob o jugo do capital aponta para um futuro distópico de controle privado total, desemprego em massa e uma desigualdade abissal — uma nova forma de barbárie tecnológica. A tentativa de mitigar esses efeitos através de reformas e regulações está condenada ao fracasso, pois não ataca a raiz do problema: as relações de produção capitalistas.

A alternativa não é frear o desenvolvimento tecnológico, mas arrancá-lo das mãos da classe dominante. A luta pelo controle da Inteligência Artificial é a forma que a luta de classes assume no século XXI. A escolha que se apresenta não é entre uma IA "boa" e uma "má", mas entre a sua utilização para a perpetuação do capital ou para a construção do socialismo. A tarefa dos revolucionários é levar essa consciência à classe trabalhadora e organizar a luta pela apropriação social da tecnologia. A governança não trará o futuro que desejamos, apenas a expropriação.

Referências

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Golpe de Estado

Golpe de Estado é a ação violenta ou manobra política que busca derrubar um governo legitimamente constituído, muitas vezes por meio da intervenção de forças militares ou de um grupo organizado agindo fora da estrutura legal. Esse fenômeno tem sido objeto de estudo em várias áreas, incluindo Ciência Política, História e Sociologia, sendo caracterizado por sua capacidade de alterar drasticamente a ordem política e social de um país.

Um golpe de Estado pode ser definido como uma ruptura abrupta da ordem constitucional que resulta na remoção, por vias extralegais, de um governo legitimamente constituído. Esse fenômeno, frequentemente associado ao uso da força militar ou a manobras políticas coordenadas, busca concentrar o poder em novos atores, ignorando os mecanismos democráticos e os processos institucionais vigentes.

Na prática, um golpe de Estado assume diversas formas, desde intervenções armadas clássicas até estratégias mais sutis, como a manipulação de dispositivos legais e democráticos (por exemplo, impeachments usados de forma questionável). Apesar das diferenças em sua execução, a essência do golpe reside em sua ruptura com a legitimidade jurídica e democrática, com implicações que vão desde a instabilidade política até a violação dos direitos humanos e o enfraquecimento das instituições.


Historicamente, os golpes de Estado têm sido usados como uma ferramenta para a reconfiguração do poder político. Por exemplo, o golpe de Estado no Chile em 1973, que derrubou o presidente Salvador Allende, é um caso emblemático analisado sob múltiplas perspectivas, incluindo a conceituação do governo e das forças armadas nos discursos de Allende (Maturana & Carmona, 2021). Esse evento não apenas mudou a liderança do país, mas também estabeleceu um regime militar que teve profundas implicações para a identidade nacional e a memória coletiva dos chilenos (Isla, 2017; Carvacho et al., 2013).

Além disso, a teoria política contemporânea destaca a mutação conceitual desse fenômeno. Em termos contemporâneos, os golpes de Estado evoluíram, assumindo formas menos tradicionais. Por exemplo, o golpe parlamentar no Paraguai em 2012 contra Fernando Lugo mostra como os mecanismos podem incluir a manipulação de instituições democráticas, como o uso do impeachment (Soler & Nikolajczuk, 2017; Soler, 2015). Esse fenômeno destaca a importância dos atores econômicos e midiáticos na formação de narrativas que justifiquem tais ações, sugerindo que os golpes de Estado não são apenas eventos isolados, mas parte de dinâmicas mais amplas de poder e controle social (Suvelza, 2021). Esse modelo mais moderno de golpe – às vezes chamado de "golpe branco" ou "parlamentar" – utiliza as instituições democráticas como fachada para justificar a remoção do poder.

Além disso, a conceituação de um golpe de Estado tem sido objeto de debate, especialmente em casos recentes como o da Bolívia em 2019, onde a comunidade internacional e os analistas políticos tiveram diferentes interpretações sobre a natureza do evento (Suvelza, 2021; Rossetti, 2023). Isso indica que o termo "golpe de Estado" pode ser flexível e sujeito a reinterpretações dependendo do contexto político e social em que ocorre.

A compreensão do golpe de Estado exige, portanto, um olhar multifacetado, que inclua não apenas seus métodos, mas também suas motivações, impactos e narrativas justificadoras. Ele permanece como um dos maiores desafios para a consolidação da democracia e o respeito às normas constitucionais em diversas partes do mundo. Seu estudo requer uma abordagem multidimensional que considere não apenas os eventos imediatos, mas também as narrativas históricas e as dinâmicas de poder que os cercam.

Referências:

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  2. Isla, P. (2017). Dictadura militar y construcción identitaria: la categoría `mujer chilena'. Revista Estudios De Políticas Públicas, 3(1), 171-185. https://doi.org/10.5354/0719-6296.2017.46347
  3. Maturana, D. & Carmona, J. (2021). El golpe de estado en los discursos de salvador allende. Clivatge Estudis I Tesitimonis Del Conflicte I El Canvi Social, (9). https://doi.org/10.1344/clivatge2021.9.1
  4. Rossetti, A. (2023). (Global) democracy: present and perspectives. Oñati Socio-Legal Series, 13(3), 671-687. https://doi.org/10.35295/osls.iisl/0000-0000-0000-1375
  5. Soler, L. (2015). Golpes de estado en el siglo xxi. un ejercicio comparado haití (2004), honduras (2009) y paraguay (2012). Cadernos Prolam/Usp, 14(26), 77. https://doi.org/10.11606/issn.1676-6288.prolam.2015.103317
  6. Soler, L. & Nikolajczuk, M. (2017). Actores económicos y medios de comunicación. el golpe parlamentario a fernando lugo (2012). Chasqui Revista Latinoamericana De Comunicación, (136), 263. https://doi.org/10.16921/chasqui.v0i136.3263
  7. Suvelza, F. (2021). El golpe que no fue. la última crisis estatal en bolivia y los límites del concepto de golpe de estado. Revista De Estudios Políticos, (191), 185-214. https://doi.org/10.18042/cepc/rep.191.07

A atuação social do Estado deve transcender o teto de gastos?

Em uma sociedade profundamente desigual como a brasileira, limitar a atuação social do Estado ao teto de gastos é uma contradição com os princípios de justiça e bem-estar coletivo. A Constituição Federal consagra como dever estatal a promoção de direitos sociais como saúde, educação, moradia e segurança. Contudo, a imposição de limites econômicos rígidos, como o teto de gastos, prioriza a estabilidade fiscal sobre as necessidades humanas, gerando um desequilíbrio ético e estrutural.

Atuação social como responsabilidade política, não econômica
A atuação social do Estado deve ser guiada por objetivos políticos — a redução das desigualdades, a promoção da dignidade e a universalização de direitos — e não condicionada por restrições econômicas. Políticas públicas não podem ser encaradas como meros custos financeiros, mas sim como investimentos que criam coesão social e fortalecem a economia ao longo do tempo. Assim, a atuação estatal precisa estar desvinculada da dependência exclusiva de recursos orçamentários já existentes.

Moeda social: uma solução para financiar direitos
Uma alternativa viável para materializar políticas públicas é a utilização de moedas sociais ou variantes da moeda convencional. Moedas sociais podem ser criadas em âmbito local ou nacional, com validade restrita ao custeio de serviços essenciais ou ao fortalecimento de economias regionais, sem impactar diretamente a dívida pública ou as metas fiscais. Por exemplo, vales distribuídos para a população carente poderiam ser usados exclusivamente em programas de saúde, educação ou moradia, sem que isso significasse desajuste fiscal.

Atuação do Estado sem atrapalhar a economia
Além de beneficiar a sociedade, a utilização de moedas sociais poderia aliviar a pressão sobre o orçamento público tradicional, permitindo que as finanças convencionais sejam destinadas a setores estratégicos. Ao mesmo tempo, o estímulo econômico gerado pela circulação de uma moeda social, com impacto direto nas comunidades mais vulneráveis, cria dinamismo na economia local e reduz a dependência de subsídios centralizados.

Por uma política ativa e inclusiva
Portanto, a atuação social do Estado deve ser compreendida como uma ferramenta para garantir direitos, corrigir desigualdades históricas e estruturar o desenvolvimento social. A limitação imposta por regras econômicas, como o teto de gastos, desconsidera o papel transformador do Estado e perpetua desigualdades. A materialização de políticas públicas, especialmente em uma sociedade desigual, deve ser baseada em decisões políticas criativas e ousadas, como o uso de moedas sociais, demonstrando que os direitos fundamentais estão acima de convenções econômicas.

A Escolha entre Trump e Kamala: Dois Lados da Mesma Moeda

 Na eleição recente, a vitória de Trump pareceu uma decisão polarizada, mas na essência, tanto Trump quanto Kamala oferecem alternativas limitadas e insuficientes. Ambos representam visões que, apesar das diferenças aparentes, perpetuam uma mesma lógica de poder e estrutura econômica, segundo a qual as necessidades reais da maioria ficam em segundo plano. Em vez de promoverem uma mudança estrutural que melhore de fato a vida das pessoas, os dois candidatos sustentam uma dinâmica social que favorece os interesses do capital e deixa de lado as soluções para problemas essenciais, como desigualdade, bem-estar social e a preservação do planeta.

Trump e Kamala são ruins não pelas diferenças ideológicas que exibem, mas pela semelhança fundamental que compartilham: a defesa de um sistema obsoleto que falha em oferecer dignidade e felicidade para todos.

Trump e Kamala: Defensores de um Capitalismo Desvinculado das Necessidades Humanas

Apesar dos discursos divergentes, Trump e Kamala mantêm uma estrutura social e econômica que prioriza o capitalismo financeiro, na qual grandes acionistas exercem controle sobre as empresas e orientam as decisões em função do lucro imediato. Esse sistema é caracterizado pela desvinculação das corporações em relação às necessidades reais da sociedade – saúde, educação, moradia – e responde primariamente aos interesses financeiros de acionistas e investidores.

Vemos isso, por exemplo, nas indústrias farmacêuticas, em que o preço dos medicamentos essenciais é inflacionado para gerar retornos maiores aos acionistas, mesmo que isso signifique restringir o acesso de quem mais precisa. Da mesma forma, no setor imobiliário, empresas compram grandes porções de imóveis para controle de preço e maximização de lucros, enquanto milhões de pessoas enfrentam a crise da falta de moradia.

Trump e Kamala, com suas visões políticas, representam dois caminhos para perpetuar essa mesma estrutura. Ao invés de reorientar a economia para a resolução de problemas humanos essenciais, ambos preservam o modelo que gera lucro para poucos, deixando as reais necessidades humanas como secundárias, ignoradas pelas dinâmicas de mercado.

Enquanto o capitalismo financeiro seguir orientando as decisões econômicas, as corporações continuarão desconectadas da vida cotidiana e da dignidade das pessoas, e a estrutura social se manterá presa à lógica de acumulação e desigualdade.


O Trabalho Humano a Serviço do Lucro, Não da Vida

Na lógica capitalista financeira defendida por Trump e Kamala, o trabalho humano e a própria existência são recursos a serem explorados para maximizar o lucro, em vez de atender às necessidades fundamentais da sociedade. Empresas sob o controle de grandes acionistas e investidores organizam as tarefas e empregos de acordo com o retorno financeiro, sem considerar sua contribuição real para o bem-estar coletivo.

Essa lógica não só limita o papel do trabalho, mas também invade a vida privada, promovendo a financeirização em cada aspecto da existência. A oferta de microcréditos, por exemplo, incentiva as pessoas a se endividarem para consumir ou para atender a necessidades básicas, levando-as a uma dependência constante dos mecanismos financeiros. As pessoas, então, veem-se cada vez mais imersas em dívidas, forçadas a trabalhar incessantemente para pagá-las, perpetuando um ciclo de submissão financeira e exaustão.

Além disso, a lógica do desempenho – tão valorizada e imposta nesse sistema – faz com que todas as esferas da vida sejam vistas como arenas de produtividade. As pessoas são pressionadas a performar em todos os momentos, como se a realização de metas e o cumprimento de prazos fossem o propósito central de sua existência. Isso gera uma alienação profunda: em vez de viverem para experimentar o mundo e fortalecer suas relações, passam a se sentir presas em uma rotina de trabalho incessante, em que cada ação deve ser útil ou lucrativa.

Esse cenário leva a uma perda de sentido humano para a própria existência. Trabalha-se e vive-se para manter um sistema que exaure e aliena, desconectado das reais aspirações e necessidades humanas. O custo emocional é alto: a sensação de vazio e insatisfação se aprofunda, e o propósito da vida se dissolve em atividades que, no fundo, não agregam significado.

No fim, a estrutura financeira global sustentada por Trump e Kamala transforma o cotidiano em uma busca incessante por produtividade e lucro. A vida humana perde seu valor intrínseco, sendo reduzida a mais uma peça no mecanismo de acumulação capitalista – um mecanismo que aliena, exaure e conduz as pessoas a uma existência cada vez mais distante do que poderia ser plena e significativa.

Meritocracia e Direitos Civis: A Ilusão da Justiça dentro de um Sistema Desigual

Para aqueles que defendem a visão de Kamala, a meritocracia e a luta pelos direitos civis aparecem como soluções capazes de corrigir as injustiças do sistema. A meritocracia, em teoria, afirma que todos podem prosperar pelo próprio esforço. Mas, na prática, ela ignora as condições de partida desiguais que limitam o acesso dos mais pobres e da classe média às melhores posições na sociedade. Esse sistema naturaliza as desigualdades, tratando a hierarquia social como algo inevitável – afinal, para que existam líderes, é necessário haver liderados.

O resultado é a perpetuação de uma estrutura que privilegia uma pequena elite, enquanto a maioria permanece em posições subalternas, lutando para sobreviver. Sob o discurso da meritocracia, muitos são levados a acreditar que não há injustiça estrutural; apenas uma “falta de esforço” daqueles que não alcançam o sucesso. Essa lógica transforma as desigualdades sociais em uma questão de mérito individual, ocultando os mecanismos de exclusão que impedem qualquer ascensão significativa dos menos favorecidos.

A luta pelos direitos civis, embora tenha conseguido avanços importantes, muitas vezes ocorre de forma desconectada da transformação social global. Quando focada em garantir espaços de liderança a indivíduos de minorias, sem alterar as estruturas fundamentais do sistema, essa luta termina por empoderar alguns, mas perpetua a hierarquia social e a lógica de liderança e subordinação. Em vez de questionar a existência de posições superiores e inferiores, essa luta acaba apenas por rearranjar quem ocupa esses lugares, sem contestar a estrutura que os sustenta.

A crença de que o direito pode corrigir as injustiças do sistema, por sua vez, serve como um instrumento de perpetuação do próprio sistema capitalista. Em nome da inclusão, novos personagens são incorporados na lógica de produção de capital, adaptando-se à mesma estrutura que já exclui tantos outros. Em vez de questionar a estrutura econômica e social que gera a exclusão, o direito apenas legitima essa exclusão, incorporando-a de forma seletiva e simbólica.

Assim, o discurso meritocrático e a luta por direitos civis, quando desconectados de uma transformação profunda, acabam sendo mecanismos que reafirmam o sistema, perpetuando desigualdades e alienando a maioria. O resultado é um ciclo no qual o poder é redistribuído, mas a estrutura de exploração e hierarquia continua intacta, impedindo qualquer avanço real em direção a uma sociedade mais justa e igualitária.

Trump e a Ideologia da Desigualdade como Fundamento

Os simpatizantes de Trump enxergam a desigualdade não como um problema a ser resolvido, mas como uma condição natural e inevitável. Para eles, há nações, raças e religiões que se destacam e, portanto, deveriam ocupar posições superiores no cenário mundial. Nos Estados Unidos, essa visão valoriza os "verdadeiros" fundadores da nação – descendentes de colonizadores brancos, de tradição cristã e herdeiros da narrativa de grandeza norte-americana. Para esses grupos, apenas aqueles que representam a "essência" da nação merecem beneficiar-se politicamente dela, enquanto os “não fundadores” seriam cidadãos de segunda classe, ou até ameaças.

Dentro desse contexto, o discurso trumpista constrói inimigos: figuras que vêm de fora ou que não correspondem a esse ideal e que, ainda assim, avançam nas estruturas de poder e de liderança. Muitos dos que são alvo da retórica trumpista são os mesmos que ganham espaço na lógica de inclusão defendida por Kamala, como migrantes, minorias raciais, mulheres e indivíduos LGBTQIA+. A percepção de que o discurso do “outro lado” – que tem ocupado o poder nos últimos anos – não trouxe melhorias para a vida da maioria norte-americana fortalece o argumento de que algo precisa ser eliminado. Para os simpatizantes de Trump, a solução é clara: remover aqueles que consideram inimigos da verdadeira América.

Essa criação de inimigos é central para a ideologia trumpista e encontra um aliado poderoso na religião cristã evangélica dos Estados Unidos. Para muitos líderes e seguidores dessa fé, há o temor de que imigrantes, pessoas de outras religiões ou qualquer grupo que diverge dos valores tradicionais corrompam a essência do país. Esse medo é simbolizado pela chamada “invasão” de imigrantes, especialmente aqueles de origem latina e muçulmana, que são vistos como ameaças à identidade americana.

No Brasil, a retórica encontra paralelos significativos, com a figura do estrangeiro sendo substituída pelo “perigo comunista.” No lugar de temer uma invasão física, alimenta-se o temor de uma infiltração ideológica, em que o comunismo – percebido de forma ampla e muitas vezes distorcida – é visto como uma ameaça aos valores nacionais e familiares. A defesa da família tradicional, com papéis rígidos e centralizados na moralidade religiosa, é parte essencial dessa visão, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.

Trump e seus seguidores, assim, defendem uma estrutura hierárquica e desigual, na qual apenas os legítimos “herdeiros” da nação têm o direito de guiar o país. Para eles, a permanência e a pureza dessa estrutura exigem a constante criação de novos inimigos, responsáveis por desestabilizar a ordem que buscam preservar. Essa visão é alimentada por uma lógica de exclusão, que considera natural e justificável o domínio de certos grupos sobre outros, perpetuando uma visão de mundo profundamente arraigada na desigualdade e na divisão.

Ideologias que Perpetuam o Capitalismo

Tanto o discurso de Kamala quanto o de Trump, cada um a seu modo, reforçam a lógica capitalista, mantendo-a profundamente enraizada e intocada. Ao defender a inclusão meritocrática e a expansão dos direitos civis dentro do próprio sistema, Kamala reforça a estrutura econômica e social que mantém a desigualdade. A promessa de um acesso "igualitário" por meio do esforço individual e do direito civil é limitada e, na prática, apenas acomoda novas figuras na velha lógica de acumulação de capital, sem desafiar a base do sistema que perpetua a exploração.

O discurso de Trump, no entanto, parece se alinhar ainda mais com o atual momento histórico do capitalismo, que se desvincula cada vez mais do trabalho assalariado clássico e volta seu foco para a concentração intensiva de riquezas nas mãos de poucos. Com o avanço das plataformas digitais e da economia de aplicativos, o capitalismo tem agora a capacidade de mobilizar o trabalho de milhões de pessoas de forma gratuita ou uberizada. O trabalho assalariado perde centralidade, enquanto a concentração de capital e o controle das estruturas digitais se tornam o cerne da nova fase do capitalismo.

Nesse cenário, o discurso de Trump desvia a solidariedade que deveria existir entre trabalhadores para uma solidariedade familiar ou nacionalista. Em vez de se unirem para compreender as causas comuns de suas dificuldades – a concentração de riqueza e o controle dos recursos nas mãos de poucos – os trabalhadores são incentivados a buscar segurança em suas famílias, em sua nação e em valores conservadores. Essa solidariedade desviada impede que a realidade seja desnudada, que a alienação seja superada e que o sistema capitalista financeiro, que oprime e explora, seja de fato questionado.

O capitalismo financeiro se fortalece, pois, ao desviar as insatisfações para inimigos fabricados e ao consolidar uma hierarquia naturalizada, ele se mantém protegido da revolta. Trump e Kamala, com ideologias distintas, preservam, portanto, o mesmo sistema – um sistema que já não se baseia apenas na exploração do trabalho direto, mas na manipulação das lealdades e na mobilização das frustrações, garantindo a continuidade de um capitalismo excludente e opressivo.