O que vai acontecer no Governo Lula?

Seja pelo momento, seja pelo perfil político da bolha progressista que deve voltar ao poder em 2023, podemos imaginar o curso em que seguirá o terceiro Governo Lula.

O primeiro passo será consolidar o controle do poder ameaçado pelos jagunços digitais da bolha tradicionalista. Para tanto, algumas alianças serão feitas e poucos movimentos ousados serão tentados.

Os coronéis esclarecidos retomarão seu cotidiano violento de gerir os espaços públicos com citações em língua estrangeira, camuflando suas posições de beneficiários do sistema com o velho discurso liberal. O bacharelismo voltará, tentando impor sua "ciência" aos "incultos".

Haverá um incentivo ao capitalismo hipócrita, estilo ESG, preconizando-se a preocupação com "stakeholders" enquanto se impõe a lógica do desempenho precarizado à maioria dos obsoletos trabalhadores e não se toca no tema distribuição de riquezas.

Se houver alguma proteção contra a destruição ambiental, haverá, por outro lado, a invenção e a utilização de formas mais modernas para degradar o planeta.

Graças às necessárias políticas de renda mínima, a projetos educacionais e a outros programas sociais, a desigualdade social cairá um pouco. Novos grupos ascenderão para esbarrar nos estreitos limites de nossa economia, cujo sinal amarelo acenderá ante a menor ameaça de mudança estrutural.

Os limites do consumismo incentivado pelo microcrédito serão testados, ampliando ainda mais o endividamento privado das famílias. O ópio das compras será neutralizado pelo desespero das dívidas.

A reindustrialização esbarrará no desinteresse das elites agrária e financeira, bem como na falta de capacitação da mão de obra. O investimento da indústria digital poderá ser um caminho, mas as bolhas podem estourar.


Caso a saúde de Lula não permita disputar a reeleição, sua sucessão será tema recorrente a partir do terceiro ano de mandato. Coronéis esclarecidos disputarão à tapa o posto, abrindo espaço para o retorno da jagunçada digital.

O grande projeto petista a ser tentado, novamente, será da transformação lenta e gradual da sociedade brasileira, diminuindo a desigualdade a conta-gotas.

Todavia, esse processo precisará, primeiro, recuperar o terreno perdido desde a derrubada de Dilma, quando começa o retrocesso social. Depois, caso consiga recuperar, a marcha rumo à igualdade precisará ser longa e contínua, podendo esbarrar na falta de sucessor a Lula.

Mesmo que haja esse(a) sucessor(a), os coronéis não esclarecidos (e mesmo os esclarecidos) costumam ficar arrepiados ante a ameaça de perderem seus benefícios injustos de nossa sociedade horrorosa. Formar-se-á nova aliança que retomará a marcha destrutiva do bolsonarismo, encerrando outro ciclo lulista. 

O resultado da eleição norteamericana é um alerta

Ao contrário de muitos, discordo que o resultado das eleições norteamericanas de 8/11/22 tenha sido ruim para os Republicanos ou para o Trumpismo em si.

Precisamos considerar que Trump saiu há quase dois anos da Presidência, deixou o centro dos holofotes da bolha progressista encabeçada pelo NY Times e outros órgãos de imprensa, mas continuou tão relevante a ponto de impor uma derrota nas urnas ao partido Democrata e ao atual Presidente, Biden.

Mesmo que haja um empate em 50 Senadores progressistas e 50 Senadores Republicanos, precisamos lembrar que o voto de desempate é do vice-Presidente. Ou seja, quem levar a Presidência leva a maioria da Casa.

Ainda que a representação Republicana na Câmara dos Deputados seja menor do que a esperada, tende a ser majoritária (escrevo antes do término da apuração e há a possibilidade remota de maioria democrata). O controle dessa Casa dará ampla margem de ação se o partido reconquistar a Presidência.


Reputo que Biden faz um governo um pouco acima das expectativas. Implementa projetos sociais, socorre os mais pobres, investe em infraestrutura e tenta promover o crescimento do país. Ou seja, faz tudo como parece que Lula fará por aqui.

Todavia, um governo "correto" não bastou para conter ou eliminar as ameaças antidemocráticas do Trumpismo. Ao contrário, elas seguem fortes e ligeiramente majoritárias na eleição.

Este é o sinal de alerta para cá, relativamente ao Bolsonarismo.

Fica a convicção de que esses fenômenos de massa com ideais de extrema direita decorrem de problemas estruturais que não são solucionáveis nem por governos "corretos".

As mudanças tecnológicas dos últimos anos, levando à consolidação de uma nova ordem baseada nas redes sociais e nos algoritmos, causa um rearranjo no campo das forças sociais que talvez não possa ser contido pelo Estado nacional.

A bolha tradicionalista não existe por uma "falha" do Estado, mas existe independentemente dele. Tentar conter sua existência por meio de políticas públicas talvez seja acreditar na volta de uma sociedade que desapareceu.

O que vai acontecer com Bolsonaro?

 O que vai acontecer, politicamente falando, com Bolsonaro quando deixar a Presidência?

Antes de trazermos algumas hipóteses, convém entender o que pode acontecer com a "bolha tradicionalista" formada em torno de sua atuação como Presidente e, depois, como candidato.


Analisando-se os resultados das eleições parlamentares e para os governos estaduais, partidos ligados ao movimento evangélico, ao centrão e ao agronegócio conquistaram posições importantes. A tendência é que não apoiem uma oposição bolsonarista, aderindo ao governo ou a outros nomes.

Avançando nas possibilidades, para desenharmos o pior cenário para Bolsonaro, os Lavajatistas, com ambições próprias, buscam novamente um caminho isolado e os Militares (sobretudo da ativa), dado o apoio das potências mundiais ao novo governo, silenciam.


Restará, assim, a Bolsonaro, dois grupos que sempre foram considerados "raízes":
  1. Grupo heterogêneo de pessoas com personalidade autoritária, com frustrações diversas e com armas nas mãos; 
  2. Grupo de simpatizantes ligados à direita global e a movimentos tradicionalistas, geneticamente bolsonaristas (na versão que emerge a partir de 2016).
Nesse sentido, Bolsonaro e aqueles mais próximos a ele continuariam liderando um partido digital, que se estrutura em redes sociais de propriedade de empresas privadas globais.


Qual o tamanho dessa liderança (em termos populacionais) e qual seu poder?

Muito dessa resposta virá da análise dos resultados das eleições norteamericanas que ocorrem agora em novembro. Lá, o cenário é muito parecido com cá: Trump perdeu por pouco as eleições presidenciais e continuou bastante influente em seu partido digital.

Podemos, de qualquer modo, especular que 20 a 30% da população brasileira continue cegamente fiel a Bolsonaro. Trata-se de um contingente considerável, capaz de fazer dele uma influência política em qualquer eleição e uma ameaça à democracia.

Em 2023, portanto, Bolsonaro começa, mesmo nesse pior cenário para ele, com um poder bastante elevado.

A tendência é que utilize seu partido digital para mobilizar constantemente seus seguidores. Para tanto, recorrerá a técnicas de marketing político, plantando dúvidas que somente viram certeza após uma reflexão dos correligionários.

E essas dúvidas levarão à constatação de que existem inimigos do verdadeiro povo brasileiro (bolsonarista), os quais precisam ser combatidos de qualquer maneira.

Quão bem sucedido será Bolsonaro?

O êxito de um partido digital depende da "boa vontade" das empresas privadas globais cujos algoritmos impulsionam postagens com conteúdo antidemocrático, mentiroso ou odioso.

Quando o partido digital é pequeno, com poucos seguidores, depende de um investimento inicial para crescer. Depois de um certo ponto, basta entender o algoritmo e o crescimento torna-se orgânico.

No caso do Bolsonarismo, pode ser que seu partido digital já tenha atingido o patamar do orgânico, tornando-se razoavelmente "barato" de operar.

Caso isso tenha ocorrido, o sucesso de Bolsonaro estará ligado apenas ao compromisso das citadas empresas privadas com a legislação brasileira: se elas derem espaço à máquina bolsonarista, ela continuará crescendo.

Bolsonaro será preso?

Esta questão está intimamente ligada às anteriores. Inegavelmente há razões jurídicas para Bolsonaro ser preso ou tornar-se inelegível. Mas, o direito nunca anda desconectado da política.

Por mais que o STF e o TSE tenham mostrado muita força, coibindo atos antidemocráticos, essa força nunca foi maior do que podia ter sido. Há uma linha entre o silenciamento promovido pelas instâncias jurídicas e o indesejável efeito oposto, de amplificar as agitações sociais.

Caso Bolsonaro seja bem sucedido em 2023 e fortaleça ainda mais sua bolha, não haverá condições sociais para sua prisão ou para ser considerado inelegível. É com isso que ele conta.

Deus, Pátria, Família e Liberdade" é um ideal fascista

Em postagem anterior, mencionei que o lema bolsonarista "Deus, Pátria, Família e Liberdade" era fascista. Alguns ótimos interlocutores, com quem tenho divergências políticas, questionaram, de modo bastante plausível, a alegação.

Por questões de adequação ao meio (redes sociais), não farei aqui considerações etimológicas ou históricas sobre o termo "fascismo". Considero-o sinônimo de autoritarismo.

Quando se defendem as quatro palavras iniciais no singular, articula-se um discurso que naturaliza uma determinada visão de mundo e exclui todas as outras, caracterizando-se o ponto de vista fascista.

Assim, proclama-se "Deus" como se todas as religiões fossem ou devessem ser monoteístas e como se o "correto" fosse seguir o Deus cristão.

Religiosidades diversas, politeístas ou não cristãs, ou, ainda, o ateísmo, são excluídos e passam a ser considerados estranhos.

A palavra "Família" é utilizada como sinônimo de uma composição familiar idealizada durante o século XIX, com papéis e gêneros especificados por traços culturais.

Outras estruturações familiares, com papéis e gêneros diversificados, são reputadas indesejáveis do ponto de vista moral e responsabilizadas pela decadência dos costumes.

A palavra "Pátria" é utilizada com um caráter complementar a "nação", em sentido europeu, conforme delineada a partir do século XVIII. Considera que pessoas com traços culturais comuns devem viver juntas e repelir outras que ameacem essa união.

Assim, pessoas de outras pátrias não devem viver entre "nós", ou, no máximo, devem viver em condição inferior, aceitando essa pretensa inferioridade.

Ideias que questionam a desigualdade social ou a posição de mando de determinadas autoridades são consideradas como não patriotas e que foram "importadas" por pessoas que deveriam abandonar o país.

Por fim, "Liberdade" é utilizada em um sentido libertário, por um lado, como a possibilidade de manifestar qualquer pensamento, ainda que seja um discurso odioso cujo alvo sejam pessoas que não sigam "Deus", ameacem a "Família" ou não se enquadrem na "Pátria".

Por outro, é utilizada em um sentido econômico, similar a livre iniciativa (para os ricos) ou empreendedorismo (para os pobres).

Em um ambiente de precarização e de neoliberalismo, a "Liberdade" em sentido econômico é um apelido cruel à uberização e à necessidade de labuta incessante. Considera que o Estado atrapalha o cotidiano de luta, ao invés de considerá-lo um garantidor de direitos.

Essa "Liberdade" econômica oculta, portanto, a falta de igualdade e a perda de direitos das pessoas. Condena os defensores da intervenção estatal e da tributação como inimigos, naturalizando uma ordem capitalista cruel que amplia as desigualdades e a concentração de riquezas.

Portanto, se você quiser utilizar essas palavras, passe a usar no plural e combinada com outras: "Deuses; Pátrias e Pessoas; Famílias; Liberdade e Igualdade". Caso não consiga usá-las assim, cuidado: sua personalidade é autoritária.

A lógica bolsonarista é plantar a dúvida: o primeiro pronunciamento presidencial após a eleição

Em seu primeiro pronunciamento após o resultado da eleição, o Presidente Bolsonaro seguiu à risca a estratégia de uma comunicação voltada à sociedade dividia em duas bolhas: plantar mais dúvidas do que certezas.

Afirma que os movimentos populares atuais derivam de "indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral". Não explica quais teriam sido as razões para esse sentimento, dando a entender que seriam legítimas.

Depois, afirma que esses protestos devem ser pacíficos e não adotar os métodos "da esquerda", ou seja, deveriam respeitar outros direitos, sobretudo o de "ir e vir".

Destaca a representação conquistada pela Direita no Congresso, lembrando seus ideais fascistas: "Deus, Pátria, Família e Liberdade".

Afirma ser pela "ordem e pelo progresso", superando as adversidades causadas pelo "sistema", pela pandemia e por uma Guerra.


Menciona ser rotulado de "antidemocrático", mas sempre jogar "dentro das quatro linhas da Constituição", nunca falando em censurar a mídia ou as redes sociais.

Diz que cumprirá todos os mandamentos da Constituição, lembrando que defende as liberdades, a honestidade e as cores da bandeira. Encerra aqui sua fala.

Trata-se de um discurso exemplar quanto aos mecanismos contemporâneos de convencimento "pelo aprendizado" dos seguidores de redes sociais: conciso, direto e repleto de duplos sentidos, propiciando discussão e muitas vias de interpretação.

Vejamos:

  • Os protestos contra a ordem democrática são justificados pela liberdade constitucional, devendo ser pacíficos;
  • A Direita que conquistou postos eletivos é saudada com o ideal fascista;
  • Afirma ter superado adversidades mesmo contra o "sistema" e nunca ter pensado em censurá-lo (sem dizer que não teria poder para tanto);
  • Por fim, afirma que cumprirá todos os mandamentos da Constituição, sem especificar quais e nem qual a interpretação deles (lembrando que, com base na Constituição, justifica a intervenção militar).

A partir das "pistas" deixadas por sua fala, Bolsonaro espera que sua bolha construa uma versão bélica de seu discurso.

As eleições continuam: robôs bolsonaristas funcionam a todo vapor

Confirmada a vitória da bolha progressista sobre a bolha tradicionalista, é natural que a primeira comemore. Há dúvidas quanto às reações da bolha tradicionalista.

Composta por grupos heterogêneos porém unidos pelo bolsonarismo, a reação pode ser diferente para cada um desses segmentos, causando inédita fissura na bolha.

Os grupos evangélicos conquistaram vários postos nas eleições, sendo o governo do Estado de São Paulo, pelo partido Republicanos, ligado a uma dessas igrejas, o mais significativo.

Parece pouco provável que embarquem em algum movimento de contestação ao resultado das eleições no segundo turno, pois isso implicaria um questionamento aos próprios resultados favoráveis.

Os grupos ligados ao agronegócio conquistaram vários governos no Centro Oeste e no Norte, também não devendo embarcar numa onda contestatória às urnas eletrônicas.

As Forças Armadas estão silenciosas e esse silêncio, nessa altura, é sinal de que tendem a referendar o resultado eleitoral.


Dúvidas pairam sobre outros grupos armados e sobre o outrora designado "Gabinete do Ódio", que corresponde ao grupo ideológico mais radical, ligado aos movimentos globais de direita e bastante competente no uso de instrumentos de comunicação digital.

Esse grupo ideológico está bastante ativo nas redes sociais, direcionando seus robôs digitais e seus "robôs humanos" a disseminarem postagens dentro da bolha progressista.

Algumas dessas postagens foram infelizes, indicando que o país estaria de luto pela derrota de Bolsonaro. Imediatamente geraram indignação e uma reação dizendo que o luto é pela COVID, não pela derrota eleitoral.

Mas o grupo ideológico é bastante rápido e capaz de recalibrar seus "guerrilheiros digitais" com eficácia.

Nesse jogo, é preciso desvendar a reação que se pretende causar no adversário, para reagir de outro modo, neutralizando a ação pretendida.

Durante as eleições de domingo, por exemplo, houve uma tentativa, por parte desse grupo da bolha tradicionalista, de fazer a bolha progressista dizer que havia fraude nas eleições. Foram plantadas notícias de atuação da Polícia Rodoviária Federal com o intuito de gerar esse movimento. Todavia, a bolha progressista não "caiu" na cilada.

De todo modo, a atuação dos robôs digitais tem sido, como dito, das mais intensas.

Várias postagens que escrevi há algum tempo estão recebendo comentários neste momento, sempre desfavoráveis a Lula e favoráveis a Bolsonaro.

Ainda não é possível identificar a estratégia pretendida. Precisamos comparar nosso caso à eleição norteamericana de 2020, pois o grupo ideológico pode clonar os passos seguidos por Trump, com algumas adaptações.

Lá, o foco foi a alegação de fraude eleitoral com a mobilização para ocupar o Capitólio. Aqui, podemos ter uma mobilização para invadir o TSE ou para inviabilizar a posse de Lula, por exemplo. 

Todas as hipóteses precisam ser consideradas, uma vez que o grupo ideológico é capaz de instigar as massas bolsonaristas.

Bolsonarismo precisa esperar o resultado da apuração para impulsionar potencial alegação de fraude

Por mais que as pesquisas indiquem a liderança de Lula, a apuração amanhã pode não consumar sua vitória. Consideremos três hipóteses:

1. A abstenção maior entre os eleitores lulistas prejudica seu desempenho e possibilita a vitória de Bolsonaro.

Essa abstenção, inclusive, dadas as notícias recentes, pode ser amplificada pelas ameaças de empresários e outros crimes eleitorais não detectados.

2. As amostras dos institutos de pesquisa, dada a falta de novo Censo, estão imprecisas e suas estimativas viciadas.

Nesse caso, Bolsonaro estaria na frente de Lula, considerando-se o erro amostral, vindo a vencer as eleições.


3. Embora Lula esteja na frente das pesquisas, entre hoje e amanhã ocorrem episódios "virais" que convencem eleitores indecisos, brancos e nulos, além de inverter alguns votos.

Novamente, nessa terceira hipótese, Bolsonaro sairia vencedor, apesar do resultado adverso das pesquisas.

Rigorosamente, nenhuma dessas hipóteses pode ser descartada, levando os bolsonaristas e sua bolha tradicionalista a viverem um impasse.

Como Bolsonaro pode vencer as eleições, seria perigoso e sairia pela culatra um impulsionamento imediato, em massa, de teses questionadoras da idoneidade das urnas eletrônicas.

Em outras palavras, esse impulsionamento poderia gerar a desconfiança de que Bolsonaro  e as Forças Armadas manipularam as urnas eletrônicas e programaram internamente ao sistema do TSE sua vitória.


Por outro lado, se não houver qualquer impulsionamento em massa dessa tese de fraude nas urnas eletrônicas, a tese enfraquece, sobretudo no caso da vitória de Lula.

Se os bolsonaristas esperarem a derrota para esse impulsionamento, ele pode soar como "choro de derrotado" e não convencer muita gente.

O mais provável, assim, é que já exista, nesse caso de derrota bolsonarista, um momento definido para a disseminação da tese.

Analisando-se a apuração do primeiro turno e de outras eleições, como 2014, os Estados bolsonaristas e o DF costumam enviar seus resultados ao TSE com maior rapidez. Assim, a tendência é que Bolsonaro comece a apuração com ampla vantagem sobre Lula.

Essa vantagem, dadas as hipóteses citadas, pode diminuir sem que ocorra a "virada" lulista. Mas, claro, dadas as pesquisas eleitorais, no momento final da apuração pode ocorrer a "virada" e Lula, que ficaria atrás quase 90% do tempo, sairia vencedor.

Caso os bolsonaristas percebam, no final da apuração, que a virada está ocorrendo, será o potencial momento em que haverá a disseminação da tese da fraude, mobilizando sua "tropa".

Autoritarismo econômico

 A economia é o espaço social em que os bens são produzidos e distribuídos. A política econômica consiste na definição de critérios, escolhidos pela sociedade, para produzir e distribuir os bens.

Nesse espaço social, algumas perguntas básicas devem ser respondidas:

  • O que produzir
  • Quem produzir
  • Como produzir
  • Quando produzir
  • Quanto produzir
  • Para quem produzir

Numa sociedade com nível mais aprofundado de democracia, essas perguntas são respondidas por toda a população, de modo deliberativo.

A economia capitalista de mercado forja uma regra (oferta e procura), pretensamente objetiva, a partir da qual as decisões que respondem às perguntas acima são transferidas para indivíduos ou empresas privadas (livre iniciativa e concorrência).


Sob essa falsa objetividade, instaura-se um regime autoritário que submete a esmagadora maioria da população a jornadas desnecessárias de trabalho ou de empreendedorismo, condenando outra parcela à exclusão econômica.

Oculta-se que as perguntas acima são respondidas por pequeno grupo de investidores e por empresas globais que efetivamente definem os rumos econômicos do planeta.

As decisões econômicas tomadas por esse pequeno grupo tendem a estruturar relações econômicas que o favorecem cada vez mais, aumentando a concentração de riquezas.

Com o avanço tecnológico, tal grupo pode desprezar a participação humana do processo produtivo dos bens, precarizando as relações de trabalho.

Aos poucos, com a disseminação de produtos financeiros e de uma economia de acionistas, a massa popular torna-se desnecessária até para o consumo, agravando-se a miséria.

Além disso, como as relações produtivas são estruturadas para favorecer o grupo capitalista, a meritocracia torna-se uma mentira, ocorrendo favorecimentos subjetivos e a perpetuação das classes pela herança.

Níveis de democracia

 Democracia significa que as pessoas participam das decisões mais importantes que interferem em sua vida.

Falando assim, fica evidente que as sociedades não são plenamente democráticas, pois a esmagadora maioria da população vive conforme regras e situações impostas previamente e sobre as quais não deliberaram.

Podemos considerar que há um primeiro nível de democracia, o mais superficial de todos, também o mais amplamente disseminado: a participação na escolha dos representantes  que ocupam postos estatais.

Esse nível materializa-se nas eleições periódicas e, eventualmente, em mecanismos como plebiscitos e referendos. Corresponde à democracia liberal.

O segundo nível de democracia é raro e ocorre na economia. Consiste na participação das pessoas nas decisões relativas ao objeto da produção e aos critérios de distribuição.

Nesse nível econômico, a sociedade decide o que deve ser produzido, por quem, quando e para quem.

No modelo liberal, essa decisão econômica é aberta a poucos, chamados de donos de empresas, acionistas, investidores... O critério para a decisão é subjetivo, focado no lucro, embora seus impactos atinjam a vida de todos.

Há alguns anos, seus defensores argumentavam que não existia uma racionalidade pública melhor do que essa racionalidade denominada de "competitiva". Defendiam, assim, a "livre iniciativa".

O primeiro quarto de século XXI revela o esgotamento desse autoritarismo econômico e a necessidade de efetivação do segundo nível de democracia. Essa economia tem agravado as desigualdades sociais e tornado explícita a falta de meritocracia.

A grande novidade para esse aprofundamento democrático é a digitalização da economia e a disseminação dos algoritmos. Observando-se o comportamento das redes sociais, algoritmos conseguem convencer pessoas a trabalharem gratuitamente produzindo, compartilhando e curtindo conteúdos.

Haveria, portanto, a possibilidade de, socializando-se os algoritmos, construir uma democracia econômica, superando a economia de mercado. Caberia à política conduzir esse processo.

A democracia liberal precisa ser superada

 A palavra democracia costuma ser definida como "governo do povo". Trata-se de uma situação em que o poder político pertence à população de um local e é exercido em nome de seus interesses comuns.

A primeira discussão que o conceito traz é a forma como esse poder será exercido: diretamente ou por representantes.

A democracia direta é aquela em que o povo delibera sobre as regras de sua sociedade, julga os conflitos e executa os serviços públicos. Nenhuma sociedade com muitos habitantes e um território amplo conseguiu utilizá-la.


O mais comum é a organização de um Estado e a seleção de pessoas para representar o povo, via concurso público ou votação.

Atualmente, o modelo representativo ainda hegemônico é a chamada democracia liberal, cuja representação nos principais postos decorre de eleições periódicas. Além disso, o Estado é dividido em três Poderes e seu funcionamento respeita o princípio da legalidade.

Esse modelo, contudo, revela-se incapaz de resolver graves problemas do presente, como o aumento da pobreza, a concentração de riqueza e a falta de meritocracia econômica.

Essa incapacidade faz surgir líderes que pretendem implementar novos modelos de democracia ou, no extremo, suprimi-la. Também propicia o fortalecimento de instituições externas ao Estado, como as igrejas evangélicas e as redes sociais.

O fortalecimento desses líderes e dessas instituições revela que qualquer tentativa de retorno ao modelo liberal sem uma resolução satisfatória para os três problemas apontados será efêmera e pouco efetiva.

Assim, a busca de amplas coalizões sociais entre beneficiários de direita e de esquerda do atual sistema tende a mobilizar cada vez menos pessoas, soando uma tentativa inócua de autopreservação de vantagens.

As novas forças tecnológicas produzidas pela sociedade digital devem ser incorporadas a um alargamento do processo democrático, superando o estreito conceito de democracia liberal que afasta o povo de uma participação concreta dos processos decisórios que afetam sua vida cotidiana.

Coronéis esclarecidos e jagunços digitais

 Na tradição brasileira, normalmente o "coronel" ocupava as principais posições de mando e mobilizava seus "jagunços" para fazerem o jogo sujo, permanecendo com as mãos limpas e a consciência "branca".

Com o avançar do século XX, muitos coronéis tornaram-se "esclarecidos", saindo das fazendas para os bancos acadêmicos, as presidências das empresas e os órgãos de imprensa.

Aprenderam línguas estrangeiras e beberam da cultura continental europeia e inglesa/norteamericana. Lideraram o país com um vasto umbigo, além de imensa dificuldade para aceitar o próprio povo, visto como inculto e violento, devendo ser educado.

Por isso, mantiveram a parceria com os jagunços, convertidos em assessores, orientandos, seguranças, matadores e milicianos. Enquanto o coronel esclarecido folheava os livros, seus jagunços davam tiros para o alto.

Com o século XXI e o advento da tecnologia digital, em especial das redes sociais, chegaram os novos colonizadores que rapidamente cooptaram os jagunços.

Sem perder a ternura, conservando a pistola e o facão, os jagunços se digitalizaram, levando sua proximidade do povo e seu grito de independência em relação aos velhos senhores para postagens e vitórias eleitorais.

Enquanto isso, os coronéis balançam suas teses sem entender que novos senhores globais vieram para mandar.


Referências e sugestões:

Gabriel Feltran

https://novosestudos.com.br/formas-elementares-da-vida-politica-sobre-o-movimento-totalitario-no-brasil-2013/#gsc.tab=0

https://filosofiapop.com.br/podcast/178-sistema-jagunco-com-gabriel-feltran/

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2023/03/lula-ainda-nao-despertou-para-a-contrarrevolucao-dos-jaguncos.shtml


A bolha progressista e a crueldade do capitalismo

 A bolha progressista, mesmo composta por grupos diferentes, converge em uma crença econômica: a de que o capitalismo é inevitável e pode organizar uma sociedade.

Enquanto a esquerda reformista considera que o Estado seja essencial para consumar essa organização, a direita democrática tende a demonizá-lo, preconizando seu afastamento do mercado e, até mesmo, das questões sociais.

Do lado da esquerda reformista aparecem os direitos sociais e os serviços públicos universais, enquanto a direita democrática preconiza a privatização e o focalismo. Entre elas, vários grupos intermediários defendendo níveis diferentes de intervencionismo.

Com o fortalecimento do neoliberalismo de esquerda, as diferenças diminuem e a convergência em torno do capitalismo aumenta. 

Essa bolha monopolizou os discursos públicos (político, científico e cultural) e governou países diversos no início do século XXI, estabelecendo seu momento de aparente prosperidade.

O desenvolvimento tecnológico, todavia, tornou a bolha obsoleta e incapaz de lidar com questões como o crescimento da miséria e o aumento da desigualdade. 

Suas respostas, sob o véu da democracia, não controlam mais a crueldade do capitalismo.


Eleições virais

Embora a palavra "viralizar" tenha ganhado os contornos atuais com as redes sociais, o fenômeno é antigo.

Podemos considerar "viral" qualquer conteúdo ou comportamento que seja amplamente divulgado e/ou copiado.

A "viralização" ganha contornos específicos com a disseminação da indústria cultural, convertendo produtos (filmes, séries, músicas) em sucessos num curto período de tempo.


Sua plenitude, contudo, viria com a internet, a consolidação das empresas digitais em nível global (Google-Youtube, Meta-Facebook, Instagram e WhatsApp), permitindo a disseminação em massa quase instantânea.

No contexto eleitoral, a "viralização" torna-se cada vez mais possível em virtude da digitalização dos partidos políticos e das campanhas.

Já apareceu, no Brasil, em eleições para Senador, ao menos desde 2016. Essas eleições têm uma peculiaridade: alta porcentagem de eleitores indecisos até a véspera da votação. São relativamente comuns as situações em que o terceiro colocado beneficia-se da "viralização" e termina como o mais votado.

Tendo-se em vista o equilíbrio entre os candidatos na disputa presidencial de 2022, podemos imaginar que quem "viralizar" na véspera da votação, vencerá.

Os jagunços digitais e a bolha tadicionalista

 A bolha tradicionalista congrega grupos diversos, como olavistas, denominações neopentecostais, forças militares e de segurança privada, neoliberais autoritários.

Neste momento, a maior afinidade entre tais grupos decorre da liderança populista de Jair Bolsonaro. Sua figura congrega os seguidores na missão de vencer a eleição e prosseguir governando o país.

Uma característica comum a parte dos grupos é a visão de que a modernidade é perniciosa, devendo ser rejeitada em bloco (capitalismo, Estado, ciência, escola, vacinação...).


Contraditoriamente, essa bolha que rejeita a modernidade domina com maestria recursos da sociedade contemporânea, como a disseminação de notícias em redes sociais e a articulação de partidos digitais.

Seus soldados mais potentes são personalidades das redes que misturam técnicas de combate dos velhos jagunços ao cálculo matemático e preciso da manipulação de algoritmos.

Graças a essa combinação, conseguem criar um efeito de congregar seguidores numa potência jamais imaginada nem por cangaceiros como Lampião e Corisco.

Aliás, comumente oscilam entre o cangaço e o jaguncismo.

Referências e sugestões:

Gabriel Feltran

https://novosestudos.com.br/formas-elementares-da-vida-politica-sobre-o-movimento-totalitario-no-brasil-2013/#gsc.tab=0

https://filosofiapop.com.br/podcast/178-sistema-jagunco-com-gabriel-feltran/

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2023/03/lula-ainda-nao-despertou-para-a-contrarrevolucao-dos-jaguncos.shtml



Como se ganha uma eleição - o voto útil

Numa sociedade dividida em duas bolhas eleitorais, ganha a eleição quem produzir o melhor discurso em um duplo sentido:

  1. Desunir a outra bolha;
  2. Unir ou, ao menos, não desunir sua própria bolha.

Nesse sentido, a estratégia da bolha tradicionalista foi perfeitamente executada em nosso primeiro turno. Conseguiu atingir alvos certeiros e produziu ou amplificou falas internas da bolha progressista contrárias ao voto útil.


Vejam bem: a bolha tradicionalista poderia ter produzido, inicialmente, um discurso contrário ao voto útil entre seus membros. Não o fez.

Caso o discurso contrário ao voto útil surgisse a partir de pessoas da bolha tradicionalista, geraria uma reação de desconfiança e de seu fortalecimento na bolha progressista. Não funcionaria.

A partir do momento em que tal discurso foi habilmente implementado na boca de pessoas da bolha progressista, conseguiu dividi-la e inviabilizar a vitória lulista.

Por outro lado, quanto mais a bolha esquerdista se via dividida nesse quesito, mais seu aparato oficial reforçava o discurso do voto útil, de modo espalhafatoso, sem calibrar os destinatários da comunicação.


Com isso, contraditoriamente, ao tentar silenciar os críticos internos ao voto útil, a bolha progressista causou uma dupla reação:

  1. Reforçou a fala de algumas dessas figuras, como Ciro e Simone, ainda que tenha mudado a opinião de outros menos importantes para o processo eleitoral;
  2. Gerou uma reação em cadeia na bolha tradicionalista, quase em nível privado, não detectada pela mídia da bolha progressista, pelo voto útil em Bolsonaro e seus candidatos.

A reação tradicionalista foi pontual e certeira, "viral", levando as eleições ao segundo turno e elegendo vários de seus candidatos.

Orçamento secreto e reeleição

Reportagem do jornal O Globo (06/10/22) revela que, dos 13 deputados que mais receberam fatias do orçamento secreto, 12 foram reeleitos. Isso resulta em uma porcentagem de 92% de reeleição.


Analisando-se os números da Câmara dos Deputados, 81% dos atuais deputados buscaram a reeleição. O índice normal de sucesso foi de 70%. Em outras palavras, de cada 10 deputados que tentaram a reeleição, 7 conseguiram.

Nesse sentido, as salgadas fatias do orçamento secreto ampliaram em 20% as probabilidades de reeleição, desequilibrando o processo democrático.  



Os mitos e suas bolhas eleitorais

Cada uma das bolhas em que se divide a sociedade brasileira hoje, sobretudo do ponto de vista eleitoral, é marcada por contradições internas insanáveis.

A bolha progressista, que congrega os grupos que acreditam no capitalismo liberal (esquerda, centro democrático, direita liberal) é marcada, dentre outras, por uma grande contradição: o papel do Estado na economia.

Já a bolha tradicionalista, que congrega grupos que não valorizam o capitalismo liberal (direita autoritária, centro neoliberal, cristãos conservadores), é dividida, dentre outras, pelo papel da religião na política de Estado.


O líder mítico de uma bolha eleitoral deve cumprir o papel de unificar seus membros, tornando as divisões internas invisíveis ou menos relevantes.

Olhando para o cenário brasileiro de agora, o "mito" Bolsonaro parece mais fortalecido para cumprir esse papel do que o "mito" Lula.

Quando observamos os apoios dos candidatos derrotados, é notória a quantidade de "ressalvas" ou "condições" formuladas pelos novos apoiadores de Lula em relação aos novos apoiadores de Bolsonaro, que aderem quase incondicionalmente a ele.

O erro da estratégia eleitoral progressista

 Por se tratar de uma eleição que transcorre em sociedade dividida, como acontece em várias partes do globo, é preciso ponderar que, muitas vezes, a melhor estratégia pode não ser a mais óbvia.

Nitidamente, a bolha progressista (esquerda, centro esquerda, direita liberal) buscou a estratégia mais óbvia: unir-se em torno de um candidato para a vitória já no primeiro turno.

Melhor estratégia, todavia, usou a bolha tradicionalista (direita autoritária, centro neoliberal, cristãos conservadores): priorizou causar a divisão na outra bolha, elegendo alvos certeiros.


Tendo-se em vista a competência esmagadoramente maior da bolha tradicionalista em utilizar recursos digitais, sua estratégia impediu o sucesso progressista.

Os alvos certeiros começaram a se manifestar, de dentro da bolha progressista, contrariamente à unificação pela vitória no primeiro turno.

Por outro lado, toda a campanha voltada para si da bolha progressista gerou uma reação unificadora na outra bolha, a tradicionalista.

Ou a bolha progressista prioriza gerar divisões na bolha tradicionalista ou perderá as eleições presidenciais.

As duas bolhas e os Institutos de Pesquisa Eleitoral

São dois universos que se dividem e se excluem reciprocamente. Por falta de melhor nome, chamemos o primeiro de Capitalismo Progressista e o segundo de Tradicionalismo Autoritário.

O Capitalismo Progressista é composto pela esquerda reformista, pela direita democrática e por todos aqueles que acreditam no liberalismo político.

O Tradicionalismo Autoritário é composto pela direita extremista, flertando com o fascismo e o nazismo, pelo religioso radicalizado e todos aqueles que buscam um retorno social e cultural ao passado pré-capitalista.



Esses universos fecham-se em bolhas cada vez mais autossuficientes, retroalimentando um círculo comunicacional e ideológico.

Quem vive dentro de um desses universos, além de não entender o outro, tem grande dificuldade até mesmo para enxergá-lo.

Um exemplo disso é a dificuldade de institutos de pesquisa eleitoral de medir o resultado dos pleitos. Essa dificuldade apareceu em eleições norteamericanas e nas eleições brasileiras de 2022. Institutos situados na bolha Capitalista Progressista não detectaram a bolha Tradicional Autoritária.